Uma estação estação-felicidade que me leva a 2012...
Transcrevo aqui os poemas das páginas do minilivro 4a Estação, que traz quatro poemas meus, com concepção e design de Raquel Matsushita, capas em serigrafia realizadas por Cesar (Arteoficina).
Capa de 4a Estação
Verão
Disseminação.
Recolha.
Tempo de recolher palavras
E disseminar sentimentos.
Momento de areia branca,
fundo azul, palavras sonoras:
sereia, farol, maresia, conchas.
Mas sou a mesma de sempre.
Essa mulher que quer ganhar
os mares e o mundo.
Outono
Dia de outono,
sol frágil
e delicado
faz o degelo.
Aquecido,
o coração
quer mais.
E há de ter...
Inverno
Dia inglês.
Dia vestido de cinza.
Lã delicada,
sensação de lareira.
O horizonte chumbo,
só me restam o recolhimento
e uma espécie
de oração silenciosa
ecoando ao mundo
esta felicidade clandestina.
Primavera
Leve torpor nos sentidos.
A natureza: luz delicada
e cores recém-nascidas.
No mundo dos homens, alvoroço.
Tudo pode acontecer ––
Ao chegar, estarei pronta.
E direi as palavras mágicas:
Pode entrar.
Na minha casa.
E no meu coração.
Sandra Brazil / Literatura, poemas, contos, crônicas, cinema, viagens. O título deste blogue se refere à poeta grega Safo de Lesbos e sua filha Cleïs, a quem ela dedicou o belo poema "O tesouro".
Quem sou eu
- Sandra Brazil
- No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Dia de falar de amizade, trabalho e de meu minilivro. Hoje é dia de falar de Raquel Matsushita
Conheço Raquel Matsu -- no fundo, ela não gosta que eu a chame assim, mas quando digo isso ela fala: "ah, eu não ligo!" -- desde que Isadora tinha 5 anos. Ela já tem 24.
Raquel Matsushita fazia parte de uma turma para a qual eu, recém-separada, acabara de entrar, apresentada por Renata, que eu conhecera nos bancos da faculdade de Letras e de quem fui muito amiga durante anos, inclusive da família, de quem tenho muita saudade até hoje. Eles foram meu esteio durante muito tempo depois da minha separação.
Eu não tinha turma nenhuma nessa época, porque os amigos de meu ex-marido não queriam conversa comigo, já que fora eu quem decidira pela separação, portanto, tive que me apegar aos amigos mais jovens, universitários, tomar cervejas em botecos, participar de festas do 'brega', ir a bairros escusos em festas 'estranhas e gente esquisita', para poder voltar à vida naquela fase elo perdido em que me via. A turma era ótima. Meninos e meninas inteligentes, politizados, engajados, cinéfilos, gostavam de arte, música. Adorei e fiquei muito tempo ali. O elo perdido acabou se tornando um 'estar'.
Eu sei que todos adoravam Isadora, minha filha. Uma menina doce, quietinha, ia às festas e quando batia o sono não ficava manhosa nem chata, apenas desaparecia. Quando víamos, estava dormindo deitada atrás de um sofá, ou no colo de alguém no meio da festa, todos dançando, ela ali, como um anjo. Eu eu falava: "Vamos embora, filha". Ela não queria. Acho que gostava de dormir no meio daquela muvuca em que a mãe a levava. Acho que ela pensava: "Ao menos estou com minha mãe..."
Eu tinha um apelido na turma que era Chiquérrima, que foi Daniela quem me deu, e todos adotaram (de chiquérrima, eu não tinha nada naquele tempo -- nem agora. Duranguésima naquela fase inicial de separação, estava difícil manter até a escola da Isadora, imagine me manter chique!...).
Bem, sei que por razões que não revelarei aqui, todo mundo gostava da Chiquérrima, convidava pras festas e petit comitês, mas Raquel olhava a Chiquérrima de esguelha, e eu percebia claramente isso. Ficava na minha, que sei que é a melhor estratégia quando não gostam da gente ou têm alguma desconfiança de nós...
Mas o tempo passou, a vida foi tomando outros rumos, a turma foi tomando sua estrada. E um dia, cerca de uns três anos depois, recebi um telefonema: "Oi, tudo bom... É a Raquel!" Fiquei surpresa... "Foi a Renata quem me deu seu telefone." Eu não estava entendendo nada, afinal, ela não ia muito com a minha cara na época da turma, apesar de eu sempre ter simpatizado com ela e ter tido vontade de estreitar e fazer amizade. Ela parecia inteligente e cheia de vida, e gosto de pessoas assim. Além disso, bem mais jovem que eu, ela trabalhava já com design gráfico e livros, e isso a tornava bem interessante aos meus olhos, mas ela nunca me deixara aproximar.
Bom, sei que fiquei na moita esperando o que ela ia dizer naquele telefonema-surpresa. Aí ela, que é muito objetiva e chocantemente direta quando quer dizer alguma coisa, me disse assim: "Eu não gostava de você por isso e isso e isso... Mas eu quero ser sua amiga agora." Fui achando bonitinho e engraçado, porque eu pensei: "será que vamos conseguir depois de ela ter me esnobado tanto tempo..."
Sei que, leitores, não duvidem de um taurino: quando ele quer uma coisa, ele consegue essa coisa, custe o que custar. Marcamos um cinema, eu furei. Pensei, ela vai desistir de mim, e isso me entristeceu. Aí liguei pra ela e me desculpei. Ela desculpou e marcou um café. Fui e consegui chegar muito pouco atrasada (ela é muito pontual!).
A partir desse dia, nunca mais nos desgrudamos. Eu vi seu namoro desenvolver, crescer, a vi se casar, vi seus filhos nascerem, crescerem, seu estúdio iniciar, decolar, vi seu trabalho ser premiado, reconhecido, elogiado, aplaudido. Vi ela amadurecer, virar mulher. Ela viu toda minha separação recente, minhas dificuldades financeiras iniciais, minha falta de casa no começo, a compra da casa, a melhora significativa financeira depois de tempos, a chegada dos meus amores, e a partida deles também (pois que somos diferesntes, ela taurina, tem relações estáveis, fincadas no chão. Eu, sagitariana arisca, gosto de estabilidade -- por 4 anos, no máximo.), viu Isadora crescer, se tornar mulher.
E há o plus: por vezes, trabalhamos juntas. Não é sempre, mas há projetos em que acabou dando certo trabalharmos. Ela faz o design e eu, edito o texto, sejam projetos pessoais nossos -- uma agenda, ou o livro de Selma Perez, por exemplo, sejam livros de alguma editora, como O elefante infante, por exemplo, da editora Musa.
No trabalho também nos afinamos, porque somos detalhistas parecidas e criteriosas com resultado e estética. É uma delícia para mim, porque sou fã do trabalho dela.
Bem, eu poderia passar a tarde aqui falando dela, das suas qualidades, e dessa amizade, dos nossos trabalhos, desses anos todos, de coisas engraçadíssimas que já vivemos juntas, das coisas engraçadas que ela diz sem pensar e aí ela pisca como se fosse um mangá e pergunta: "Tuntis, é isso mesmo?..." E eu rio e digo: "Não... é outra palavra, não é esta! Mas eu entendi o que você quer dizer." E caímos na gargalhada.
Mas hoje especialmente tenho que falar de algo que selou nossa amizade, como aquelas cartas antigas seladas a cera quente com um carimbo belíssimo com iniciais de nome... Raquel me deu de presente a concepção e o design de um minilivro (meu primeiro) com quatro poemas meus que trazem no verso um calendário 2012, que enviei aos amigos, profissionais com quem trabalho, editores, autores e familiares e todos que acharem bonito e quiserem podem me pedir que posso enviar pelo correio.
Eu pedi a ela um calendário 2012 apenas. Mas ela pensou um pouco, piscou o olharzinho de mangá e falou animada: "Por que a gente não faz um livriiiinho seu com calendário junto..." Eu nem havia pensado nisso...
Ela pegou o guardanapo do café onde estávamos e fez rapidamente uma dobradura e me mostrou como ficaria o esboço. Pronto! Topei na hora.
Daí, foram alguns dias para minha ideia das estações que me levaram aos poemas, e ela foi atrás de parceria para as capas belíssimas em serigrafia, realizadas por Cesar, da Arteoficina. Uma ideia que tornou o livro ainda mais sofisticado e artístico. Um "brinco", como se diz.
Bem, foram dois meses de trabalho, ela desenhando o projeto gráfico, tratando com a gráfica, com a serigrafia, e enfim, o minilivro ficou pronto e o resultado não poderia ser outro para mim: belíssimo e delicado, como eu gostaria.
Um minilivro que vem pôr mais um degrau em nossa amizade de tantos anos, tantas coisas, tantos fatos; mas um degrau diferente, de mais estreitamento, se é que isso é possível numa amizade já tão estreita e comprometida como a nossa...
Raquel, torno público aqui meu obrigada pelo lindo presente que você me deu. Mais que o design, sei que o que está por trás do seu intento: seu desejo de que minhas palavras fluam pelo mundo. Eu sei...
(E que bom que elas toquem as pessoas acompanhadas do aspecto delicado e belo de seu desenho e de seu olhar sensível para o mundo...)
Nosso código: Tandandandandan
Foto de capa
4a estação
Concepção e design Raquel Matsushita (Entrelinha Design)
Serigrafia (Arteoficina)
Minilivro-calendário de mesa.
Páginas internas do minilivro.
Verso do minilivro: o calendário 2012.
Contracapa: uma estação-felicidade para todos nós em 2012.
Raquel Matsushita fazia parte de uma turma para a qual eu, recém-separada, acabara de entrar, apresentada por Renata, que eu conhecera nos bancos da faculdade de Letras e de quem fui muito amiga durante anos, inclusive da família, de quem tenho muita saudade até hoje. Eles foram meu esteio durante muito tempo depois da minha separação.
Eu não tinha turma nenhuma nessa época, porque os amigos de meu ex-marido não queriam conversa comigo, já que fora eu quem decidira pela separação, portanto, tive que me apegar aos amigos mais jovens, universitários, tomar cervejas em botecos, participar de festas do 'brega', ir a bairros escusos em festas 'estranhas e gente esquisita', para poder voltar à vida naquela fase elo perdido em que me via. A turma era ótima. Meninos e meninas inteligentes, politizados, engajados, cinéfilos, gostavam de arte, música. Adorei e fiquei muito tempo ali. O elo perdido acabou se tornando um 'estar'.
Eu sei que todos adoravam Isadora, minha filha. Uma menina doce, quietinha, ia às festas e quando batia o sono não ficava manhosa nem chata, apenas desaparecia. Quando víamos, estava dormindo deitada atrás de um sofá, ou no colo de alguém no meio da festa, todos dançando, ela ali, como um anjo. Eu eu falava: "Vamos embora, filha". Ela não queria. Acho que gostava de dormir no meio daquela muvuca em que a mãe a levava. Acho que ela pensava: "Ao menos estou com minha mãe..."
Eu tinha um apelido na turma que era Chiquérrima, que foi Daniela quem me deu, e todos adotaram (de chiquérrima, eu não tinha nada naquele tempo -- nem agora. Duranguésima naquela fase inicial de separação, estava difícil manter até a escola da Isadora, imagine me manter chique!...).
Bem, sei que por razões que não revelarei aqui, todo mundo gostava da Chiquérrima, convidava pras festas e petit comitês, mas Raquel olhava a Chiquérrima de esguelha, e eu percebia claramente isso. Ficava na minha, que sei que é a melhor estratégia quando não gostam da gente ou têm alguma desconfiança de nós...
Mas o tempo passou, a vida foi tomando outros rumos, a turma foi tomando sua estrada. E um dia, cerca de uns três anos depois, recebi um telefonema: "Oi, tudo bom... É a Raquel!" Fiquei surpresa... "Foi a Renata quem me deu seu telefone." Eu não estava entendendo nada, afinal, ela não ia muito com a minha cara na época da turma, apesar de eu sempre ter simpatizado com ela e ter tido vontade de estreitar e fazer amizade. Ela parecia inteligente e cheia de vida, e gosto de pessoas assim. Além disso, bem mais jovem que eu, ela trabalhava já com design gráfico e livros, e isso a tornava bem interessante aos meus olhos, mas ela nunca me deixara aproximar.
Bom, sei que fiquei na moita esperando o que ela ia dizer naquele telefonema-surpresa. Aí ela, que é muito objetiva e chocantemente direta quando quer dizer alguma coisa, me disse assim: "Eu não gostava de você por isso e isso e isso... Mas eu quero ser sua amiga agora." Fui achando bonitinho e engraçado, porque eu pensei: "será que vamos conseguir depois de ela ter me esnobado tanto tempo..."
Sei que, leitores, não duvidem de um taurino: quando ele quer uma coisa, ele consegue essa coisa, custe o que custar. Marcamos um cinema, eu furei. Pensei, ela vai desistir de mim, e isso me entristeceu. Aí liguei pra ela e me desculpei. Ela desculpou e marcou um café. Fui e consegui chegar muito pouco atrasada (ela é muito pontual!).
A partir desse dia, nunca mais nos desgrudamos. Eu vi seu namoro desenvolver, crescer, a vi se casar, vi seus filhos nascerem, crescerem, seu estúdio iniciar, decolar, vi seu trabalho ser premiado, reconhecido, elogiado, aplaudido. Vi ela amadurecer, virar mulher. Ela viu toda minha separação recente, minhas dificuldades financeiras iniciais, minha falta de casa no começo, a compra da casa, a melhora significativa financeira depois de tempos, a chegada dos meus amores, e a partida deles também (pois que somos diferesntes, ela taurina, tem relações estáveis, fincadas no chão. Eu, sagitariana arisca, gosto de estabilidade -- por 4 anos, no máximo.), viu Isadora crescer, se tornar mulher.
E há o plus: por vezes, trabalhamos juntas. Não é sempre, mas há projetos em que acabou dando certo trabalharmos. Ela faz o design e eu, edito o texto, sejam projetos pessoais nossos -- uma agenda, ou o livro de Selma Perez, por exemplo, sejam livros de alguma editora, como O elefante infante, por exemplo, da editora Musa.
No trabalho também nos afinamos, porque somos detalhistas parecidas e criteriosas com resultado e estética. É uma delícia para mim, porque sou fã do trabalho dela.
Bem, eu poderia passar a tarde aqui falando dela, das suas qualidades, e dessa amizade, dos nossos trabalhos, desses anos todos, de coisas engraçadíssimas que já vivemos juntas, das coisas engraçadas que ela diz sem pensar e aí ela pisca como se fosse um mangá e pergunta: "Tuntis, é isso mesmo?..." E eu rio e digo: "Não... é outra palavra, não é esta! Mas eu entendi o que você quer dizer." E caímos na gargalhada.
Mas hoje especialmente tenho que falar de algo que selou nossa amizade, como aquelas cartas antigas seladas a cera quente com um carimbo belíssimo com iniciais de nome... Raquel me deu de presente a concepção e o design de um minilivro (meu primeiro) com quatro poemas meus que trazem no verso um calendário 2012, que enviei aos amigos, profissionais com quem trabalho, editores, autores e familiares e todos que acharem bonito e quiserem podem me pedir que posso enviar pelo correio.
Eu pedi a ela um calendário 2012 apenas. Mas ela pensou um pouco, piscou o olharzinho de mangá e falou animada: "Por que a gente não faz um livriiiinho seu com calendário junto..." Eu nem havia pensado nisso...
Ela pegou o guardanapo do café onde estávamos e fez rapidamente uma dobradura e me mostrou como ficaria o esboço. Pronto! Topei na hora.
Daí, foram alguns dias para minha ideia das estações que me levaram aos poemas, e ela foi atrás de parceria para as capas belíssimas em serigrafia, realizadas por Cesar, da Arteoficina. Uma ideia que tornou o livro ainda mais sofisticado e artístico. Um "brinco", como se diz.
Bem, foram dois meses de trabalho, ela desenhando o projeto gráfico, tratando com a gráfica, com a serigrafia, e enfim, o minilivro ficou pronto e o resultado não poderia ser outro para mim: belíssimo e delicado, como eu gostaria.
Um minilivro que vem pôr mais um degrau em nossa amizade de tantos anos, tantas coisas, tantos fatos; mas um degrau diferente, de mais estreitamento, se é que isso é possível numa amizade já tão estreita e comprometida como a nossa...
Raquel, torno público aqui meu obrigada pelo lindo presente que você me deu. Mais que o design, sei que o que está por trás do seu intento: seu desejo de que minhas palavras fluam pelo mundo. Eu sei...
(E que bom que elas toquem as pessoas acompanhadas do aspecto delicado e belo de seu desenho e de seu olhar sensível para o mundo...)
Nosso código: Tandandandandan
Foto de capa
4a estação
Concepção e design Raquel Matsushita (Entrelinha Design)
Serigrafia (Arteoficina)
Minilivro-calendário de mesa.
Páginas internas do minilivro.
Verso do minilivro: o calendário 2012.
Contracapa: uma estação-felicidade para todos nós em 2012.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Sem olhar para trás 2
Mão única
-- é proibido
voltar atrás
e chorar.
(Orides Fontela. In Poesia reunida. Cosac Naify-7 Letras, 2006.)
-- é proibido
voltar atrás
e chorar.
(Orides Fontela. In Poesia reunida. Cosac Naify-7 Letras, 2006.)
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Paciência
O Ministério adverte: ouvir o link do youtube torna este texto mais gostoso:
http://www.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w
Absorvida num sorveudoro, como se não conseguisse jamais voltar à superfície. Prazos, pressão, "até o dia 23.12, impreterivelmente, sem prorrogação", "você viaja no feriado prolongado das festas ou vai trabalhar?" é a pergunta mais frequente que me fazem desde o início de dezembro; "pode pegar 700 laudas até dia 2.1.2012?"; "consegue fazer 300 páginas em dois dias?"...
Motoqueiros chegam à minha portaria, exautos pela pressão que sofrem para entregar com urgência trabalhos -- que eu realmente não sei se tinha tanta urgência assim (que deu o start da urgência, alguém perguntou?...) -- que no prazo de algumas horas devem ser novamente desembocados como uma pizza numa fornalha tosca, como se não fossem tecidos de palavras, e frases, e ideias, e conceitos, e concatenações, e argumentações, e sentido, e ironias finas, ou simplesmente nonsense estabelecido. São textos, mas parecem pizzas, tamanha a velocidade que me pedem para imprimir à leitura, sobretudo nessa época do ano.
Os motoboys então vêm retirar o "urgente" pacote, o livro, cansados, exaustos e abatidos, eletrizados pelo trafegar no trânsito entre buzinaços e xingamentos e época de Natal. Um caos indiano de buzinas e carros apertados entre si, e motos em fileiras como num longo fio imaginário a pensar: "tenho urgência, tenho urgância" -- mas de que mesmo?...
Eu faço o que me pedem, mas vou "na minha valsa", como diz a música. Se é fora da realidade humana, ultimamente tenho dito não, ou proposto um prazo humano e cumprível, caso se queira que eu realmente faça o tal livro ou catálogo ou revista ou fôlder. Caso contrário, haverá outro trabalho me esperando no Universo, que seja cumprível humanamente, sem ultrapassar minha capacidade mental e intectual e física, como eu costumava fazer no passado, simplesmente para dar conta "daquele start", a tal urgência que alguém mencionou e ninguém sequer questionou por quê!
Vi muitas vezes profissionais que pressionaram um colaborador ao telefone por questão de um dia de entrega. O trabalho chegou. O colaborador se exauriu para cumprir. Mas o trabalho, observei, ficaria mais de uma semana parado sobre a mesa de quem pressionou a entrega urgente. Só depois de dias ele(a) abriria o pacote para afinal verificar o material trabalhado.
Minha paciência foi se estreitando para essas pequenas coisas do ser humano. Sobretudo se trabalhamos em uma empresa e vemos estas coisas com os próprios olhos.
Portanto, estabelecer minha própria empresa, do meu jeito, e aceitar ou não certas condições de trabalho, neste mundo neoescravagista, é minha forma de resistência a tudo isso e minha forma de me colocar no mundo. Eu "trabalho" para o capital (péssima e dolorida verdade e constatação) porque sobrevivo dele, infelizmente, mas não me rendo à sua roda de dentes ameaçadores, voraz, que rende almas, juventude, saúde, tempo com os filhos, com o namorado, marido, amigos, tempo para a caminhada e ginástica diária ou uma tacinha de vinho e conversa num fim de tarde (porque o capital impõe que você precisa produzir no mínimo 14 horas por dia...).
Se quero ganhar mais, me rendo a mais horas e a prazos mais estreitos por espontânea vontade. Quando não quero, "vou na valsa" do meu limite, e absorvo os trabalhos que quero fazer, da natureza que me interessa, no prazo que acho que conseguirei cumprir...
Moça no trigal, de Eliseu Visconti (1912)
Paciência... Eu tenho, leitores.
O mundo acelera e pede pressa, mas eu me recuso e vou na valsa, sou uma sagitariana resistente... O corpo pede alma, e eu dou a ele o que ele quer, sempre que posso.
Esta é uma aquisição recente. (Antes tarde do que nunca, diz minha mãe.) E escrever isso me traz um arrepio de felicidade. Amadurecer traz craquelares no corpo, mas traz ganhos para a emoção e a mente. É como despertar para algo completamente novo, mas que estava bem ali, diante de você.
A vida é rara.
Cara.
E curta.
http://www.youtube.com/watch?v=sXmWAOIWg3w
Absorvida num sorveudoro, como se não conseguisse jamais voltar à superfície. Prazos, pressão, "até o dia 23.12, impreterivelmente, sem prorrogação", "você viaja no feriado prolongado das festas ou vai trabalhar?" é a pergunta mais frequente que me fazem desde o início de dezembro; "pode pegar 700 laudas até dia 2.1.2012?"; "consegue fazer 300 páginas em dois dias?"...
Motoqueiros chegam à minha portaria, exautos pela pressão que sofrem para entregar com urgência trabalhos -- que eu realmente não sei se tinha tanta urgência assim (que deu o start da urgência, alguém perguntou?...) -- que no prazo de algumas horas devem ser novamente desembocados como uma pizza numa fornalha tosca, como se não fossem tecidos de palavras, e frases, e ideias, e conceitos, e concatenações, e argumentações, e sentido, e ironias finas, ou simplesmente nonsense estabelecido. São textos, mas parecem pizzas, tamanha a velocidade que me pedem para imprimir à leitura, sobretudo nessa época do ano.
Os motoboys então vêm retirar o "urgente" pacote, o livro, cansados, exaustos e abatidos, eletrizados pelo trafegar no trânsito entre buzinaços e xingamentos e época de Natal. Um caos indiano de buzinas e carros apertados entre si, e motos em fileiras como num longo fio imaginário a pensar: "tenho urgência, tenho urgância" -- mas de que mesmo?...
Eu faço o que me pedem, mas vou "na minha valsa", como diz a música. Se é fora da realidade humana, ultimamente tenho dito não, ou proposto um prazo humano e cumprível, caso se queira que eu realmente faça o tal livro ou catálogo ou revista ou fôlder. Caso contrário, haverá outro trabalho me esperando no Universo, que seja cumprível humanamente, sem ultrapassar minha capacidade mental e intectual e física, como eu costumava fazer no passado, simplesmente para dar conta "daquele start", a tal urgência que alguém mencionou e ninguém sequer questionou por quê!
Vi muitas vezes profissionais que pressionaram um colaborador ao telefone por questão de um dia de entrega. O trabalho chegou. O colaborador se exauriu para cumprir. Mas o trabalho, observei, ficaria mais de uma semana parado sobre a mesa de quem pressionou a entrega urgente. Só depois de dias ele(a) abriria o pacote para afinal verificar o material trabalhado.
Minha paciência foi se estreitando para essas pequenas coisas do ser humano. Sobretudo se trabalhamos em uma empresa e vemos estas coisas com os próprios olhos.
Portanto, estabelecer minha própria empresa, do meu jeito, e aceitar ou não certas condições de trabalho, neste mundo neoescravagista, é minha forma de resistência a tudo isso e minha forma de me colocar no mundo. Eu "trabalho" para o capital (péssima e dolorida verdade e constatação) porque sobrevivo dele, infelizmente, mas não me rendo à sua roda de dentes ameaçadores, voraz, que rende almas, juventude, saúde, tempo com os filhos, com o namorado, marido, amigos, tempo para a caminhada e ginástica diária ou uma tacinha de vinho e conversa num fim de tarde (porque o capital impõe que você precisa produzir no mínimo 14 horas por dia...).
Se quero ganhar mais, me rendo a mais horas e a prazos mais estreitos por espontânea vontade. Quando não quero, "vou na valsa" do meu limite, e absorvo os trabalhos que quero fazer, da natureza que me interessa, no prazo que acho que conseguirei cumprir...
Moça no trigal, de Eliseu Visconti (1912)
Paciência... Eu tenho, leitores.
O mundo acelera e pede pressa, mas eu me recuso e vou na valsa, sou uma sagitariana resistente... O corpo pede alma, e eu dou a ele o que ele quer, sempre que posso.
Esta é uma aquisição recente. (Antes tarde do que nunca, diz minha mãe.) E escrever isso me traz um arrepio de felicidade. Amadurecer traz craquelares no corpo, mas traz ganhos para a emoção e a mente. É como despertar para algo completamente novo, mas que estava bem ali, diante de você.
A vida é rara.
Cara.
E curta.
domingo, 18 de dezembro de 2011
Quando o Rio de Janeiro é aqui
Fim de tarde. Domingo.
Enquanto meu vizinho aqui do lado não sobe e toma minha vista, que foi minha durante 15 anos, quase 180 graus totais de visão de avenidas ao longe, prédios, montanhas e parque e verde e céu azul -- às vezes chumbo --, eu ainda tenho a janela-moça-do-tempo e o céu só para mim...
Ele está ainda lá no chão, na terraplanagem, como dizem. Corro contra o tempo, fotografo minhas paisagens: dia de chuva, dia de sol, dia nublado, dia chumbo, dia triste, dia alegre, dias difíceis, dias fáceis como vaselina... (Eles existem, creiam.)
Aqui no meu escritório, corro contra o tempo: para entregar trabalhos de prazos incumpríveis, para entregar meu minilivro (assunto para outro post) que ficou pronto aos amigos por um correio nervoso e ineficiente e para aproveitar a minha moça do tempo até a última gota.
O fim de tarde, no verão, é belíssimo aqui. Por isso, inclusive, a escolha de colocar o escritório aqui. Fim de tarde, para-se tudo na pizzaria: toma-se um café ou capuccino, olha-se a janela e o sol dando adeus. É belísismo e refrescante.
Pois não é que hoje, tentando cumprir mais um prazo incumprível, como sempre, ouvindo a deliciosa voz de Paula Toller para aliviar minha ansiedade (cumprirei o prazo incumprível?), olhei pela janela moça do tempo e vi o parque, as árvores com a copa dourada pelo pôr de sol dourado, o céu avermelhado e uma imagem belíssima de um fim de tarde indescritível.
Tive que interromper meu prazo incumprível, tirar os óculos, e admirar a natureza me chamando: Sandra, a vida é bela e tem cores lindas, de aquarela. Pare e veja.
Parei tudo. Reverenciei a natureza e deixei a música amaciando meus ouvidos...
A suavidade da tarde me levou a um elevado que nos leva na entrada do Rio de Janeiro aos bairros da zona Sul carioca... Tantas vezes passei por ele, com aquela felicidade louca no coração. Sabendo que a vida aqueles dias seria deliciosa, sempre. Fosse com minha filha, com um namorado, solo, com uma amiga ou amigo, ou amigos, ou marido. Sempre o Rio é uma alegria pra mim. Eu adoro a geografia e aquele jeito dos cariocas de viver a vida.
Na foto, o Arpoador, no Rio de Janeiro.
E hoje à tarde, vendo esse pôr de sol dourado nas árvores e esse avermelhado no céu tudo me levou ao elevado-bala que me leva às deliciosas praias da zona Sul carioca, onde vivi tantas coisas boas, onde vi minha filha crescer feliz nas areias e nos cinemas e naqueles passeios debaixo da sombras das árvores em dias quentíssimos. Onde amei e fui amada, onde conheci tantas coisas boas e deliciosas da vida debaixo do sol e do Cristo redentor, do Morro Dois-Irmãos, do Calçadão e do Arpoador.
O Rio se transportou um momentinho para cá, para o meu coração.
Boa lembrança! Vou reservar já minha passagem! :-)))
Enquanto meu vizinho aqui do lado não sobe e toma minha vista, que foi minha durante 15 anos, quase 180 graus totais de visão de avenidas ao longe, prédios, montanhas e parque e verde e céu azul -- às vezes chumbo --, eu ainda tenho a janela-moça-do-tempo e o céu só para mim...
Ele está ainda lá no chão, na terraplanagem, como dizem. Corro contra o tempo, fotografo minhas paisagens: dia de chuva, dia de sol, dia nublado, dia chumbo, dia triste, dia alegre, dias difíceis, dias fáceis como vaselina... (Eles existem, creiam.)
Aqui no meu escritório, corro contra o tempo: para entregar trabalhos de prazos incumpríveis, para entregar meu minilivro (assunto para outro post) que ficou pronto aos amigos por um correio nervoso e ineficiente e para aproveitar a minha moça do tempo até a última gota.
O fim de tarde, no verão, é belíssimo aqui. Por isso, inclusive, a escolha de colocar o escritório aqui. Fim de tarde, para-se tudo na pizzaria: toma-se um café ou capuccino, olha-se a janela e o sol dando adeus. É belísismo e refrescante.
Pois não é que hoje, tentando cumprir mais um prazo incumprível, como sempre, ouvindo a deliciosa voz de Paula Toller para aliviar minha ansiedade (cumprirei o prazo incumprível?), olhei pela janela moça do tempo e vi o parque, as árvores com a copa dourada pelo pôr de sol dourado, o céu avermelhado e uma imagem belíssima de um fim de tarde indescritível.
Tive que interromper meu prazo incumprível, tirar os óculos, e admirar a natureza me chamando: Sandra, a vida é bela e tem cores lindas, de aquarela. Pare e veja.
Parei tudo. Reverenciei a natureza e deixei a música amaciando meus ouvidos...
A suavidade da tarde me levou a um elevado que nos leva na entrada do Rio de Janeiro aos bairros da zona Sul carioca... Tantas vezes passei por ele, com aquela felicidade louca no coração. Sabendo que a vida aqueles dias seria deliciosa, sempre. Fosse com minha filha, com um namorado, solo, com uma amiga ou amigo, ou amigos, ou marido. Sempre o Rio é uma alegria pra mim. Eu adoro a geografia e aquele jeito dos cariocas de viver a vida.
Na foto, o Arpoador, no Rio de Janeiro.
E hoje à tarde, vendo esse pôr de sol dourado nas árvores e esse avermelhado no céu tudo me levou ao elevado-bala que me leva às deliciosas praias da zona Sul carioca, onde vivi tantas coisas boas, onde vi minha filha crescer feliz nas areias e nos cinemas e naqueles passeios debaixo da sombras das árvores em dias quentíssimos. Onde amei e fui amada, onde conheci tantas coisas boas e deliciosas da vida debaixo do sol e do Cristo redentor, do Morro Dois-Irmãos, do Calçadão e do Arpoador.
O Rio se transportou um momentinho para cá, para o meu coração.
Boa lembrança! Vou reservar já minha passagem! :-)))
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Hoje é dia de Biblioteca do Chacrinha! Vamos receberrrrrr: Orides Fontela!
Orides Fontela, a poeta selvagem
Foto de Juan Esteves
Orides Fontela é como um felino: semeia as palavras devagar, argutamente, olhar de tigre. De repente, nos damos conta, ela armou o bote e caímos em seu desfecho cruel.
Carta
Da
vida
não se espera resposta.
As trocas
Um fruto por um
ácido
um sol por um
sigilo
o oceano por um
núcleo
o espaço por um
silêncio
-- riquezas por uma
nudez
[Orides Fontela. "Carta" e "As trocas". In: Poesia reuinda. 7 Letras/Cosac Naify. 2006. (Coleção Ás de Colete).]
Conheci a poesia de Orides Fontela nos início dos anos 90, na época, por meio de meu amigo Davi Arrigucci, que me foi apresentado por meu outro amigo Osvaldo Ceschin, ambos professores da USP.
Davi então me apresentou aos poemas de Cacaso e Orides. Foi uma descoberta. Ele me contou histórias pessoais, biográficas de Orides. Algumas estão contadas nas biografias da própria, outras são histórias da amizade de ambos que não revelo aqui.
Sei que me apaixonei pela felina e selvagem poesia de Orides, a outsider Orides, suas complicações e seu gênio difícil que a faziam criar casos, se indispor com todos, inclusive seus amigos mais íntimos, e que geravam histórias tristes e desfechos melancólicos, e algumas vezes histórias cômicas e muito engraçadas, por ser trágicas, se tornavam cômicas.
NO entanto, sua poesia é de uma força incontestável. Orides constrói o corpo lírico mirando certo escárnio ao final, como se estivesse já espreitando atrás da porta a reação adversa do leitor. Tudo isso vem embalado num rio lexical sem grandes pretensões, em que Orides vai disseminando seu talento poético sem pressa, porque parece saber muito bem onde quer chegar. O desfecho, o bote armado. A armadilha onde Orides deposita todo seu engenho. Por isso selvagem. Por isso felina.
Sua obra reunida foi publicada em 2006 na Coleção Ás de Colete pela CosacNaify/7 Letras. Uma edição caprichada, impressa em papel pólen soft 80g (um charme), capa dura envolta em tecido e com ilustração colada na primeira capa, como nos livros da minha infância; uma guarda de folhas duplas com fundo texturizado abre e fecha a preciosa edição dessa coleção. Eu garanti meu exemplar. Vocês não vão garantir o seu? Nem que seja num sebo (caso não haja mais nas livrarias) e ter uma pérola como esta na sua estante:
Mão única
-- é proibido
voltar atrás
e chorar.
Então, leitores, eu os convenci?
A seguir, dois textos da Revista Agulha de literatura (disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/of.html#inicio)
Um pouco de Orides
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Começou a escrever poemas aos sete anos de idade. Como ela mesma dizia, sua família "não tinha base cultural, meu pai era operário analfabeto, de modo que a cultura que peguei foi na base do ginásio, escola normal e leitura". Aos 27 anos, deixou sua cidade e veio morar em São Paulo, com dois sonhos em mente: estudar na USP e publicar um livro. Conseguiu realizar ambos: estudou Filosofia e publicou seu primeiro livro, Transposição, com a ajuda do professor de literatura brasileira Davi Arrigucci Jr., seu conterrâneo.
Depois de formada, foi professora do primário e bibliotecária em escolas da rede estadual de ensino. Publicou ainda Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo 1969-1988 (1988) e Teia (1996). Com Alba, recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983; e com Teia, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996. Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, indo viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante**, um velho prédio na Avenida São João. De personalidade difícil, Orides muitas vezes se indispôs com seus melhores amigos. Faleceu em Campos de Jordão, aos 58 anos. (Texto adaptado.)
(** Gerda Scröder vive até hoje na Casa do Estudante e tem registrado seu depoimento em Elevado 3.5, disponível em: http://www.elevadotrespontocinco.com.br/elevado35/category/personagem/guerda/)
A felicidade feroz
(Ensaio escrito por Maurício Santana Dias, professor de literatura italiana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Folha de São Paulo, 07 de maio de 2005.)
Aclamada por um círculo restrito, mas fiel, a escritora Orides Fontela tem lançada sua "Poesia Reunida"
Faz exatamente dez anos que o último livro de Orides Fontela (1940-98) foi publicado. De lá para cá, a autora morreu na miséria e as edições de seus poemas sumiram das livrarias, inclusive "Trevo" (ed. Duas Cidades, 1988), que reunia até então toda a obra poética. No entanto a escritora continuou sendo comentada por um círculo restrito de poetas, leitores de poesia e críticos.
Agora as editoras 7 Letras e Cosacnaify lançam o primoroso volume "Poesia Reunida - 1969-1996" (376 págs., R$ 55), que certamente será fundamental para o reposicionamento e a reavaliação de Orides dentro do quadro da poesia brasileira da segunda metade do século 20.
Orides está entre os raros escritores que têm força suficiente para trans-formar o ato de leitura de seus textos numa experiência poética e existencial
Contudo não se trata de fazer o elogio póstumo e compensatório de alguém que sempre viveu e fez questão de viver à sombra -mas sem água fresca. Desde já, é preciso dizer que nem tudo o que ela escreveu é excepcional ou excelente. Porém, depois de lido o livro, não resta dúvida de que Orides está entre aqueles raríssimos escritores que alcançam força suficiente para transformar o ato de leitura de seus textos numa experiência poética e existencial.
As razões para isso são muitas, e a citação de uns poucos versos seus será suficiente para dar uma idéia de sua grandeza.
Exemplo: "O fim/ limite íntimo/ nada é além de si mesmo/ ponto último.// A saída/ é a volta" (versos finais do poema "Caramujo"). Por aí já se vê o diálogo cerrado que a poeta estabelece com a "tradição moderna", daqui e de fora (Drummond, Bandeira, Cabral, Murilo, Rilke, Pessoa, Mallarmé).
Como nota o crítico Davi Arrigucci Jr., leitor e amigo de primeira hora, "o senso de transcendência é óbvio em sua poesia, assim como a reflexão sobre o ser, a busca da essência das coisas". Mas "transcendência vazia", circular e sem centro, típica da lírica moderna.
Nesse sentido, é muito reveladora a aproximação que Flora Sussekind faz entre Murilo Mendes e Orides: "Parece acontecer, no percurso poético de Orides Fontela, coisa semelhante à que descreve um poema de Murilo Mendes dos anos 40, "Idéias Rosas': "Minhas idéias abstratas/ De tanto as tocar, tornaram-se concretas/ São rosas familiares". E, como no texto de Murilo, essa poesia também se deixa percorrer por uma espécie de nostalgia da abstração. Os últimos versos de "Idéias Rosas" poderiam mesmo ser lidos como motes secretos do processo de criação literária de Orides: "Rosas! Rosas!/ Quem me dera que houvesse/ Rosas abstratas para mim'" (do livro "Papéis Colados", ed. UFRJ, 1993).
Há em Orides Fontela um permanente sentimento de insatisfação com as coisas, as palavras, a vida. Insatisfação que não se traduz em melodrama ou derramamento verbal, mas numa concisão extremada, que ela partilha com outros poetas contemporâneos seus, como Sebastião Uchoa Leite e Francisco Alvim, embora o humor destes seja substituído, na poesia de Orides, por algo entre a decepção e o espanto.
Deslocamento do "topos"
Trabalhando com um repertório extremamente reduzido -flor, pássaro, espelho, pedra, fogo, tempo-, esquiva-se do lugar-comum deslocando essas imagens de seu "topos" tradicional. É o que se vê, por exemplo, nas sete seqüências do "Poema do Leque", em que a poeta flerta com o conceptismo barroco: "Cultiva-se (cultua-se)/ em ato extremo/ a anti-rosa/ esplêndida/ apresenta-se (apreende-se)/ o árido ápice/ luz vertical/ extrema" (poema cinco).
Como observou Antonio Candido, a realidade concreta, natural e histórica, é a matéria que informa seus versos. Mas tudo é progressivamente arrastado num redemoinho de abstração que anula os objetos e estilhaça a forma:
"Os pássaros
retornam
sempre e
sempre.//
O tempo cumpre-se. Constrói-se
a evanescente forma
ser
e
ritmo.//
Os pássaros
retornam. Sempre os
pássaros.//
A infância volta devagarinho".
Outro aspecto forte de sua lírica que não pode deixar de ser mencionado aqui, ainda que de passagem, está na relação estreita com as artes plásticas, flagrante no poema "Composição". Nele os adjetivos circulam de um substantivo a outro como as tintas numa tela: "Cavalo branco em campo verde/ parado/ sereno/ branco corcel ao longe/ realidade e miragem.// (...) numa viagem branca, através/ de todos os verdes/ a forma se tornava/ em ritmo, delírio/ de forças desatadas/ impulso leve e forte/ que saltava horizontes/ que rasgava as tormentas/ e as dores...// Mas agora, parado,/ o ser cristalizou-se/ na imagem de si mesmo/ realidade lúcida/ e plácida miragem./...............".
O desencanto lúcido de sua poesia é também a espera de uma felicidade que não se cumpre, mas que persiste mesmo nas passagens mais desesperadas; ainda que seja uma felicidade feroz e terrível, como nos versos finais de "Fera": "O perigo da fera: falsa ausência no desarmado silêncio.// Intensa fera. De súbito, na selva o medo salta! Mas aparece o sentido".
Foto de Juan Esteves
Orides Fontela é como um felino: semeia as palavras devagar, argutamente, olhar de tigre. De repente, nos damos conta, ela armou o bote e caímos em seu desfecho cruel.
Carta
Da
vida
não se espera resposta.
As trocas
Um fruto por um
ácido
um sol por um
sigilo
o oceano por um
núcleo
o espaço por um
silêncio
-- riquezas por uma
nudez
[Orides Fontela. "Carta" e "As trocas". In: Poesia reuinda. 7 Letras/Cosac Naify. 2006. (Coleção Ás de Colete).]
Conheci a poesia de Orides Fontela nos início dos anos 90, na época, por meio de meu amigo Davi Arrigucci, que me foi apresentado por meu outro amigo Osvaldo Ceschin, ambos professores da USP.
Davi então me apresentou aos poemas de Cacaso e Orides. Foi uma descoberta. Ele me contou histórias pessoais, biográficas de Orides. Algumas estão contadas nas biografias da própria, outras são histórias da amizade de ambos que não revelo aqui.
Sei que me apaixonei pela felina e selvagem poesia de Orides, a outsider Orides, suas complicações e seu gênio difícil que a faziam criar casos, se indispor com todos, inclusive seus amigos mais íntimos, e que geravam histórias tristes e desfechos melancólicos, e algumas vezes histórias cômicas e muito engraçadas, por ser trágicas, se tornavam cômicas.
NO entanto, sua poesia é de uma força incontestável. Orides constrói o corpo lírico mirando certo escárnio ao final, como se estivesse já espreitando atrás da porta a reação adversa do leitor. Tudo isso vem embalado num rio lexical sem grandes pretensões, em que Orides vai disseminando seu talento poético sem pressa, porque parece saber muito bem onde quer chegar. O desfecho, o bote armado. A armadilha onde Orides deposita todo seu engenho. Por isso selvagem. Por isso felina.
Sua obra reunida foi publicada em 2006 na Coleção Ás de Colete pela CosacNaify/7 Letras. Uma edição caprichada, impressa em papel pólen soft 80g (um charme), capa dura envolta em tecido e com ilustração colada na primeira capa, como nos livros da minha infância; uma guarda de folhas duplas com fundo texturizado abre e fecha a preciosa edição dessa coleção. Eu garanti meu exemplar. Vocês não vão garantir o seu? Nem que seja num sebo (caso não haja mais nas livrarias) e ter uma pérola como esta na sua estante:
Mão única
-- é proibido
voltar atrás
e chorar.
Então, leitores, eu os convenci?
A seguir, dois textos da Revista Agulha de literatura (disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/of.html#inicio)
Um pouco de Orides
Orides de Lourdes Teixeira Fontela nasceu em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, em 21 de abril de 1940. Começou a escrever poemas aos sete anos de idade. Como ela mesma dizia, sua família "não tinha base cultural, meu pai era operário analfabeto, de modo que a cultura que peguei foi na base do ginásio, escola normal e leitura". Aos 27 anos, deixou sua cidade e veio morar em São Paulo, com dois sonhos em mente: estudar na USP e publicar um livro. Conseguiu realizar ambos: estudou Filosofia e publicou seu primeiro livro, Transposição, com a ajuda do professor de literatura brasileira Davi Arrigucci Jr., seu conterrâneo.
Depois de formada, foi professora do primário e bibliotecária em escolas da rede estadual de ensino. Publicou ainda Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986), Trevo 1969-1988 (1988) e Teia (1996). Com Alba, recebeu o prêmio Jabuti de Poesia, em 1983; e com Teia, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, em 1996. Sempre com dificuldades financeiras, no final da vida, indo viver com sua amiga Gerda na Casa do Estudante**, um velho prédio na Avenida São João. De personalidade difícil, Orides muitas vezes se indispôs com seus melhores amigos. Faleceu em Campos de Jordão, aos 58 anos. (Texto adaptado.)
(** Gerda Scröder vive até hoje na Casa do Estudante e tem registrado seu depoimento em Elevado 3.5, disponível em: http://www.elevadotrespontocinco.com.br/elevado35/category/personagem/guerda/)
A felicidade feroz
(Ensaio escrito por Maurício Santana Dias, professor de literatura italiana na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. Folha de São Paulo, 07 de maio de 2005.)
Aclamada por um círculo restrito, mas fiel, a escritora Orides Fontela tem lançada sua "Poesia Reunida"
Faz exatamente dez anos que o último livro de Orides Fontela (1940-98) foi publicado. De lá para cá, a autora morreu na miséria e as edições de seus poemas sumiram das livrarias, inclusive "Trevo" (ed. Duas Cidades, 1988), que reunia até então toda a obra poética. No entanto a escritora continuou sendo comentada por um círculo restrito de poetas, leitores de poesia e críticos.
Agora as editoras 7 Letras e Cosacnaify lançam o primoroso volume "Poesia Reunida - 1969-1996" (376 págs., R$ 55), que certamente será fundamental para o reposicionamento e a reavaliação de Orides dentro do quadro da poesia brasileira da segunda metade do século 20.
Orides está entre os raros escritores que têm força suficiente para trans-formar o ato de leitura de seus textos numa experiência poética e existencial
Contudo não se trata de fazer o elogio póstumo e compensatório de alguém que sempre viveu e fez questão de viver à sombra -mas sem água fresca. Desde já, é preciso dizer que nem tudo o que ela escreveu é excepcional ou excelente. Porém, depois de lido o livro, não resta dúvida de que Orides está entre aqueles raríssimos escritores que alcançam força suficiente para transformar o ato de leitura de seus textos numa experiência poética e existencial.
As razões para isso são muitas, e a citação de uns poucos versos seus será suficiente para dar uma idéia de sua grandeza.
Exemplo: "O fim/ limite íntimo/ nada é além de si mesmo/ ponto último.// A saída/ é a volta" (versos finais do poema "Caramujo"). Por aí já se vê o diálogo cerrado que a poeta estabelece com a "tradição moderna", daqui e de fora (Drummond, Bandeira, Cabral, Murilo, Rilke, Pessoa, Mallarmé).
Como nota o crítico Davi Arrigucci Jr., leitor e amigo de primeira hora, "o senso de transcendência é óbvio em sua poesia, assim como a reflexão sobre o ser, a busca da essência das coisas". Mas "transcendência vazia", circular e sem centro, típica da lírica moderna.
Nesse sentido, é muito reveladora a aproximação que Flora Sussekind faz entre Murilo Mendes e Orides: "Parece acontecer, no percurso poético de Orides Fontela, coisa semelhante à que descreve um poema de Murilo Mendes dos anos 40, "Idéias Rosas': "Minhas idéias abstratas/ De tanto as tocar, tornaram-se concretas/ São rosas familiares". E, como no texto de Murilo, essa poesia também se deixa percorrer por uma espécie de nostalgia da abstração. Os últimos versos de "Idéias Rosas" poderiam mesmo ser lidos como motes secretos do processo de criação literária de Orides: "Rosas! Rosas!/ Quem me dera que houvesse/ Rosas abstratas para mim'" (do livro "Papéis Colados", ed. UFRJ, 1993).
Há em Orides Fontela um permanente sentimento de insatisfação com as coisas, as palavras, a vida. Insatisfação que não se traduz em melodrama ou derramamento verbal, mas numa concisão extremada, que ela partilha com outros poetas contemporâneos seus, como Sebastião Uchoa Leite e Francisco Alvim, embora o humor destes seja substituído, na poesia de Orides, por algo entre a decepção e o espanto.
Deslocamento do "topos"
Trabalhando com um repertório extremamente reduzido -flor, pássaro, espelho, pedra, fogo, tempo-, esquiva-se do lugar-comum deslocando essas imagens de seu "topos" tradicional. É o que se vê, por exemplo, nas sete seqüências do "Poema do Leque", em que a poeta flerta com o conceptismo barroco: "Cultiva-se (cultua-se)/ em ato extremo/ a anti-rosa/ esplêndida/ apresenta-se (apreende-se)/ o árido ápice/ luz vertical/ extrema" (poema cinco).
Como observou Antonio Candido, a realidade concreta, natural e histórica, é a matéria que informa seus versos. Mas tudo é progressivamente arrastado num redemoinho de abstração que anula os objetos e estilhaça a forma:
"Os pássaros
retornam
sempre e
sempre.//
O tempo cumpre-se. Constrói-se
a evanescente forma
ser
e
ritmo.//
Os pássaros
retornam. Sempre os
pássaros.//
A infância volta devagarinho".
Outro aspecto forte de sua lírica que não pode deixar de ser mencionado aqui, ainda que de passagem, está na relação estreita com as artes plásticas, flagrante no poema "Composição". Nele os adjetivos circulam de um substantivo a outro como as tintas numa tela: "Cavalo branco em campo verde/ parado/ sereno/ branco corcel ao longe/ realidade e miragem.// (...) numa viagem branca, através/ de todos os verdes/ a forma se tornava/ em ritmo, delírio/ de forças desatadas/ impulso leve e forte/ que saltava horizontes/ que rasgava as tormentas/ e as dores...// Mas agora, parado,/ o ser cristalizou-se/ na imagem de si mesmo/ realidade lúcida/ e plácida miragem./...............".
O desencanto lúcido de sua poesia é também a espera de uma felicidade que não se cumpre, mas que persiste mesmo nas passagens mais desesperadas; ainda que seja uma felicidade feroz e terrível, como nos versos finais de "Fera": "O perigo da fera: falsa ausência no desarmado silêncio.// Intensa fera. De súbito, na selva o medo salta! Mas aparece o sentido".
Quando os outros são os outros. E só.
Green Violinist (Violiniste), de Marc Chagall,
1923–1924. Óleo sobre tela.
Guggenheim Museum, Nova York.
Vincent van Gogh, Landscape with Snow, 1888. Óleo sobre tela, Solomon R. Guggenheim Museum, New York, Thannhauser Collection.
"O meu ministério da sensibilidade adverte": ler ouvindo "Os outros" (Leoni) no youtube torna este texto bem melhor:
http://www.youtube.com/watch?v=p8KGzJQq3Ik
Completar 49 anos, como eu completei (e bem, como estou me sentindo física e emocionalmente), é como desapertar um cinto muito apertado, cortante, no qual você se vê obrigado a estar dentro, fingindo estar à vontade -- por exemplo, por imposição social, como numa festa dos anos 60, em que você não podia desmontar até chegar em casa e apagar a luz... esse cintinho básico devia ser uma clausura.
Hoje, desaperto o cinto imaginário, digo tudo o que penso, se não digo com as palavras verbalmente, escrevo, se não escrevo, digo com a linguagem deliciosa do olhar, que às vezes é ambígua, o que me é muito mais divertido. Varro esse orgulho que me era cego para fora de mim e me fazia doer e calar, para muito longe, como algo impróprio, que não me serve mais. Tirar com prazer uma roupa apertada, que incomoda e não me serve mais. Eu usava outro número antes, hoje uso "49" -- na verdade uso 42, leitores. Com prazer. Meu corpo se acomoda muito bem a esse novo número. Apesar de eu estar muito magra, e chegando ao número 40, "49" me cai superbem.
Portanto, não há por que ocultar, por que fugir de certas verdades. Elas estão latentes em nós. E vivem sua vida, autônomas, atravessam ruas, tomam sorvete e vinho e cerveja, vão a livrarias e ao cinema, leem um livro sobre Godard, admiram e se emocionam com uma escultura num museu, compram um ticket de viagem, um presente, ou simplesmente habitam silenciosas uma caixa de e-mails, como as duas imagens que abrem este post, verdades trocadas em um momento de ternura. Elas habitam porões, ou galerias. A verdade, é que a verdade pulsa e não podemos fugir dela, pois estamos vinculados para sempre ao que vivemos.
Há muitas verdades dentro de nós, ocultas ou escancaradas, ou loucas para dar as caras ou submissas ao nosso sepultamento momentâneo, isso é um fato. Mas elas um dia surgem, atrevidas como a flor que rompe o asfalto do poema de Drummond.
A minha verdade, neste momento (quem diria que um dia eu transcreveria Kid Abelha?), é que: "Eu tenho mil amigos/Mas você foi o meu melhor namorado/(...)/Procuro evitar comparações/Entre flores e declarações/Eu tento te esquecer/A minha vida continua/Mas é certo que eu seria sempre sua/Quem pode me entender?/(...)/Depois de você, os outros são os outros e só..."
Antes eu não diria, mas aos 49 não tenho mais nada que me impeça de dizer nada. As nossas verdades estão aí, atravessando grandes avenidas. A minha simples menção aos fatos não irá atropelá-las. Nem a mim. Ao contrário, a verdade saiu de mim, bateu a porta, tranquila, atrás de si e tomou seu rumo no Universo. Foi como desapertar aquele cinto imaginário de que lhes falei no início. Alívio, alívio...
Os Outros
(Leoni)
Já conheci muita gente
Gostei de alguns garotos
Mas depois de você
Os outros são os outros
Ninguém pode acreditar
Na gente separado
Eu tenho mil amigos mas você foi
O meu melhor namorado
Procuro evitar comparações
Entre flores e declarações
Eu tento te esquecer
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre sua
Quem pode me entender
Depois de você, os outros são os outros e só
São tantas noites em restaurantes
Amores sem ciúmes
Eu sei bem mais do que antes
Sobre mãos, bocas e perfumes
Eu não consigo achar normal
Meninas do seu lado
Eu sei que não merecem mais que um cinema
Com meu melhor namorado
Procuro evitar comparações
Entre flores e declarações
Eu tento te esquecer
A minha vida continua
Mas é certo que eu seria sempre sua
Quem pode me entender
Depois de você, os outros são os outros e só
Depois de você, os outros são os outros e só
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