"E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto
e em minha voz a tua voz."
(Fernando Pessoa)
Sandra Brazil / Literatura, poemas, contos, crônicas, cinema, viagens. O título deste blogue se refere à poeta grega Safo de Lesbos e sua filha Cleïs, a quem ela dedicou o belo poema "O tesouro".
Quem sou eu
- Sandra Brazil
- No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
Alma lusa
Lisbon Revisited (1926)
Nada me prende a nada.
Quero cinqüenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja -
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstratas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta - até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me naufrago;
ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida...
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui...
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo - Lisboa e Tejo e tudo -,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver...
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir...
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
(Álvaro de Campos)
(Fernando Pessoa)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O tradutor de sentimentos
Por que você, que sequer me conhece, que caminha incólume nas areias quentes da cidade de geografia unânime enquanto eu me debato entre faróis e ambientes fechados em meio à garoa, tão distante do meu universo você trai sentimentos (meus) em seus sonetos?
Tradutor de sentimentos agora? Juramentado?
Esse tradutor-traditore tem um nome: o poeta Paulo Henriques Britto.
Abram-se as cortinas, abram alas para a leveza (apesar da dor).
Sonetilho de verão
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
(Paulo Henriques Britto. Trovar Claro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)
Tradutor de sentimentos agora? Juramentado?
Esse tradutor-traditore tem um nome: o poeta Paulo Henriques Britto.
Abram-se as cortinas, abram alas para a leveza (apesar da dor).
Sonetilho de verão
Traído pelas palavras.
O mundo não tem conserto.
Meu coração se agonia.
Minha alma se escalavra.
Meu corpo não liga não.
A ideia resiste ao verso,
o verso recusa a rima,
a rima afronta a razão
e a razão desatina.
Desejo manda lembranças.
O poema não deu certo.
A vida não deu em nada.
Não há deus. Não há esperança.
Amanhã deve dar praia.
(Paulo Henriques Britto. Trovar Claro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.)
Durma com essa, se for possível.
Quando a verdade subterrânea é acre e amarga.
Acalanto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
(Paulo Henriques Britto. Macau. Companhia das Letras, 2003.)
Acalanto
Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,
despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;
e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos
em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.
E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.
(Paulo Henriques Britto. Macau. Companhia das Letras, 2003.)
Paulo Henriques Brito. Agora, o poeta.
Súcubo
A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.
Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,
e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,
e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.
(BRITTO, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.)
A lucidez de certos sonhos
que nem parecem ser reais,
tal como faz a realidade.
Entra-se neles de repente,
não no começo, sem saber
de onde se vem e aonde se vai,
e pouco a pouco dá-se conta
de que há um sentido nisso tudo,
só que não está ao nosso alcance,
e quando menos se imagina
tudo termina de repente,
tal como faz a realidade.
(BRITTO, Paulo Henriques. Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.)
A força e a delicadeza da palavra: Antonio Cicero
Nuances da palavra. Um poeta sempre sabe o que diz e como dizer. Sorte do destinatário dessa construção de letras, sílabas, fonemas, sinais gráficos, sintaxe, encadeamento, argumentação, arremesso estético, lógica. Não! Alumbramento. Apaixonamento.
Um presente: Amor Marcelo, amado Marcelo.
Com vocês: Antonio Cícero, o poeta.
Declaração
Quantas vezes lhe declarei o meu amor?
Declarei-o verbalmente inúmeras vezes
e o declaram todos os meus gestos tendentes
a você: a minha língua, a brincar com o som
do seu nome, Marcelo, o declara; e o declaram
os meus olhos felizes quando o veem chegar
feito um presente e de repente elucidar
a casa inteira que, conquanto iluminada,
permanecia opaca sem você; e quando,
tendo apagado todas as lâmpadas, juntos,
no terraço, nos consignamos aos traslados
dos círculos do relógio do céu noturno
ou aos rios de nuvens em que nos miramos
e nos perderemos, declaro-o no escuro.
(CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.)
Um presente: Amor Marcelo, amado Marcelo.
Com vocês: Antonio Cícero, o poeta.
Declaração
Quantas vezes lhe declarei o meu amor?
Declarei-o verbalmente inúmeras vezes
e o declaram todos os meus gestos tendentes
a você: a minha língua, a brincar com o som
do seu nome, Marcelo, o declara; e o declaram
os meus olhos felizes quando o veem chegar
feito um presente e de repente elucidar
a casa inteira que, conquanto iluminada,
permanecia opaca sem você; e quando,
tendo apagado todas as lâmpadas, juntos,
no terraço, nos consignamos aos traslados
dos círculos do relógio do céu noturno
ou aos rios de nuvens em que nos miramos
e nos perderemos, declaro-o no escuro.
(CICERO, Antonio. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.)
domingo, 26 de fevereiro de 2012
A ira em Iemanjá e o toque delicado de Elizabeth Bishop
Uma arte
"(...)
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério."
(Elizabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Brito)
Ando mesmo perdendo coisas... E pessoas... E sequer olho para trás para velar o morto quando percebo que perdi... Estranho esse meu comportamento. Eu, que sou tão cuidadosa com tudo, deixei absolutamente de cuidar das coisas perdidas -- sejam objetos, sejam pessoas.
Mas perder, como tudo nessa nossa vida, Elizabeth me ensinou, é uma arte e "não é nada sério"... Esse é o ganho: as coisas devem deixar de ter a importância faraônica de nos atingir como um carro de Tutancamon que nos atropele em cheio. Não! Deixar que as coisas e os fatos contenham em si o acidente natural de se evadirem de nós, o acidente de perdê-los.
Assim disse Elizabeth, sussurrou para mim com aqueles olhos azuis inteligentes de quem aprendeu logo cedo a perder: pai e mãe, a viver em colégios internos, a ter problemas respiratórios -- faltava-lhe o ar, já esta uma grande perda. Apesar da boa herança em dinheiro deixada pelo pai, da cultura, dos estudos, das viagens, Elizabeth deslocou-se e veio morar no Brasil viver um grande amor, uma relação forte, porém cheia de turbulências. Sua companheira no entanto suicidou-se.
No percurso da vida de Elizabeth havia o destino do acidente das perdas. Perder um relógio, uma escala, um avião, um vaucher, um sobrado, uma vila tornou-se algo menor diante dessas perdas enormes pessoais, diante de seu destino.
É difícil perder sem dor, mas é preciso tentar aceitar o percurso cotidiano de nossas perdas, da simples carteira com documentos a uma relação amorosa ou a uma amizade, ou por exemplo, objetos importantes, como os brincos de pérola que foram um presente de um companheiro e que se perderam para sempre em um hotel em Búzios e jamais serão recuperados, e que eram a última lembrança dessa relação.
O acidente estava ali, gritando, mas eu insisti. É preciso aceitar e calar. Isso não é nada sério. O ganho é que se foram as pérolas e seus engates de ouro na bela caixinha de veludo preta. O acidente consumou-se todo assim. Serviço completo. Mas o ganho é que ninguém nos tira a lembrança e a memória e a alegria do dia em que recebi aquele par de brincos: aí entra a arte do engenho de Bishop.
Eu deveria ganhar duas pérolas simples, pequenas, de Natal, e eu estava bem feliz pelo fato. Fomos juntos comprar para que eu escolhesse o tom da pérola e o tamanho que me agradasse. Quando chegamos lá, fui atingida por uma surpresa: ele havia escolhido um par de brincos muito mais sofisticados do que eu imaginava. Pérolas de uma cor vintage, grandes sem ser enormes e no estilo Grace Quelly, aquele modelo clássico usado pela atriz preferida de Alfred Hitchckock. Uma pérola no meio da orelha, a outra fica presa abaixo.... Era isso que ele havia escolhido para mim.
Eu disse que seria mais caro do que o combinado, mas ele argumentou que era o presente que gostaria de me dar.
A lojista os colocou em uma caixa linda de veludo preto, e ali ele ficou até a noite do Natal. Na noite, na troca de presentes, ele veio com a caixinha e me disse: "Agora você pode abrir..."
Coloquei os brincos e não os tirei mais, sempre tendo o cuidado apenas de tirá-los para tomar banho. Eles eram perfeitos para o meu rosto, ou combinavam com meu sorriso quando vejo agora minhas fotos. Como tenho um sorriso muito rasgado e aparente, as pérolas eram a moldura perfeita brilhando ao redor da minha alegria... Eles viajaram comigo para muitos lugares, trabalharam comigo noites adentro, frequentaram editoras para as quais freelei em lugares que sequer menciono, pois não faziam jus a eles, tão sofisticados ele eram... Eu adoro pérolas, porque elas são simples, nisso está sua beleza.
Mas resolvi viajar com eles e os perdi num novo lugar e em nova companhia... Como numa ira ciumenta de Iemanjá, ela os sugou, arrastou, num revés, e numa tempestade os levou para o mar, e jamais os devolverá, como numa reprimenda a meu comportamento, e sequer sei por quê...
Mas não dei importância, porque "perder não é nada sério", não foi assim que Elizabeth Bishop alisou delicadamente sua vida difícil e cheia de perdas...
Foram-se as pérolas, ficaram as lembranças desses dias, das palavras ditas "Você está linda nesses brincos; pérolas combinam com você, são clássicas". Esse é o ganho... O que fica na memória e no coração. E eu me lembro de ter ficado extremamente feliz de os ter ganhado, porque um presente não é apenas um presente; é uma forma de dizer algo que não se consegue dizer com as palavras, e o objeto escolhido muitas vezes é um 'minivocê' que alguém escolhe tentando dar uma definição daquilo que sente, daquilo que você representa em sua vida. Naquele momento, me senti pérola. E uma pérola tem lá suas qualidades de gema, algo que se forma no tempo e que resiste, que se transforma em beleza depois de reagir a um grão de areia, e apesar de bela é dura, mas também muito sensível a qualquer elemento químico. Nada além de água e ar pode tocá-la, caso contrário, a pérola perderá seu viço...
E há aquele brilho, que nunca nenhuma outra gema terá. Fecho os olhos e posso vê-las sobre meu criado-mudo.
Portanto, no acidente das perdas, há ganhos. Eles estão disfarçados na memória, guardados conosco. E só Elizabeth sabe destrinchar, da melhor forma, e nos ensinar a Arte de saber perder...
Iemanjá fique com as pérolas. Comigo está guardado o melhor: a sutileza da memória e dos momentos.
"(...)
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério."
(Elizabeth Bishop. Tradução de Paulo Henriques Brito)
Ando mesmo perdendo coisas... E pessoas... E sequer olho para trás para velar o morto quando percebo que perdi... Estranho esse meu comportamento. Eu, que sou tão cuidadosa com tudo, deixei absolutamente de cuidar das coisas perdidas -- sejam objetos, sejam pessoas.
Mas perder, como tudo nessa nossa vida, Elizabeth me ensinou, é uma arte e "não é nada sério"... Esse é o ganho: as coisas devem deixar de ter a importância faraônica de nos atingir como um carro de Tutancamon que nos atropele em cheio. Não! Deixar que as coisas e os fatos contenham em si o acidente natural de se evadirem de nós, o acidente de perdê-los.
Assim disse Elizabeth, sussurrou para mim com aqueles olhos azuis inteligentes de quem aprendeu logo cedo a perder: pai e mãe, a viver em colégios internos, a ter problemas respiratórios -- faltava-lhe o ar, já esta uma grande perda. Apesar da boa herança em dinheiro deixada pelo pai, da cultura, dos estudos, das viagens, Elizabeth deslocou-se e veio morar no Brasil viver um grande amor, uma relação forte, porém cheia de turbulências. Sua companheira no entanto suicidou-se.
No percurso da vida de Elizabeth havia o destino do acidente das perdas. Perder um relógio, uma escala, um avião, um vaucher, um sobrado, uma vila tornou-se algo menor diante dessas perdas enormes pessoais, diante de seu destino.
É difícil perder sem dor, mas é preciso tentar aceitar o percurso cotidiano de nossas perdas, da simples carteira com documentos a uma relação amorosa ou a uma amizade, ou por exemplo, objetos importantes, como os brincos de pérola que foram um presente de um companheiro e que se perderam para sempre em um hotel em Búzios e jamais serão recuperados, e que eram a última lembrança dessa relação.
O acidente estava ali, gritando, mas eu insisti. É preciso aceitar e calar. Isso não é nada sério. O ganho é que se foram as pérolas e seus engates de ouro na bela caixinha de veludo preta. O acidente consumou-se todo assim. Serviço completo. Mas o ganho é que ninguém nos tira a lembrança e a memória e a alegria do dia em que recebi aquele par de brincos: aí entra a arte do engenho de Bishop.
Eu deveria ganhar duas pérolas simples, pequenas, de Natal, e eu estava bem feliz pelo fato. Fomos juntos comprar para que eu escolhesse o tom da pérola e o tamanho que me agradasse. Quando chegamos lá, fui atingida por uma surpresa: ele havia escolhido um par de brincos muito mais sofisticados do que eu imaginava. Pérolas de uma cor vintage, grandes sem ser enormes e no estilo Grace Quelly, aquele modelo clássico usado pela atriz preferida de Alfred Hitchckock. Uma pérola no meio da orelha, a outra fica presa abaixo.... Era isso que ele havia escolhido para mim.
Eu disse que seria mais caro do que o combinado, mas ele argumentou que era o presente que gostaria de me dar.
A lojista os colocou em uma caixa linda de veludo preto, e ali ele ficou até a noite do Natal. Na noite, na troca de presentes, ele veio com a caixinha e me disse: "Agora você pode abrir..."
Coloquei os brincos e não os tirei mais, sempre tendo o cuidado apenas de tirá-los para tomar banho. Eles eram perfeitos para o meu rosto, ou combinavam com meu sorriso quando vejo agora minhas fotos. Como tenho um sorriso muito rasgado e aparente, as pérolas eram a moldura perfeita brilhando ao redor da minha alegria... Eles viajaram comigo para muitos lugares, trabalharam comigo noites adentro, frequentaram editoras para as quais freelei em lugares que sequer menciono, pois não faziam jus a eles, tão sofisticados ele eram... Eu adoro pérolas, porque elas são simples, nisso está sua beleza.
Mas resolvi viajar com eles e os perdi num novo lugar e em nova companhia... Como numa ira ciumenta de Iemanjá, ela os sugou, arrastou, num revés, e numa tempestade os levou para o mar, e jamais os devolverá, como numa reprimenda a meu comportamento, e sequer sei por quê...
Mas não dei importância, porque "perder não é nada sério", não foi assim que Elizabeth Bishop alisou delicadamente sua vida difícil e cheia de perdas...
Foram-se as pérolas, ficaram as lembranças desses dias, das palavras ditas "Você está linda nesses brincos; pérolas combinam com você, são clássicas". Esse é o ganho... O que fica na memória e no coração. E eu me lembro de ter ficado extremamente feliz de os ter ganhado, porque um presente não é apenas um presente; é uma forma de dizer algo que não se consegue dizer com as palavras, e o objeto escolhido muitas vezes é um 'minivocê' que alguém escolhe tentando dar uma definição daquilo que sente, daquilo que você representa em sua vida. Naquele momento, me senti pérola. E uma pérola tem lá suas qualidades de gema, algo que se forma no tempo e que resiste, que se transforma em beleza depois de reagir a um grão de areia, e apesar de bela é dura, mas também muito sensível a qualquer elemento químico. Nada além de água e ar pode tocá-la, caso contrário, a pérola perderá seu viço...
E há aquele brilho, que nunca nenhuma outra gema terá. Fecho os olhos e posso vê-las sobre meu criado-mudo.
Portanto, no acidente das perdas, há ganhos. Eles estão disfarçados na memória, guardados conosco. E só Elizabeth sabe destrinchar, da melhor forma, e nos ensinar a Arte de saber perder...
Iemanjá fique com as pérolas. Comigo está guardado o melhor: a sutileza da memória e dos momentos.
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