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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Amores expressos, via I-phone

Um homem, uma mulher, um sentimento, uma grande cidade, fragmentos que tentam se conectar. Amores expressos, como o filme.

E-mail:

E aí? Vc quer sair hj? noite fria. Jantar, talvez?
Me dá um toque. Afinal, é o dia! ;-))

V.
via I-phone


E-mail-Resposta:
Ah. Não sei... Vc tinha dito que hj não íamos comemorar pq tinha plantão... Eu meio que desencanei, deixamos pro sábado? O q vc acha?
Hummm... ou vc tem plantão de novo?! Oh Lord... q saco esse negócio de plantão...
S. (via tablet)

E-mail:
Nâo tenho, O plantão de hj furou. te vejo no sábado tb, mas quero tb hj.
Ah! já sei. os arrastões.... rsrs Se tiver arrastão, pronto: te jogo na rede: digo que é minha sereia... eh-eh eles te levam.
Vamos, como faço pra t convencer? Bar jantar e esticar...
Gata arisca de areia...
BJ
V.
via I-phone


E-mail-Resposta:


Gatão,
Se vc me jogar na rede de arrastão dos assaltantes, vão ter dificuldade de arrastar os meus 66 kg! ahahahahah Todos os tablets, iPads, iPods, iPhones e outros 'is' da vida eles deixarão pra trás por dificuldade de carregar junto com meu traseiro... só irei eu na rede... eh-eh
Não sei, deixamos pro sábado, ta bem? Eu cheguei agora do trabalho, nem me arrumei pro nosso dia... E um gato como vc merece uma gatona. Estou mais pra esqueleto de sardinha. Não tava esperando essa mudança de planos... vou 'pular', ta bem? Não fica chateado.
Mas te gosto. Muito. "Tá ligado no movimento?" ;-))
S.

E-mail:
Pena. queria sua risada (gargalhada, melhor.). O dia foi difícil no hospital, duro. Teu humor ia cair bem hj, e depois 'outras coisas prateadas' -Adélia Prado -- vc me mostrou-- tb. vc me mostrou(gostou?).
"Estela", me rendo. bj, bom... . sábado então.
V.
via I-phone

E-mail-resposta:
"Recuo súbito da trama!" Ops (mostro mais esta: Ana Cristina cesar, ou simplesmente Ana C.). Tô convencida! Um homem que cita Adélia Prado merece mais que três dias de espera.
Tõ pondo os sapatos e o casaco. Vou fazer um modelito rápido. Na verdade, a maquiagem tava pronta...
Onde te encontro? (Ah! Leva meu presentinho... clicks! Clocks! :-)))) )
S.

E-mail:
Vai entender uma mulher... rs Não sei se fico :-) ou :-(
Última chamada: esquina do bar Balcão, 22h,.
usa aquele seu perfume Chance e um casaco por cima. E só. Entendeu? Presente? Não comprei, caralho! Mulheres...
Teve arrastão lá ontem, não é possível ter hj! ;-)
Bj, (e plz: não atrasa muito..., não tô a fim de esperar 55 minutos, tô falando sério, "tá ligada"? ;-)
V.
via I-phone

E-mail-resposta:
Última chamada: Estação-felicidade. Rumo ao bar Balcão, se possível, sem arrastão.
estarei lá, sem atrasos hj, promiss you! envolvida em Chance. me aguarde! vc não sabe, além do Chance, sob o casaco, o q te espera.
S.

* Foto: Marylin Monroe, na campanha do perfume Channel n. 5. Numa entrevista, quando se perguntou a ela o que vestia ao dormir, ela respondeu algo como: "Apenas duas gotas de Channel n. 5".

terça-feira, 12 de junho de 2012

Roland Barthes, a Primavera e o amor

"(…) No encontro, maravilha-me o fato de ter achado alguém que, com pinceladas sucessivas, e cada vez mais bem-sucedidas, sem falhas, conclui o quadro da minha fantasia; sou como um jogador cuja sorte não se desmente e faz com que ele ponha a mão na pequena peça que vem, já na primeira tentativa, completar o quebra cabeça de seu desejo. É uma descoberta progressiva (e como que uma verificação) das afinidades, cumplicidades e intimidades que poderei manter eternamente (…)" (Roland Barthes, in Fragmentos de um discurso amoroso)

É inverno. Incólumes a qualquer estação, sentimentos calorosos neste exato momento estão nascendo pueris, ou terminando, morrendo, ou em crise, numa pausa estratégica ou simplesmente há aqueles que querem estar solteiros por opção.
Não importa: dentro de nós há sempre uma senda, uma fissura, uma fenda, uma fechadura, e por ela transitam nossos melhores sentimentos -- os afetos que dedicamos aos outros. Seja namorado. Seja um ficante. Seja um amante. Seja companheiro eterno. Seja pai e mãe. Seja filho ou filha (que é o meu caso, não é doce dádiva, Isadora, o presente de Ísis?). Sobrinha (como é meu caso, não é Anabela querida?). Irmão ou irmã (minha doce Mary e sua delicadeza e constância). O nosso dog ou cat ou bird. Estamos sempre renascendo por meio do amor. E do cuidado que ele faz que tenhamos para com o destinatário desse nosso sentimento. "O amor está fora de moda", me disseram. Mas quem não gosta de usar um modelito vintage? Fora de moda ou não. Artigo de brechó ou simplesmente fluxo natural daqueles que não têm medo de si nem do outro. Não importa o tipo, ou a quem o dedicamos. Amar nos tira desse lugar de saara humano e nos eleva à condição de renascer, sempre, ampliar o sorriso e usufruir daquele brilho que só os que amam podem ter...
A primavera ainda não chegou para nós, mas para quem ama, como eu, você e tantos outros, ela tem seu lugar reservado o ano todo.





Primavera

Leve torpor nos sentidos.
A natureza: luz delicada
e cores recém-nascidas.
No mundo dos homens, alvoroço.
Tudo pode acontecer --

Ao chegar, estarei pronta.
E direi as palavras mágicas:
Pode entrar.
Na minha casa.
E no meu coração.

(Do meu minilivro 4a estação, de dezembro de 2011. Projeto gráfico, claro: Raquel Matsushita.)

Por um futuro melhor

"(...) Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar."
(António Machado (1875-1939), o poeta sevilhano.)

domingo, 10 de junho de 2012

Mais um poeta escondido nas areias... Ronaldo Brito

"Fala a palavra
ignara
diz o isto
do nada
poema mudo
com critério de sono
cala a fonte
funda
o branco no papel
sem fundo
e asma, asma"

(RONALDO BRITO. Asmas. São Paulo: Duas Cidades, 1982.)

Falei?


* Ronaldo Brito é crítico de arte e poeta.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Amor, amor, minha estação

"Os mensageiros

Palavra de lesma numa lâmina de grama?
Não é minha. Não aceite.

Ácido acético numa lata selada?
Não aceite. Não é genuíno.

Anel de ouro com reflexo de sol?
Loas. Loas e mágoa.

Geada na folha, o caldeirão
Imaculado, estalando e falando

Sozinho no alto de cada um
Dos nove Alpes negros.

Distúrbio nos espelhos,
O mar estilhaçando seu cinza --

Amor, amor, minha estação."

(Sylvia Plath. Poemas. Trad. Rodrigo Lopes e Maurício Mendonça. Iluminuras, 1994)

domingo, 3 de junho de 2012

Encruzilhada

Temos duas opções, a estrada bifurcou, e em vez de ficarmos felizes de termos opções, e brincarmos com a boa e velha sorte, paralisamos. Este é o pior tipo de paralisia. A do medo de escolher.

Quando se ganha uma joia, uma estrela


La vie, c'est dure, já diziam os franceses que deviam comer o brioche que o diabo amassou...
Meus doces leitores, a vida tem seus torrões cinza e negros, difíceis de descer e digerir; mas nos presenteia também com seus momentos belos e escorregadios, como palavras escorregadias que incitam felicidade e languidez, como em "(...) briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. (...)"*. É assim!
E não é que a vida é assim mesmo? Como se fosse uma longa trança, sendo tecida ao longo do tempo, entremeada por torrões dificílimos, depois alguns mais contornáveis, outros "briluz". Uma felicidade lewiscarolliana se arrastando num jardim e sendo acompanhada por lesmolisas lânguidas de olhinhos pequenos a nos acompanhar com aquele corpinho nos "acolchoando" das estalactites que podem nos machucar... Apesar do tema bélico do poema do qual retirei estas palavras -- espadas, inimigos, a caça ao Jaguadarte --, as lesmolisas sempre martelaram em minha mente essa pequena felicidade que nos leva adiante, rasinha, na grama, e vamos nos arrastando em nosso cotidiano, sendo impulsionados para a frente por eses jatos de motivação: briluz.
O que pode ser briluz? Inúmeras, incontáveis situações. Cada ser humano tem o seu nível de exigência para briluz. E o mundo gira com essas tranças bem-feitas e sincronizadas de bons momentos e maus momentos.
Mas o que quero dizer é que a vida não dá só lambadas de serpente sem aviso, não! Ela nos presenteia de surpresa também. Outro dia, Gil Pinheiro, um amigo recente de quem sou 'mãe do blogue', me presenteou com uma tradução belíssima de um dos poemas de que mais gosto. Vou começar a me sentir vaidosa. Explico: há mulheres que se envaidecem ganhando joias, outras, como eu, se envaidecem ganhando estrelas e traduções.
Esse foi meu momento briluz, leitores. Obrigada. Gil.
Vou dividir com todos a bela tradução do belo poema de Paul Verlaine.

Ô triste, triste était mon âme
A cause, à cause d'une femme.

Je ne me suis pas consolé
Bien que mon coeur s'en soit allé,

Bien que mon coeur, bien que mon âme
Eussent fui loin de cette femme.

Je ne me suis pas consolé
Bien que mon coeur s'en soit allé.

Et mon coeur, mon coeur trop sensible
Dit à mon âme : Est-il possible,

Est-il possible, - le fût-il -
Ce fier exil, ce triste exil?

Mon âme dit à mon coeur: Sais-je
Moi-même que nous veut ce piège

D'être présents bien qu'exilés,
Encore que loin en allés?

[Paul Verlaine (Romances sans paroles)]


Ah triste, triste, a alma só quer
Chorar, chorar uma mulher

Que o coração abandonou,
Mas sem sossego me deixou.

E o coração e a alma sequer
Têm nem por perto esta mulher

Que o coração abandonou,
Mas sem sossego me deixou.

E assim o coração, sensível,
Pergunta à alma: será possível,

Será possível tamanha ânsia,
Tanto penar, mesmo à distância?

E a alma responde ao coração:
Sei lá o que causa esta ilusão

De, estando longe, estar tão perto,
Por mais que andemos no deserto.

(Tradução de Gil Pinheiro)



* Trecho do poema "Jaguadarte", de Lewis Caroll, tradução de Augusto de Campos. Transcito na íntegra a seguir.

JAGUADARTE

Era briluz. As lesmolisas touvas roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos.

"Foge do Jaguadarte, o que não morre! Garra que agarra, bocarra que urra! Foge da ave Fefel, meu filho, e corre Do frumioso Babassura!"

Ele arrancou sua espada vorpal e foi atras do inimigo do Homundo. Na árvore Tamtam ele afinal Parou, um dia, sonilundo.

E enquanto estava em sussustada sesta, Chegou o Jaguadarte, olho de fogo, Sorrelfiflando atraves da floresta, E borbulia um riso louco!

Um dois! Um, dois! Sua espada mavorta Vai-vem, vem-vai, para tras, para diante! Cabeca fere, corta e, fera morta, Ei-lo que volta galunfante.

"Pois entao tu mataste o Jaguadarte! Vem aos meus braços, homenino meu! Oh dia fremular! Bravooh! Bravarte!" Ele se ria jubileu.

Era briluz.As lesmolisas touvas Roldavam e relviam nos gramilvos. Estavam mimsicais as pintalouvas, E os momirratos davam grilvos.