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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sobre cristais e porcelanas

Na minha cristaleira mora um mundo. Ela é como o Elefante de Drummond, que vai sendo construído de partes e fragmentos.
Quando me separei de meu marido, eu tinha uma filha pequena e muito chão para ganhar. Viver. Instalada num novo apartamento alugado, a vida anunciava as boas coisas e a difíceis.
Um dia, deixei minha pequena na escola e desci a pé por Santa Cecília. Andando meio sem rumo, como naquela época eu faria muitas vezes, vi um porão e uma porta bem pequena. Ali havia de tudo: móveis, porcelanas, não era bem um antiquário, mas fazia as vezes de.
Entrei e a primeira coisa que vi foi aquela que seria minha cristaleira para sempre. Pés longos e longilíneos, ela me chamava. Eram três portas, cada uma com 3 prateleiras; o fundo era feito de espelhos. Não resisti. Estava quebrada financeiramente, mas aquela cristaleira era um prenúncio de que eu poderia recomeçar em grande estilo. Assinei três cheques e vupt, ela foi entregue no dia seguinte.
Muitos anos se passaram desde esse dia. Minha filha cresceu, eu envelheci, minha cidade mudou demais, e eu não entendo muito bem no que o mundo se transformou. Tudo do avesso, eu sinto assim. Mas a velha e boa cristaleira de pés Luís XV permanece ali, eterna, imponente e delicada, estável em seus pés altos e porte elegante. Ela conta a minha história, da minha família, dos meus amores, das minhas aquisições.
Olho a porta do centro, de cara resgato a lembrança deliciosa de minha infância: 5 copinhos americanos coloridos e filetados a ouro -- eu os via sempre na cristaleita de minha avó Hermínia, eles ficavam dependurados em um suporte de madeira que encimava um rosto de um homem engraçado, com chapéu colorido e nariz vermelho como de um palhaço. Quando minha avó morreu, herdei muitas coisas dela, o relógio despertador, o rádio Pioneer onde ela ouvia as radionovelas e notícias junto comigo na sua cama. Minha irmã ficou com as taças de champanhe o lencço português de bisavó Carolina, puro luxo.
A lembrança me traz saudade daquela mulher muito bonita, de olhos de um verde acinzentado, e que me ensinou inúmeros palavrões e brincadeiras portuguesas ("Mão mole, mão mole, mão mole, pobrezinho na porta pedindo uma pedrinha de SAL!" Aí ela jogava minha mão contra o meu rosto, e eu gargalhava, aquela gargalhada de criança, bem solta e feliz.).
Olho mais para a direita e vejo a licoreira que minha tia Cida me deu, foi do casamento dela. É de vidro rosa transparente, copinhos bojudos, um mimo que me deixou muito feliz. Acho que as pessoas confiam muito em mim. Inúmeras vezes me deram peças de família, coisas de enxoval dos anos 30, objetos ganhos de casamento. Fico feliz de poder de confiarem a mim isso tudo.
À esquerda, está a licoreira azul que minha mãe ganhou de casamenro e jamais usou... Lembro direitinho: ela me disse, "olha, vou te dar minha licoreira do casamento, mas toma muito cuidado, tem muiiitos anos que venho guardando!". E daquele jeito que só ela tem, me passou a caixa e saiu para calar.
Na porta da esquerda está toda minha vida: eu trouxe uma xícara da Irlanda junto com 2 pratinhos ingleses. Também ali mora meu casamento e a família que tive junto com ele -- minhas cunhadas sempre me deram muitos presentes, e um deles é um cristal alemão belíssimo, que só uso em ocasiões muuuuuuito especiais; também está ali, guardada com o maior carinho, a xícara de porcelana japonesa que a tia de meu ex-marido me deu junto com outras, me falando assim: "vou dar essas xícaras pra você, pois sei que tem o maior cuidado". Eu quase não acreditei, no fundo da xícara, quando direcionado contra a luz, surge o rosto de uma japonesa. É um luxo!
Acima, quietinhas, estão 4 xícaras cubanas que ganhei de uma família de lá. Elas têm uma palmeira pintada, como se estivesse ao vento. Tenho o maior cuidado com elas. Abaixo, fica a xícara de Limoges que comprei a preço de ouro, mas nunca me arrependi. Ela é de porcelana, mas parece uma taça finíssima, tamanha beleza, elegância e refinamento de seus materiais; tem rosas pequeniníssimas pintadas a mão nas bordas e no pires. Um objeto de desejo.
Há um açucareiro japonês pintado a mão, belíssimo, que foi de minha avó, mas como ela não ligava muito pra essas coisas, ela quebrou a tampa e jamais providenciou outra. Ele deve ter cerca de 80 anos, pois ela ganhou de casamento, em 1930. Quando vou lavar as peças, tomo o maior cuidado com ele. Ele me lembra as tardes com chá preto e palavrões e brincadeiras de `mão mole' que ela fazia comigo.
Na porta da direita, há um reino que não tem preço: são as xícaras que minha mãe vai me dando ao longo da vida. Ela sabe que gosto, então, vai a feiras de antiguidade e me traz: chinesas, brasileiras, todas velhíssimas, do jeito que eu gosto. Abaixo delas, está o tesouro do qual nunca me desfarei; são inúmeras peças de massinha, florzinhas de argila, um sol feito de gesso e pintado com purpurina, sobre um papel-cartão bem pequeno ela com suas mãozinhas de artista foi tecendo várias flores de massinha, minúsculas, e compôs um jardim. Adoro olhar para ele e imaginar todo sentimento que havia nela quando ela me fez esse presente tão delicado. Ela jamais vai saber que esse jardim é meu refúgio; quando tudo está muito ruim, vou à cristaleira e olho o pequeno jardim delicado e amoroso, então, parece que a vida faz todo sentido, e um filme veloz povoa minha mente: a praia, Camburi, um aroma de Sundown, shampoo e cabelos molçhados me arrebata e ela tem 5 anos e duas mãozinhas que vivem me surpreendendo -- abraçando por trás, sentando no meu colo, pedindo pra dormir comigo porque está com medo, os almoços de domingo. Saio dali refeita.
Há também ali dois bibelôs muito antigos, um da minha mãe, e outro que era de minha avó -- é um cavalo bem pequeno e um pequeno cavaleiro-criança que segura sua guia, tudo pintado e filetado a ouro, que o tempo, claro, já desgastou.
Mas voltemos à porta do meio.
Há duas taças de licor finíssimas de cristal que pertenceram à família de meu ex-marido, e a tia dele também me deu. Havia três, mas eu, descuidada, um dia quebrei uma delas. Agora elas não saem mais dali para passear, só ficam ornando o lugar. Há uma taça de cristal roxa, com desenhos de flor que foi de minha avó e me foi dada por minha mãe. Ela reina ali no centro de tudo, pois me custa acreditar que aquela fazendeira silenciosa, dura e cheia de energia que criou 9 filhos, pudesse ter coisas tão delicadas em sua cristaleira. Mas a vida é surpreendente, disso eu já sei.
Há três chaveirinhos de vidro que acendem luzes furta-cor. Ganhei da minha mãe: um sagitário e um escorpião. E mais um de nossa senhora aparecida que minha tia me deu com todo o carinho e que guardo como se fosse uma relíquia. Em volta dele dependurei a bandeira da festa do divino que minha mãe me deu. Adoro ver aquela pomba na flâmula vermelha.
Mas o highlight desta cristaleira é um presente que jamais, jamais esquecerei: minha filha trouxe nas mãos três flores feitas de açúcar, são cor-de-rosa e têm o suporte verdinho. Ela viajou um mês com aquelas rosinhas nas mãos para não quebrar, para que chegassem a mim inteiras e lindas, como são, e como ela é. No seu aniversário de 18 anos fiz questão de tirá-las da cristaleira e deitá-las sobre um bolo branco. Nos parabéns, me deu vontade de chorar, pensando na nossa história, a minha e a dela, em que cabe uma herança tão doce. Tão delicada, como ela é.
Vejo e sinto que minha vida toda está ali. Mas ainda há de haver muitas histórias nesse abrir e fechar de portas de vidro. A cada jantar, baixo toda a porcela que nela vive, e tenho o maior prazer de usar essas peças que foram de alguém um dia, mas que me legaram por eu, talvez, merecer.
Há coisas do passado, mas também há os objetos e sentimentos do presente. No alto da porta do centro, vejo duas peças inglesas de prata muito pequenas, pés de leão pequeníssimos. Dentro delas deita-se uma minúscula colherinha em forma de concha em prata. Num passado bem remoto, elas podem ter participado de festas, banquetes, lanches naqueles jardins ingleses, ou simplesmente jaziam ali num jantar silencioso de uma família do século XIX. Quando fui presenteada, me emocionei muito por a mim ser destinado algo tão fino, sofisticado, delicado. Mas como sempre, engoli fundo a emoção para que a água salgada não estravazasse seus limites e expusesse a porcelana frágil velada sob minha dureza.
Mas pensando em todas essas histórias, essas duas pecinhas raras e lindas e adoráveis transpuseram um Atlântico com destino certeiro: a cristaleira da rua monte alegre. Nesse gesto certamente habitam muito sentimento e a certeza de que eu as guardarei comigo como se fossem joias, para sempre.

domingo, 4 de julho de 2010

Paraísos artificiais

Eles se constroem
com álcool,
imaginação
e algumas drogas.
A possibilidade
cresce
num caldo
vigoroso.
Fosse uma banana
amassada,
encerrada num laboratório,
em vez de
drosófilas melanogáster,
procriaríamos
e multiplicaríamos.

É cedo.
A rua quase
deserta.
Raros automóveis
diminuem a marcha
num trajeto
desconfiado.
-- A felicidade mora mesmo aqui?
Em que número?
56,
97,
293?

Querem se apropriar
do pequeno
filão
preso no labirinto.
A saída
e o núcleo.
Ansiosa,
abocanho
o tesouro,
antídoto para o
minotauro feroz.
Em um segundo
a criatura mítica
pode desfazer o encanto.
Nossa alegria.
Minha.
Sua.
De posse do sagrado,
corro certeira
em busca de ar,
ar.
Suando frio
evito a óbvia armadilha.

Instalado no Universo,
como quem vive um dia de cada vez,
você tamborila os dedos
numa mesa de madeira.
Suave, pensa na sua condição
masculina e repleta
de meandros sutis.
Agora, a sua antítese
chega com
o remédio
para nossas dores.
A minha.
A sua.

Minhas mãos
quentes, latejantes,
borrifam
o leite mítico.
Esculpem
a batalha
cotidiana.

Recomeçar.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Chanel n. 5

Vogais,
semivogais,
consoantes.
Palavras mínimas,
frases minimalistas.
Delas extraio
o sagrado unguento,
seiva elaborada
que percorre
o lenho --
elixir
que unge
todos
os
sentidos.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Geometria

Cada dia
de uma vez,
eis o mote.
Não sabemos nada
do plano,
apenas o essencial
para sobreviver.
Linhas curvas,
retas,
oblíquas,
quadrados,
retângulos,
círculos.
Por isso
tantas surpresas.
O inesperado
traz o presente
mais saboroso.
O corpo endurecido
se abre.
Como um girassol,
se rende
à luz solar.

Eu não sabia,
mas um dia
as paralelas
se tocariam
no infinito.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Flanando

Onde mora a semente?
Onde surgem os dias?

O albatroz desce como um raio
e desfruta da condição dos mortais.
Como em Baudelaire,
mancamos cada dia um pouco,
espalhando fome
e sofrimento
nesse andar duro e claudicante.

Oriente

Do outro lado do mundo,
o sol nasce e depois morre,
carregado de ideogramas
e origamis.
Papéis multicoloridos
batem asas:
pássaros, borboletas,
flores.
Quero me afogar neles.

Lá, onde tudo de melhor começou:

a dádiva de Ísis
é filha do sol nascente.

Naquele dia frio,
nevava lá fora;
uns sobre os outros,
quimonos
tentavam aquecer.
Mas as moléculas do amor
vibravam
seus spins, nêutrons
e elétrons,
arquitetando
a revolução.
Um microinstante
determinou o destino;
seu pai me olhou diferente --
o Universo me escolhera
para ser guardiã
de mais uma estrela.

Então eu soube:

jamais seria a mesma.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Todo sentimento

Pintura

Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos

(Ferreira Gullar, in Toda poesia.)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Tempo da delicadeza, by e.e. cummings

"here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life (...)"

A delicadeza da poesia concreta de e.e. cummings.

i carry your heart with me

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Sempre Drummond

Amor e seu tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.



Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Futuros amantes - Chico Buarque

http://www.youtube.com/watch?v=LOwQLarDhvI

Stardust - Louis Armstrong

http://www.youtube.com/watch?v=r94-7nJt-WM&feature=related

sexta-feira, 4 de junho de 2010

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Dia de outono,
sol frágil e delicado faz o degelo.

Aquecido,
o coração quer mais.
E há de ter...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O primeiro dia

A vida dá voltas sensatas ao redor do parafuso.
Era o primeiro dia, tudo pulsava num crescendo imaginário, e havia uma esperança no futuro, ponderada, real. Trazia vontade, uma confiança renovada. Pegar carona nessa morna felicidade, e ganhar o mundo, abocanhar a cota de alegria.
O desenho foi se traçando sem que eu percebesse, desde o dia anterior, o último dia do ano. Apenas algumas gotas, dose providencial para alçar o mundo, ganhar espaço, sentir certezas. Deitei-as garganta abaixo, como se ingere a última molécula de água num deserto, como se bebe um vinho sagrado. Eu desejava algo, sem saber o que, mas queria, e faria qualquer coisa para obter.
Acordei preguiçosa, lânguida, intuitiva, mas o desejo pronto e atiçado de ser uma fogueira neste mundo.
Indicados os sinais, esperei com calma, sem pressa. O cosmo providenciaria sua resposta. As gotas faziam seus túneis por dentro, e escavavam o melhor em mim. Leve, muito leve, fui sentindo o líquido dourado tomando conta e acendendo minhas dúvidas, esclarecendo minhas paixões, pontuando minha intenção. Guiada por essa sábia alquimia, me permiti.
A tarde foi ascendendo, criando vida, oportunidades, expondo uma caixa de pandora ao avesso. Declinando do que não queria, à francesa do que não me interessava, esperei, como Penélope. Algo que trouxesse fúria, carne-viva, um duelo em que eu pudesse ser um dos titãs. Sem subserviência, esperei, como se aguarda o inesperado.
A tarde foi latejando, quente e pesada, brincando com sua astúcia de enganar. A paciência de quem trama durante o dia para desfazer à noite. Fui tecendo, e uma certeza absoluta cerrou meus portões, e pude estar quieta, a esperar e esperar. Como numa promessa, atrevi-me na trama bem feita de pontos imaginários. Numa vertente feminina, escarneci o que me pretendia, e me mantive intacta para essa vinda. Usando os fios de lã mais coloridos e deliciosos ao tato enfrentei, determinada, vontades e fraquezas; fui inserindo ponto por ponto todo o meu desejo de mulher. Esperar, sim.
O relógio foi rodopiando as horas desse primeiro dia, e a cada minuto me senti mais dona do que aconteceria. Desde cedo, eu sabia.
Eram 3 horas da tarde quando um vento leve anunciou sua chegada. À distância enviou mensagens delicadas e líricas, encharcadas de testosterona. Prometeu considerar estrelas, e se necessário, fazer chuva. O mundo feminino em dúvida e medo, mas atento a cada sentido. Uma confiança ganha à custa de suor, mormaço, umidade e oferendas literárias, cinematográficas. Com esforço e tato, conquistou o tempo e a história, essa história miúda, que é a de todos nós.
Demarcou seu lugar na geografia de estrelas, superfícies brancas, reentrâncias, saliências, um jogo de revelar e esconder. A certeza ereta, a colcha foi deixada de lado. Me coloquei à janela, sorvendo cada mínimo avanço dessa nau.
As palavras eram o melhor em suas manobras de navegante. Pontuava de forma lúdica ao que viria, muito claras as intenções. Narrou tímido suas façanhas. Mostrou-se e desnudou-se − ainda assim, reservado, a parte mais encantadora de tudo. Em vez de recebê-lo em minha morada, adentrei a sua. Uma nau cravejada de um aroma delicioso, um perfume delicado, inigualável. Pisei leve e à vontade aquele chão ancorado no espaço, claro e limpo, povoado das coisas de que mais gosto neste mundo − objetos de desejo. Uma dança de sedução mútua, tímida e discreta teve lugar ali − e confesso que aí residia grande parte da beleza. Para desfecho, uma isca seria lançada e marcaria meus olhos para sempre: o poeta pisando trôpego o beco e suas garrafas, letras sobre papel esvoaçavam arrastando a poesia cotidiana, morta no corpo, viva no pensamento. Repeat, repeat, repeat...
Ainda com os olhos banhados nessa imagem, fui tocada por dedos delicados, que me chamavam para aquilo que mais queríamos, desde o começo. Mas numa metamorfose transformou-se em fúria, descarnou um beijo wildiano, e então sucumbi como tomba uma árvore à mercê do lenhador. A cumplicidade e o grito da vontade, veladas até então, restaram ali, quietos agora, apenas expectadores, pois a carne sangrava ao ser lacerada e hematomas surgiam diante da crueza e da voragem. Não havia mais volta. Percorrida em todos os sentidos, de um jeito intenso. Tocada e beijada das formas que mais gosto – rosebud –, fui subindo o Olimpo, numa noite inventada.
Tamanha era a alegria da entrega, quis oferecer essa alegria também. Blow up. Então, um meteoro intenso surgiu no meu horizonte, palpável, prestes já a arrancar de dentro o que de melhor a alma humana tem a oferecer. Mas houve um milissegundo de ternura, e as mãos se colaram, como quem não quer perder o outro quando a terra escancara uma fenda em um terremoto. Para em seguida uma promessa se cumprir: o céu abotoado de nuvens foi pontuando as estrelinhas, e desabou sobre elas. Tornou mais agudas minhas vontades. Uma cena doce teve seu momento, e os beijos agora eram menos tormenta, e mais chuva fina a fazer palco em nossa boca. A loucura e a força de toda essa história caminhavam para seu desfecho, enfim.
A prata oculta nos profundos, personagem principal dessa odisséia, já tamborilava lá dentro, fervia aflita, pronta para ser arrancada como ouro negro. Felicidade de mulher saciada, assim, aos borbotões texanos.
Sons primitivos preencheram esse lugar encantado. Lá fora, anoitecia. Ninguém poderia imaginar que um céu pode prometer e cumprir se assim for preciso... E alheia a todas essas coisas belas e insanas a Terra percorria tranquila em elipse seu primeiro dia de translação.
A vida também, assim como a Terra, dá voltas sensatas ao redor do parafuso.

Filosofia de fim de tarde - Outono

Nada como um dia após o outro.

Virada Cultural - Sábado

Gosto muito quando tem Virada cultural. Faço com prazer um circuito que adoro: andar pelas ruas do Centro, revitalizar minha memória desses lugares, poder ver sem pressa e detalhadamente os prédios antigos, a arquitetura de um pedaço da cidade que frequentei muito quando criança e adolescente.
Decido ir ao show de abertura, músicos que fizeram parte do Buena Vista Social Club. Pegamos o metrô rumo à estação Luz. O clima entre as pessoas é de dia de festa. Todos estão sorridentes, munidos do programa da Virada, lendo atentos o que querem fazer na maratona.
Eu já sei que vou pinçar alguns eventos apenas, e não vou virar a noite, como fiz da outra vez. Estou cansada, tenho trabalhado muito, então vou atender aos limites do corpo desta vez. Encontramos com mais uma do grupo na catraca da estação. Ela é arquiteta. No caminho que fazemos até a praça Julio Prestes, ela vai contando que já entrou em alguns prédios ali para trabalhos de observação. Descreve detalhes de alguns deles. Vou adorando esta conversa.
Já na esquina da estação da Luz, ouvimos alguns acordes ao longe. Som cubano é sempre som cubano: adoro. Chegando perto do palco pela lateral e percebemos que será impossível ver os músicos, tamanha é a multidão. Vamos nos apertando com as pessoas que estão ali.
Bem, coruja que sou, vou observando tudo. Não estamos vendo nada do palco, mas percebo que a maioria do público é de jovens e adolescentes. Fiquei feliz de saber que não é apenas minha filha e os amigos dela que gostam desse ritmo. Também observo que o público procura não fazer barulho e algumas vezes pede licença pra passar. Penso: que raro e que bom.
Agora conseguimos chegar mais perto, e podemos ver alguns músicos. Eles dançam com aquela facilidade e moleza de quadris que os cubanos são famosos por ter. Uma cantora magra de voz forte remexe os quadris como se tivesse nascido dançando, faz aquilo como se estivesse lavando louça ou varrendo a casa. Naturalmente.
Os celulares tocam, as pessoas vão se encontrando: "estou aqui, do lado palco", diz um. "Fala mais alto!" Não gosto muito de celulares, mas desta vez, confesso, adorei ver aqueles jovens todos se comunicando, tentando se encontrar nos eventos. Afinal, num mundo de tanto desencontro, testemunhar o encontro é algo que provoca a fé. Uma aldeia cultural, foi o que vi. Parte do meu desencanto com a humanidade fenesceu. Aqueles telefonemas me mostraram que há mais do que imagino no mundo.
Tento ir mais à esquerda, quero ver a ex-rodoviária, ali de frente para a Sala São Paulo. A rodoviária era para mim motivo de alegria, sempre: ou saíamos em férias, eu e minha família, ou íamos ali de carro buscar os parentes que passariam alguns dias conosco. O meu pai nos levava de carro até lá no nosso velho e bom Fusca 1966 azul, e nos colocava no ônibus. Ele esperava o ônibus partir, e ficava dando adeus a distância, discreto, tímido, como sempre foi. Eu ajoelhava no banco e ficava olhando até ele desaparecer, um pontinho lá longe. Doía uma súbita saudade, mas, como toda criança, eu me sentava no banco já imaginando subir em árvores, tomar banho de rio, correr na rua com meus primos, visitar o curral todos os dias, ficar olhando nossas mães cozinharem pamonha no terreiro, ou um tacho de goiabada. Quando faltava imaginação pras brincadeiras, íamos na praça e ali tudo era desejo: algodão-doce, sorvete, maçã-do-amor. E correrias pra cá, pra lá. Para uma criança de São Paulo, criada dentro de um quintal sem árvores, aquilo era o paraíso, liberdade, tudo de bom.
Termina o show, e vejo lá no alto uma malabarista dependurada num fio. Shortinho vermelho, ela vai se contorcendo lá no alto, e nós, aqui embaixo, vamos admirando sua coragem. Eu, que tenho medo de altura, paúra na verdade, a admiro ainda mais.
O grupo se encontra mais gente numa esquina, e decide ir a outro show no Anhangabaú. Eles me chamam, mas tenho um jantar marcado e não posso me atrasar. Ainda tenho coisas a fazer antes de ir.
Passo em frente da estação Luz, e vejo a faixa que indica os horários do trem das onze. Um trem sai da Luz e vai até o Brás. Depois do jantar, me programo pra pegar o trem talvez da uma da manhã e fazer o circuito. Meu grupo também fará o mesmo. Marcamos de nos encontrar à uma ou duas da manhã. Bingo! OK!
Apesar dos planos, o jantar esticou pela madrugada. Está tudo tão bom que esticar pareceu necessário. Vou ter que "pular" o trem da uma ou duas... Mas me animo para depois enfrentar talvez o trem das 3h ou das 4h. Quando são 3h30, já estou mais com ânimo de cama e edredom. Decido por fim perder o trem e ficar com minha noite de sono.
Amanhã haverá mais maratona, e já tenho minha diversão em mente.

***

Hoje é 2 feira. Abro a Folha para ver notícias sobre a Virada. Mario Bortolotto escreve. Entendo seu desencanto. Também estranho as pessoas se desesperarem por ver todos os shows, por quererem estar em todos os lugares, por prefigurarem uma espécie de angústia pela diversão nonstop. Estranho também a morte do adolescente, vítima de um esfaqueamento. Afinal, não cabe em minha mente haver violência numa festa de arte e de cultura.
Concordo com Bortolotto de certa forma, mas não chego às raias de sequer ter vontade de sair de casa nesses dias. Sou menos desencantada do que ele, e confio que adorarei viajar no Trem das Onze, do Adoniram. Também confio que vale a pena o crime me deslocar para ver Flora Purim e Airto Moreira nesse clima de celebração pela cultura que muda o ar da minha cidade: as pessoas estão ali por algo do bem, a cultura, a diversão. Afinal, depois de muito panis, precisamos muito deste "circensis".

domingo, 9 de maio de 2010

Dia das mães, e um presente sincrônico

Há muito tempo não ia ao bairro da Liberdade. Nossa, nem me lembro a última vez. Mas preciso urgente de um secador. Perguntei pra pessoa que cuida do meu cabelo qual modelo e onde comprar. Munida das informações, lá fui eu sábado à tarde de metrô à Liberdade. Ikesaki era o destino.
Bem, como típica mulher que sou, claro que não pude me ater apenas ao objetivo da minha ida até lá. Meus olhos brilharam quando viram inúmeros produtos, para os mais variados objetivos. Mas eu tinha que escolher, então, me encostei no balcão da Loreal. Preciso de um batom novo e bom. Andei comprando alguns pelo preço, e eles não duram uma hora nos lábios. Resolvi que queria investir num melhor.
A vendedora e demonstradora dessa marca, olhos pintadíssimos, rosto aveludado pelos pancakes, derruba as prateleiras -- percebeu que potencialmente posso ser uma compradora por impulso. Vai me mostrando batons, gloss, rimel, delineador, iluminadores, sombras... e eu vou sendo encantada, como se ela tivesse o canto da sereia e eu fosse um pescador. Quando dei por mim, o dorso das minhas mãos estava todo cheio de glitter, coberto por várias cores, brilhos, enfim...
Percebo que preciso muuuuuuuuuuiiiiiiito de tudo aquilo, há uma ordem em mim que me diz: você precisa de tudo isso, você precisa, você precisa...
Bom, peço então que ela feche minha conta. Ela soma tudo, um valor alto. Eu dou um passo atrás. O bom senso adormecido em mim acorda, e penso que tenho outras coisas importantes pra comprar pra casa, pra Isadora, e até mesmo para mim. Tive que desapontar a moça de olhos sombreados em demasia. Peço que vá tirando alguns itens até chegar ao valor que não doerá no meu orçamento mensal. Já tenho o secador, então posso viver com um batom e dois gloss. Vou ao caixa. Vejo que as mulheres carregam cestas pesadas de produtos. Me sinto menos mal por meu impulso inicial. Nós mulheres somos assim... (pelo menos, a maioria de nós, diríamos.)
Como sou mãe, e nunca volto pra casa com algo pra mim sem trazer algo pra Isadora, pesquisei o que poderia lhe agradar: ela adora cremes para o rosto, para as mãos. Pego um que acho que ela vai gostar.
Estamos a um dia do dia das mães, ganho dois presentes: um nécessaire da Loreal e um pingente em forma de coração vazado (acho que banhado a ouro) pendurado de lado, bem bonitinho, de uma parceria entre Ikesaki e uma joalheria.
De novo fora da Ikesaki, na praça da Liberdade, vou lembrando algumas coisas que esta região me traz. Muitas vezes eu vinha visitar meu pai no trabalho, o Fórum, ali do lado, na praça João Mendes. Vinha buscar minha mesada, quando adolescente, ou simplesmente ligava pra ele: “Pai, posso subir pra te dar oi...”. Também me lembro que um dos meus cursinhos pré-vestibular era ali perto, estação São Joaquim. Eu estudava pra passar em medicina. A gente às vezes ‘cabulava’ aula, quando não aguentávamos mais aquelas fórmulas, e íamos numa choperia ali perto da praça da Liberdade. Anos 80, falávamos de política, de música, de chico buarque, de namoros, de futuro, de possibilidades, de tudo enfim. Havia uma garra subliminar em todos nós, uma vontade de futuro, de estudar, de crescer, amadurecer, ganhar as escadarias do mundo, subir nelas.
O metrô Sé, naqueles tempos, era ponto de encontro pra muita gente. Não havia esse mar de gente circulando por lá e era fácil encontrar um amigo, amiga, namorado, rolo. Me lembro que algumas vezes marquei encontro com um ex-rolo ali (naquele tempo o termo técnico era ‘amizade colorida’). Meus pais nem sabiam onde eu ia, eu só dizia: vou sair com um amigo. E diferentemente de hoje, eles não se preocupavam se eu seria raptada, se desapareceria sem deixar rastro, se seria assaltada, se sofreria algum tipo de mal. Eram tempos diferentes. Havia outros problemas, mas violência era raro.
Decido ver se ainda existe o prédio onde ficava o cinema japonês, praça Carlos Gomes. Ando alguns passos, e já sinto a decrepitude. Lixo, sujeira, sei lá: festa estranha, gente esquisita. Encontro o prédio exatamente como era há mais de 30 anos, apenas a cor é diferente. Mas a decepção cala fundo: agora o 'meu' cinema japonês é uma igreja evangélica.
Me atiro na rua dos Estudantes, só pra ver como está. Tento ir a uma igreja antiga que tem numa travessa, mas, além de decadente, arruinada, ela está fechada. Meu coração dá um pontadinha de dor, sempre sinto isso quando vejo minha cidade da infância e da adolescência ser carcomida pelo descaso ou pela destruição para subir mais um arranha-céu. A rua é um beco, e a fachada da igreja fecha o final da rua. Ali na frente misturam-se umas vendedoras que acabam de sair de uma loja e um sem-teto, enrolado num cobertor, talvez esperando a loja fechar totalmente para retomar sua “casa” noturna. Meu estômago embrulha.
Faço o caminho de volta e entro numa Bakery, não sei mais se japonesa ou chinesa, mas muito boa, à qual já fui várias vezes. Esqueço a dor da igreja e do mendigo. Como de hábito, peço pão feito no vapor, recheio de frango. Sempre peço isso quando vou até lá. Sei que sou óbvia, mas gosto de ir aos mesmos lugares e pedir as mesmas coisas. Coisa de sagitariano, eu acho. Meu pai também é assim. Novidade não é com ele.
Me sento lá, e fico pensando um pouco tristonha na decadência que sinto no bairro da Liberdade em relação ao tempo em que o conheci, há mais de 25 anos. Ali era o próprio Japão. Hoje não sei direito quem são seus habitantes e comerciantes. Era tudo muito limpo e aquelas lanternas japonesas no alto das ruas estavam sempre bem cuidadas. Vi ontem que elas estão muito sujas, maltratadas, sem qualquer manutenção. Pena.
Vejo uma criança e algo cutuca minha memória. Não sei bem por quê. Mas lembro diretinho de uma cena com um amigo de adolescência, e penso que não nos vemos faz tantos anos. Me pergunto por que o passar do tempo, em vez de aprofundar as relações, muitas vezes nos separa de quem gostamos. Num segundo já esqueci do meu amigo e acelero sem rumo.
Volto para casa, trazendo umas flores dentro do metrô, que comprei pra minha mãe ali mesmo na Liberdade pra lhe dar de dia das mães. Era uma barraca de japoneses e as flores estavam muito bonitas e frescas. Havia todo o tipo: crista de galo, begônias, minirrosas, rosas, gerânios, crisântemos, rosas, flores do campo, e outras tantas que eu sequer conhecia. Pego um vaso de begônias, estão lindas na sua cor laranja. Um flash na minha mente me lembra uma barraca parecida que vi em Londres quando fui encontrar com minha filha num restaurante natural no centro, perto de Oxford street. O flashback me fez lembrar que eu achava lindas aquelas barracas de flores em meio à turba de pessoas no horário do almoço. Mas, na praça da Liberdade, a barraca de flores era a única coisa bonita, colorida e alegre no entorno.
No metrô, lotado para um sábado, entro com uma sacola grande numa mão, um vaso na outra, e, nem acredito, um homem logo se levanta e me diz pra eu me sentar. Eu fiquei envergonhada, peço que ele não faça isso, não é preciso, mas ele faz questão, dizendo que estou com pacotes, e se mantém de pé, firme. Bom, nessa altura, todas as pessoas ao nosso redor estão nos olhando. Na atualidade, infelizmente esta é uma cena incomum, ninguém dá o lugar, nem para uma mulher, nem para um idoso, nem para uma mãe com crianças. Eles só são salvos pelos bancos destinados a eles, caso contrário, morrerão de pé até a última estação.
Chego em casa, e me lembro que tenho um jantar de aniversário de uma grande amiga. Separo roupa e sapatos, dou uma arrumada nos cabelos com meu secador novo. Feito isso, vou abrir meus e-mails. Apenas pra constar que os abri hoje. Vou sem vontade lendo e jogando no lixo as propagandas virtuais. Respondo aos amigos, neste caso, sempre com carinho e muita vontade. Há um e-mail de trabalho, não respondo. Trabalho, agora, só na 2ª feira. Mas lá no final da lista do dia, um e-mail chama minha atenção. Sincronicidade é a surpresa do tempo. Não é?
Abro e uma sensação boa se abate sobre mim. Depois de quase 20 anos sem notícias, o amigo da adolescência no qual pensei hoje à tarde me escreve. Reencontro nos bits e bytes da vida. Nas palavras dele, “caso eu seja a Sandra Brazil que ele conheceu”.... Sim, sou eu. Eu tinha 15 anos quando o conheci numas férias, nos correspondíamos, inúmeras cartas, dúvidas, perguntas, o mundo chegando a nós como um barco chega no porto, deslocando muita água; o que seríamos no futuro, como nossos pais, será? Depois nos reencontramos na faculdade. Depois nos perdemos. Depois, reencontro trabalhando juntos. Depois, silêncio. Na verdade, lembrar nossa trajetória me refrescou a inocência que um dia já houve em mim – um tempo sem atritos, sem pré-julgamentos, um corpo mais disponível, sem a tensões da antecipação. Eu era toda lânguida à espera do que a vida me traria.
Receber as palavras doces de um amigo de tanto tempo está para a barraca de flores que embeleza o entorno na Liberdade. Elas vêm a calhar e embelezam a mim também. Afinal, é dia das mães, e eu mereço um lindo presente.

sábado, 8 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Filosofia de botequim

Numa mesa de bar, duas taças e meia de vinho, já ensaio uma espécie de filosofia. Barata... desfalcada... mas abusada devido ao estímulo etílico.
Tudo ao redor fica mais bonito. No afã de uma inteligência futebolística recém-adquirida, depois de anos, juro: até entendo o que é o incompreensível 'impedimento'...
Eu não sou de beber, mas, quando bebo, é como se eu estivesse apenas coberta pelo cetim mais leve, e, ao mínimo movimento, ele escorregasse do meu corpo, me expondo da forma mais absoluta.
Revisito alguns sítios do passado, embalada pelo álcool. Ouço "Summer time" numa voz negra que me lembrou Etta James, e uma onda de sexo, umidade e atordoamento toma conta de tudo. A moça de olhos grandes e swing dos ótimos canta, como se fosse dona daquele instante. E é. Me sinto em Nova Orleans, um bonde chamado desejo. Embarco. A voz arrasta tudo ao redor, como Katrina. Burning down the house.
Dou voltas para não dar de frente com uma Sandra que está adormecida, parece séculos. Tenho medo de despertá-la. O blues que rola deu uma aquecida na minha geladeira, e uma febre cigana quer subir por meus azulejos de vidro.
Um boteco sórdido é a próxima parada. Um rapaz de camiseta de time de futebol segura um copo de cerveja e assiste com seus óculos a partida. Ele não resiste a minha acompanhante, ela dá trela, e eles entram em campo. Ele vai pra cima dela, como o atacante vai em busca do gol. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLL!
Mas ela se atrapalha com uma conversa sobre troco, e ele desiste. Eu busco folhinhas de boldo do chile, acreditem, que está plantado em plena rua dos Pinheiros. Me arrependo de tê-la deixado sozinha naquele lugar sórdido, e eu ali contando estrelinhas.
Rapidamente, retomo meu posto de guardiã das coisas mais belas do mundo, e, em um segundo, ela volta a ser meu guia.
Risos e o passado vão tecendo a noite, são fotos de uma galeria íntima. Elocubramos uma filosofia barata, de botequim, que devido ao álcool não consigo me lembrar agora. Mas era muito boa, saibam.
O tigre interior está intrépido, subindo pelas paredes de vidro. Imagem mais bela não há, tanta vontade e determinação. Prometo mil coisas ao meu reino: quero ser mais feliz, quero encontrar mais vezes minha velha e boa alegria.
Um admirável passado relincha e galopa na minha frente. Quer se libertar, selvagem. Eu vou soltando a corda. Ele vai me arrastando pelo caminho.
Bom, o vinho vai volatizando, é hora de despertar. Acordo. Lembro que preciso pegar um táxi. "Com dignidade" -- transcrevo a frase-máxima da noite, dita por um miau numa calçada, alguns ml de cerveja umedecendo seu significado. Ao ser dita, consulto meu relógio interno, um sonrisal enorme cai dentro de mim: preciso partir.
O tigre escorrega então suas garras, descendo de volta pelas paredes. O corcel dá marcha à ré e volta ao seu cercado. Ainda não foi desta vez. Não, ainda não foi.
E lá vou eu de novo.
Mas tenho fé: virá a próxima parada, Estação: Felicidade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sabedoria

"Mais do que um instante,
eu quero seu fluxo."

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Senta que lá vem história...

Aiai é dia de lançamento. Há 20 anos trabalho com livros: edição, preparação, revisão, tudo: tornar o original algo pro leitor. Como sempre, me atrapalho nesse dias.
Eu realmente sou muito tímida pra determinadas coisas, tenho dificuldade em dias de festa. Raramente vou a lançamentos, quem me conhece pode até estranhar. Mas sempre fico na coxia do livro, nos bastidores, como um técnico de luz no teatro, uma camareira de uma grande estrela. Eu gosto de ficar atrás dos holofotes.
Mas é dia de lançamento de livro, e tenho que superar minha fraqueza. Enquanto a maioria das pessoas gosta de ficar ali, lustrando o próprio brilho girando uma taça de vinho, eu fico na fila, rezo pra não ter que cumprimentar ninguém, que ninguém me reconheça, pego o autógrafo, abraço o autor, e saio correndo pra ir tomar uma taça vinho longe dali. Acreditem. Conto os minutos pra me livrar do mal-estar da timidez, que me torna de certa forma patética: uma pessoa normalmente tão extrovertida como eu...
Mais uma vez, saio do trabalho, sigo para alameda Lorena, compro meu exemplar, um nó na garganta, subo as escadas da Livraria da Vila, e já me sinto um peixe fora d'água. Num aquário estou apenas quando me deparo com as letrinhas sobre o papel, desejosas por minha intervençaõ, minhas sugestões, minhas dúvidas. O papel couché brilhando diante de mim, ou o pólen, e eu dando os últimos palpites de editora. Aí sim sou toda eu, mãezona daquela criatura que breve será cuspida pela máquina de impressão da gráfica. Adoro. Sou eu completamente diante do livro.
Mas eis que consigo rapidamente meu autógrafo. Alívio. E desço a Hadocck Lobo em busca do cafér Oscar.
Não sou habituée da Oscar Freire, ao contrário, tenho sérias críticas a essa rua-vitrine. As pessoas que por ali transitam não frequentam minha tribo. Eu, não tenho nada que ver com elas. Há dois tipos de seres humanos: os endinheirados, que transitam ostentando sua figura e seu argent. E os pobres seguranças, que são instalados ali para, em tese, afugentar aqueles que sua própria classe social que venham macular a beleza criada. Estranho isso. Os seguranças são os muros medievais do mundo moderno.
Instalada no Oscar café, me lembro que passei um aniversário ali. A comida é ótima, o vinho também, e os preços são honestos, exceto de certos sucos, que custam o preço dos pratos... É uma portinha de nada que dá num fundo bem cuidado, com jardim de inverno, sofá, jornais e revistas, mesas tipo bistrô, uma graça.
Sentada numa mesinha de costas para o jardim, a vela tremula à minha frente, e eu peço uma taça de um argentino pra matar esse sentimento de deslocamento que sempre sinto em estreias e lançamentos de livros. O argentino chega rápido, mas a salada demora um pouco. Folheio o livro e suas gravuras: Evandro carlos jardim.
Como minha salada ainda não veio, peço o jornal do dia, eles me trazem a Folha.
Olho ao redor: há um casal, uma mesa com algumas amigas, e dois amigos ao fundo. Só eu estou numa mesa sozinha. Fico pensando o que me leva a ter paúra de lançamentos, mas ficar tão à vontade num bistrô, tomando vinho, lendo jornal desacompanhada... Será que sou carrie, a estranha, meu deus...
Peço um expresso pra coroar um dia difícil e caio na rua de novo. Um moço bonito, de cerca de 35 anos, para no farol; quando reparo, ele está sorrindo pra mim, e pedindo um sorriso de volta. Minha insegurança e baixa autoestima me fazem correr e tentar alcançar o meu carro. Ele ainda olha pra trás, seu vidro aberto, e ri da minha atrapalhação. Um riso puro e ingenuamente sincero, um sinal. Mas o farol de uma grande cidade divide as pessoas e os destinos. O verde o obriga a baixar o facho, olhar para a frente e seguir, se esquecendo de mim e das possibilidades que a vida cria algumas vezes.
Meu celular toca e me vejo mãe de Isadora de novo. Ela está na rua Bartira, 'onde vc ta, mãe:'. Digo que me espere, vou buscá-la em 10 minutos.
Meu pretinho básico volta para o cabide, e a fita de veludo preta que o enfeita deita-se numa caixinha que ganhei de Eloísa. Arranco as botas como quem arranca as farpas depois de um dia difícil. Meu quarto parece um esconderijo muito seguro. Quero ficar aqui, na penumbra do que me é caro e conhecido.
Amanhã tudo voltará ao normal.
Ficarei super à vontade, nua e sem restrições, para as palavras, as palavras que leio diariamente.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Emily

Que o Amor é tudo que existe
É tudo que sei do Amor.
Isto é bastante - o peso deve
Adequar-se ao andor.

(Emily Dickinson. Alguns poemas. Trad. José Lira. Iluminuras, 2006.)

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Clarice

`Por que será que a gente luta tanto para produzir uma obra de arte...
Acho que é para sobreviver.'

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 22 de abril de 2010

New Orleans

Mar revolto.
Katrina,
e o estrago se vê na história
destruída.
Anoitece,
um cemitério de
navios.
Espólio,
peso que se carrega
no corpo.
Veremos novamente
a vida?
Demitiremos
navios que agonizam?
Haverá notas de uma melodia
na noite escura?
Uma Nova Orleans
dentro de mim.
Se morre,
morrerei com ela.
Se resiste,
me projetarei
rumo ao vale,
ao vale dos que sobrevivem.

Minha Nova Orleans
desperta sonolenta
pós-catástrofe.
Vagarosa como sua dona,
mas esperta como uma coruja
-- observa --.
Como uma aranha
tece fios
pra ressurgir.

Katrina
e seus caprichos
femininos.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Anônimo em minha cama

Originário das terras frias,
longilíneo,
chegou desavisado.

Delicado,
Terno e quente.
Percorrendo o conhecido,
Acariciou meu corpo nu
que adormece, tranquilo, sob seu turno.
Um guardião chinês...

Constituição delicada.
Acordo enternecida por sua proteção,
na noite,
e nos momentos mais difíceis
sua paixão me surpreende.
Generoso, como o espelho de Branca de Neve
me diz:
"Você é a mulher mais bonita do mundo".

Rolo para a direita e depois para a esquerda
nesta cama que é minha, só minha,
como se fosse uma Marilyn Monroe a andar
nua, inocente,
pela casa.
Fazendo biquinho e piscando os olhinhos
que o mundo quer comer...

Me queira: eu penso.
Me deseje: eu peço.
E dois pulinhos de um coelhinho já
sinalizam quem pode ser esta mulher...

Anônimo,
anônimo companheiro
de meus dias.
Envolve e aquece
a minha pseudoalegria.

sábado, 17 de abril de 2010

Que mistérios tem Clarice?

É difícil assumir micos. Assumo o meu de hoje. Convidei Isadora pra ver comigo a peça sobre Clarice Lispector, que está em cartaz no CCBB. Ir ao teatro tem sempre algo de cerimonial, diferente de ir ao cinema que, pra mim, é mais descontraído. Sempre me visto melhor, apuro na apresentação, dinheiro para qualquer emergência ou para o táxi, há um quê de ritual nisso tudo.
Ela, que na sua juventude tem agenda lotadíssima, concorda em me acompanhar. Eis que nos aprontamos, pegamos o carro, deixamos no estacionamento da Consolação e pegamos a van que nos leva ao CCBB. No caminho, vou puxando histórias do nosso guia; pergunto nome, falo da violência da cidade e amenidades outras. Ele se sente em casa, me chama de Sandra (Então, Sandra, você gostou de Madri?..., mas você já foi a Londres, Sandra?, mas na Europa não é assim, Sandra) e conta que morou na Espanha e Lisboa. Não houve tempo pra eu perguntar "o que vc ta fazendo aqui? Volte pra Barcelona". Gostei de ouvir o som do meu nome pronunciado tantas vezes num percurso tão curto. Me lembrou que eu sou a Sandra.
Entrar no CCBB, pisar naquele mosaico maravilhoso e olhar os desenhos do guarda-corpo em metal (folhas de café), é uma espécie de veneração pra quem gosta de história, como eu. Sempre me surpreendo com um detalhe que não havia percebido antes. Aproveito sempre pra tomar um café antes de ver um filme ou mesmo ir ao teatro de lá.
Peço a Isadora que veja nos tickets se há tempo para eu tomar a minha dose de cafeína. Ela olha o papel, ri, olha de novo, e gargalha: mãe, hoje é dia 17/4, você comprou os ingressos para dia 24/4... quáquáquá!... Não acredito que fiz isso. Me chateio de tê-la feito ir até ali, burlando seus encontros com amigos, só pra me acompanhar, e eu pago esse mico!
Portanto, não poderei escrever hoje sobre minha impressão da peça sobre Clarice. Terei que esperar até dia 24/4. No entanto, apesar do mico, será um prazer pisar de novo naquele mosaico e descobrir algum outro detalhe da arquitetura que me escapou nesses anos todos.

domingo, 11 de abril de 2010

É tudo verdade

Vou buscar em Vinícius: "(...) Impossível fugir a essa dura realidade/ Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios/ Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas/ Todos os maridos estão funcionando regularmente/
Todas as mulheres estão atentas/ Porque hoje é sábado.(...)"
O sábado foi promissor. Muito melhor do que eu esperava. Na verdade, tudo começou na sexta-feira.
Estava trabalhando duro, e me avisam que terei de sair mais tarde. Já são 20h. A noite vai se dura, imaginei... Eu e meu companheiro de trabalho nos debruçamos sobre o que nos foi legado fazer, para abreviar o processo. Meu celular toca. Não reconheço o número. Atendo. Uma voz reconhecida e serena me chama do outro lado: Oi,tudo bem? Eu pergunto quem é. Oi, sou eu..., liguei pra saber se você se está bem.
Na última postagem eu disse que aceitar ser cuidado é uma arte. E eu me vejo esta semana sendo cuidada de vários pontos.
Você ainda está brava comigo? Eu disparo uma gargalhada, solta e alegre. Não, não estou. Ele diz: saudade. Eu respondo que também. Vamos nos ver? Sim.
Estava garoando, pouca gente na rua quando saí. Ouvi meus passos trotando nas calçadas cheias de quebraduras de Perdizes. Estou exausta depois de um dia que começou às 9h e está finalizando às 23h.
Nos falamos ao telefone. Impossível encontrar agora. Muito tarde para mister-embaixo-das-cobertas, e eu na verdade estou exaurida, sem energia mesmo. Vou pra casa, querendo banho e cama. Está friozinho, do jeito que o diabo gosta para aqueles que estão se amando. Garoa lá fora, edredom e carinho aqui dentro.
Acordo tarde e o dia passa preguiçosamente. Faço uma programação light com minha filha. Volto pro meu chatô. O sol está se pondo, douradão sob minha mira atenta. Neste exato momento recebo um telefonema. Ele quer tomar conta do meu território. Que bom, eu penso. Retomo minha alegria conhecida, e me permito pôr mais uma pá de terra nas coisas que desfalecem. Será isso o remédio do tempo? Ouço alguns segredos, desvendo alguns mistérios. Acho que estou nos trilhos de novo. Rédeas bem presas nas mãos.
Aí chega o domingo. Acordo serelepe depois de um sábado bom, gentil e generoso comigo. Resolvo coisas práticas da minha vida e da minha casa. E a tarde será só minha. Recebo mais um telefonema. Um cálido cuidado me chega do outro lado do fone. Pareço uma aquarela delicada, pronta pra se desmanchar. Retribuo o carinho. Me sinto uma flor tocada pela brisa.
Quero ir ao "É tudo verdade", e decido por um documentário holandês sobre a viagem de 21 dias do Zepellin, em 1929. Me animo, me arrumo, e parto para o Centro Cultural Banco do Brasil.
Sem carro, pego um ônibus e em menos de 10 minutos estou na rua Xavier de Toledo, a rua da minha infância. Desço e caminho até a esquina do antigo Mappin, de frente pro Teatro Municipal. Uma imagem aparece: anos 60, minha mãe envolvida num casaco chique de lã negra até os joelhos, meias de seda e sapatos de saltos finos, bolsa de mão. Ela pega firme na minha mão e fala que vamos fazer compras no Mappin. Eu também estou bem arrumada para a ocasião. Sempre que íamos ao Centro, ela me vestia com esmero. O Centro requisitava esse tipo de cuidado. Eu era muito pequena, mas achava lindo o Municipal, à minha direita, aquela imponência sobre a escadaria. Havia um relógio no Mappin, e eu sempre perguntava: Mãe, que horas são? O Mappin fazia parte da minha vida. Significava que ia passear de ônibus elétrico e brincar de correr, pular entre mobílias, eletrodomésticos, bonecas e afins. Depois de tudo, ela me levava para lanchar, e eu pedia um sanduíche americano.
Jogo uma toalha fria na memória e quebro à direita no viaduto do Chá. O dourado do outono bate forte nessa espécie de mito paulistano. Minha avó me contava que muitas pessoas se atiravam dali quando ela era mocinha, e que ela costumava frequentar as casas de chá com as amigas na rua Líbero Badaró. Ao longe vejo a obra polêmica da praça Patriarca. Me sentia mais à vontade com aqueles terminais de ônibus anos 50, era familiar para mim, que sempre vinha com minha mãe e descia as escadarias da galeria Prestes Maia para comprar livros do MEC. Certa vez, anos 80, eu era recém-casada e havia um bar em um hotel ali na esquina. Meu ex-marido me convidou pra tomarmos algo lá. Nos encontramos na porta, como só os apaixonados o fazem. Beijos e abraços de saudade depois de apenas 10 horas separados. Havia meia-luz lá dentro, uma sensação de aconchego. Depois, fomos ao restaurante de frente à faculdade São Francisco, a uma quadra dali. Jantamos como deuses, sob a mira daqueles garçons que ainda vestiam terno branco com gravata-borboleta.
Sacudo de novo as lembranças, e me embrenho pela rua da Quitanda, que dá acesso ao CCBB. Está vazia, só alguns gatos pingados às 16h30. As portas do comércio estão pichadas com coisas ininteligíveis, o calçadão está sujo e há um forte cheiro de urina... Apesar daqueles prédios lindos, arquitetonicamente históricos da minha cidade, apresso o passo para fugir desse tom de decadência e falta de cuidado do setor público.
Chego ao meu lugar de destino, e consigo um ingresso facilmente para minha sessão. A moça da bilheteria é educada e atenciosa, e penso que estou tendo sorte esta semana. Estão me embalando nessa onda de cuidado. Tento comprar um ingresso também para a peça de Clarice Lispector, e ela me ajuda a encontrar um bom lugar. Me diz que pessoalmente, em certos espetáculos, gosta de ver do mezzanino. Vou na dela e compro meus ingressos. Nem acredito que no meu caminho só tem surgido gente de carne e osso nesses últimos dias. Pergunto qual é o atalho menos pior para ir embora dali mais tarde, no escuro, evitando possíveis assaltos. Ela me pergunta se não prefiro ir de vã até a Consolação. Eu estou sem carro, mas nada impede que eu vá com as pessoas que estacionaram o carro lá. Penso um pouco, agradeço o cuidado, mas declino. Prefiro ver as luzes do viaduto do Chá depois do escurecer. Ela diz que não será perigoso, mas que eu fique apenas 'atenta'. Ok. Got it!
Há bastante gente nessa sessão. Pelo que percebo, a maior parte está sozinha. A moça ao meu lado parece ser bem interessante, e vejo que comprou títulos qna livraria. Ao lado dela, duas cadeiras à direita, há um moço bem bonito, descolado, meio perdido. Seu olhar estaciona no meu, e ele baixa os olhos e finge que não está ali. Rio intimamente. Que bom, não sou só eu que sou tímida assim...
Filme terminado, me aconhego um pouquinho no café, e bato em retirada. Ao caminhar pelo viaduto do Chá, meu coração para de remar, abrupto. De súbito me lembra que faz pouco ele flanou ali, saltitando como um coelhinho sobre as pedrinhas cor de terra. Cenário de uma peça que poucos têm a chance de escrever ao longo da vida. Bar do Estadão e seus ossinhos de dinossauro, uma fauna exuberante. 4h da manhã, a avenida São Luiz traçada de uma margem à outra, como se fosse um rio. O fog de inverno congela, mas ali no círculo de giz é verão. Embaixo do letreiro que corre, um rodopio planta a coreografia da alegria. Um universo de estrelinhas orquestra os olhos que cavalgam querendo ir longe. Confirmam que ali se configura uma nova história, essa micro-história que compõe a história de tudo. Sinos soam dizendo que algo novo nasceu. Pode ser Paris, Londres, Rio, Madri, São Paulo: tanto faz. Ali se fez o instante-luz. Assim como você, eu sei.
Estou já no largo do Paissandu, e a decadência agora se mostra nos bares sórdidos, sujos e de frequência duvidosa (confesso que gosto deles, mas não ouso entrar desacompanhada e me sentar no balcão). Alcanço o ponto de ônibus. Vejo que diante dele há um cinepornô. Me distraio um segundo e quando percebo um homem saiu rapidamente de lá de dentro, e, não satisfeito com tudo o que assistira lá, olha direto para meu vão livre e passa a língua nos lábios. Me arrependo amargamente de estar de jeans justo. Mudo de lugar, ele desiste. Uma fauna toma conta da São João. Dá pra fazer um filme.
Pego o ônibus e em menos de 10 minutos estou na esquina de casa. Satisfeita com meu final de semana. Cuidada como uma orquídea.
Isso tudo não é história de pescador.
Eu juro.
É tudo verdade.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

John Graz e a arte de aceitar ser cuidado

Terça-feira. 6 de abril. 8h40.
Acordo com meus humores gregos fora de ordem. Não estou bem, meu Deus... Me permito então mais cinco minutos embaixo do edredom. Fecho os olhos e penso no dia que me espera lá fora. Tenho um exame de rotina pra fazer às 9h30, preciso terminar um livro ainda antes do almoço, às 13h30 tenho que almoçar com Isadora e depois correr pra agência onde estou trabalhando todos os dias à tarde. Aperto as pálpebras pensando que meu dia não será fácil. Ah! Há ainda um agravante: é dia de rodízio do carro. O aconhego morno das cobertas ainda me dá mais uns minutinhos de ternura para que eu me prepare psicologicamente.
Levanto, preguiçosa, tomo um banho rapidex, me visto, olho o relógio: vou ter que pular meu habitual café com torradas. Detesto isso. Mas fazer o quê?
Saio apressada, com meu freela embaixo do braço para fazer na sala de espera do consultório. Sei que vai demorar. Na pressa, esqueço de pegar o guarda-chuva. Saio do prédio, e é batata: começa a chover. Corro com o freela servindo de protetor para minha cabeça e meus cabelos, tentando arranjar um táxi. Instalada no possante, depois de algum tempo percebo que o motorista não sabe o caminho direito, mas também não me diz ou me pede ajuda. Ele deve ser novo de praça, e dirige mal, além de não ter destreza pra se safar no trânsito pesado de São Paulo numa manhã de muita chuva.
Vou me agoniando: estou atrasada, peço para ele manter à direita que vamos perder a entrada. Ele passa para a pista da esquerda. Eu digo, firme: Moço, é para a direita! Nós vamos perder a entrada da 9 de julho! Ele se desculpa e faz um deus nos acuda para conseguir dobrar à direita. Não quero me exasperar com o homem que deve ter minha idade. Provavelmente perdeu o emprego e está estreando na praça pra garantir o orçamento familiar, eu penso com meus botões. Alívio... mas por pouco tempo.
Logo estamos perdidos em um oceano de carros espremidos na 9 de julho, e ele se enfiando nos pontos que estão mais estrangulados. Não aguento e digo a ele: Moço, a gente não pode ir pelo corredor de ônibus? Táxi com passageiro pode, não pode? Ele me olha como se eu tivesse dito abracadabra, e tenta ir para a esquerda. Manobras difíceis para chegar lá. Enfim, estamos no corredor, andando devagar, mas ao menos andando. Me dá um frio no estômago: Meu deus, ele vai ter que parar pra eu descer na esquina da avenida Brasil, como ele conseguirá sair daqui para a direita com este mar de carros e sua falta de jeito? Agora chove canivetes. Ele vai se atrapalhando mais. Eu antecipo: Moço, eu vou descer na avenida Brasil com 9 de julho. Ele faz um rosto de não e sim, um meneio de cabeça que só vi quando visitei a Índia e o Nepal, um mexer de cabeça que não parece sim, mas algo que transmite insegurança. Ele acha que não vai conseguir, percebo...
Precavida, peço a ele que se mantenha no corredor, que eu me virarei pra descer. Bom, chegamos na malfadada esquina da Brasil. Peço que me diga quanto é. Mas ele resolve jogar o carro para a faixa da direita. Não consegue. Eu peço então: Moço, olha aqui, pode ficar com o troco. E me aventuro a fazer algo que jamais faço: algo perigoso, uma contravenção. Desço pela porta da esquerda, depois de ele olhar o retrovisor e me dizer que não vem nenhuma moto. Passo na frente de um ônibus que está parado no farol vermelho. Sinto alívio por ter me livrado do problema do táxi, porém... esqueci que não tinha guarda-chuva, e chove pesado agora. Tenho que atravessar a avenida e andar uns 200 metros embaixo do temporal. O freela vai na cabeça, apenas pra dizer que estou tentando me proteger. O tênis lindo que ganhei de aniversário já está encharcado apenas alguns passos depois.
Eis que vejo a clínica. É como se fosse um oásis... Estou toda molhada, o papel do meu freela está destroçado pela chuva, estou em cacos (e não faz nem 45 minutos que saí de casa...). O dia será longo...
Entro e me sento, pessimista, diante da recepcionista. Talvez tenha que esperar muito pra ser chamada pro exame, eu naquele estado de molhadeira. A moça da recepção está ao telefone. Já sei que vai demorar e blá-blá-blá... me sinto péssima. Afinal, meus humores gregos gritam lá dentro. O dia será longo, eu sei.
Mas para meu espanto a vida me puxou o tapete positivamente. A recepcionista rapidamente anota meus dados e me pergunta se quero um café ou capuccino. Uma estrelinha brilha dentro de mim: eu estava em jejum por não ter tido tempo para o café da manhã. Digo, felizinha, que quero capuccino porque estou sem café da manhã. Ela então liga para a copa e pede capuccino com bolachinha para dona Sandra. Me imagino numa pegadinha, aquilo tudo não pode ser verdade. Ela aproveita pra me dizer que a clínica tem um novo conceito, um atendimento especial para exames de imagem para mulheres. Já me sinto filmada e logo algum apresentador de programa dominical me dirá: olhe, você está no programa do frufru...
Fico ressabiada, o dia tinha começado mal, o certo não seria continuar mal até o fim?
Chega o capuccino com bolachinhas, e me sento num sofá acolhedor naquela que deve ter sido uma casa maravilhosa nos anos 60-70. Do sofá vejo o jardim, onde há um painel em alto-relevo (acho que é de John Graz). Belíssimo. Penso que eu gostaria de ter morado ali com minha família. A gente correndo de bicicleta, capotando sobre o painel do Graz. Minha mãe ia ficar maluca...
Acabo meu café da manhã, e a mocinha da recepção me pergunta com voz doce: dona Sandra, depois do exame a senhora vai precisar de um táxi, não é? Posso já ir providenciando porque eles costumam demorar. Eu digo não! É pegadinha. E das feias! Mas lá no íntimo vou amaciando o coração calejado com a falta de cuidado. Aceito como uma ovelha a sua oferta, e me imagino quentinha debaixo daquele monte de lã que a envolve, sussurrando béhbéhbéh...
Outra moça desce a escadaria e chama: senhora Sandra Brazil. Não acreditei que seria atendida tão rápido. Mas subo atrás da moça, com uma sensação cálida de que estão cuidando de mim. Acostumada a fazer exames em fast-foods clínicos, fico impressionada ao ser levada a um closet, receber um avental azul-marinho longo e pantufas da mesma cor para fazer o exame. Há um pufe anos 50 em frente de um espelho e me sinto uma Rita Hayworth mimada por seus fãs. Dispenso as pantufas (adoro andar descalça).
Durante o exame, a moça vai me contando que faz biomedicina à noite, que gosta de trabalhar em clínicas voltadas para a mulher, como esta em que estamos. Ela pergunta quantos anos tem meu bebê, eu digo a idade da minha filha: 22 anos. Ela diz que não pareço ter uma filha dessa idade, que imaginou que tenho filhos pequenos. Sei que ela está sendo generosa e educada; o exame é chatinho e ela está tentando me animar, é parte do seu trabalho. Mas uma graça profana já tomou conta de mim. Sou uma estrela hollywoodiana mimada. Estou adorando isso depois de tudo que passei nessa manhã.
Me troco e desço as escadas daquela casa belíssima, que deve abrigar tantas histórias. As proprietárias moraram anos ali com os pais, a médica me contou. Invejo (uma inveja do bem) esta família que acordava e tomava café da manhã mirando John Graz. No entanto, um pontinho na memória me lembra que no jardim da minha casa modesta havia um canteiro de rosas cor-de-rosa plantadas por minha mãe. Também havia uma flores chamadas de 'onze-horas'. Às vezes, ela cortava as rosas mais bonitas, embrulhava e eu levava para a professora. Saudade daqueles dias.
Chego na recepção, a moça diz que o táxi está atrasado, mas que ela pediu para a copeira chamar um táxi na avenida. Desacostumda a ser cuidada assim, eu digo: nã, não precisa, eu mesma pego. Ela me pede que aguarde um minutinho. Vai até uma gaveta e pega um pacote. Ganho um presente por ter ido àquela clínica. Bem, nessa altura já creio que meu dia 'virou' e será lindo.
A copeira chega com a notícia de que o táxi me espera lá fora. Me despeço e agradeço, muito. Saio e ainda fico um segundinho a mirar o painel colorido acima da grama. O John Graaz da minha infância eram as rosas no canto do jardim - perfumadas e delicadas como as mãos de minha mãe - e os livros que eu ganhava do meu pai no dia do pagamento, preciosos como joias.
Vou andando e pensando que cada um tem um John Graz próprio, que não deixa de ser precioso, independentemente da forma. Imagino no futuro qual será o John Graz que percorrerá as lembranças de infância da minha filha.
Entro no táxi, o motorista sorri e me diz: bom dia. Parou a chuva, a senhora tem sorte. Pra onde vamos?
Na linguagem do futebol chamaríamos isso gol de virada.
Os humores gregos se desvaneceram por completo. Um alívio absoluto toma conta de mim.
Ganhei o dia.

(Ah, em tempo: a clínica de que falo é a Clínica Sandra Senday.)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Tudo Bem

Sexta-feira Santa. Da paixão.
E falando em paixão:

"Já não tenho dedos pra contar
De quantos barrancos despenquei
E quantas pedras me atiraram
Ou quantas atirei
Tanta farpa tanta mentira
Tanta falta do que dizer
Nem sempre é "so easy" se viver

Hoje eu não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei
Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão

Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer
É encostar no seu peito
E se isso for algum defeito
Por mim tudo bem
tudo bem"

(Lulu Santos / Nelson Motta)

segunda-feira, 29 de março de 2010

Depois da chuva

25/3/2010. 14h59. Chove em São Paulo, cats and dogs, a cântaros.
A rua onde moro se torna uma torrente que desce, selvagem, do alto do bairro. Da janela vejo as sarjetas desaparecidas por baixo de um manto de água que desce, arrastando tudo. Lixo, muito lixo: copos de plástico, garrafas plásticas, papel de toda espécie, sacos de lixo, embalagens, caixas de papelão. Daqui do alto, isso tudo parece um circo macabro dos restos que descarta a população. Por que as pessoas jogam o lixo nas ruas? Não sei responder. Na minha família, desde crianças, sempre fomos ensinados a pôr o papel de bala no bolso ou na bolsa, e só descartá-lo na lixeira de casa. Faço isso até hoje, sejam balas, papéis de cartão de crédito, pequenas embalagens -- que em geral prefiro nem pegar e trazer o produto nas mãos mesmo, sem sacolinas ou sacos de papel --, ponho tudo na bolsa, me lembrando sempre que minha mãe, há 40 anos, já dizia: 'as pessoas jogam lixo nas ruas, não percebem que entopem os bueiros?' Sabedoria é bom, e eu gosto.
O trânsito começa a ficar inviável: buzinaços de vários lados chegam a meus ouvidos, os semáforos estão desligados, um caos se instala nos cruzamentos. Alguns carros sofrem pane por conta do excesso de água e simplesmente param atravessados no meio da rua, tornando ainda pior o que já não está nada bom.
Um rapaz tenta atravessar a rua (provavelmente está atrasado pra algum compromisso que não pode adiar: uma consulta médica, uma entrevista de emprego, um encontro marcado há dias), mas a água da sarjeta desce veloz, molhando seu jeans até a altura da canela. Ele corre, determinado, e se refugia embaixo do toldo da padaria. Agoniado, olha o relógio diversas vezes, mas está impossibilitado de seguir em frente: a chuva o mantém refém por algum tempo.
Eu interrompo meu trabalho num livro que estou copidescando para fazer um recorte no tempo, nesse tempo urbano que gira veloz e atroz, e me dou a oportunidade de perceber a chuva, os estragos, os fatos, as pessoas e seus pequenos dramas lá embaixo.
Enquanto vou de uma janela a outra da casa, observando e fotografando tudo mentalmente, vários pensamentos me chegam: existe um rapaz refém da chuva, em agonia para cumprir seu compromisso. Mas nada ele pode fazer. À minha direita na cidade, direção norte, o casal Nardoni presta seu depoimento ao júri, tentando provar inocência. A mãe da pequena Isabela segue 'confinada' no fórum, incomunicável. Uma angústia me toma ao pensar que, além da dor da sua perda, ela agora se vê refém de quatro paredes, provavelmente sem janelas, apenas a luz artificial, o barulho de uma torneira que goteja, devagar e lentamente, a sensação de sufocamento e de alienação imposta. Leio na UOL o texto do jornalista Rogerio Pagan, testemunha do caso, sobre as condições do confinamento. Eu, que sou claustrofóbica, me agonio...
Helicópteros começam a cruzar mais intensamente o céu, aqui perto. Será apenas a chuva?
À minha esquerda, penso na minha filha que está na faculdade neste momento. Apavorada com raios e trovões, imagino que ela esteja em maus lençóis. Nesses momentos de chuva, minha avó falava em voz alta: "Santa Bárbara!" Quando ela não queria que chovesse, colocava um ovo no quintal pra Santa Clara e, segundo ela, a chuva não vinha...
No final do dilúvio, há estragos na cidade toda: ruas alagadas, carros arrastados, queda de árvores, caos no trânsito, pessoas molhadas da cabeça aos pés, gente que não conseguiu chegar onde queria, gente que levará horas para chegar em casa.
Tenho terapia nesse dia. No final da tarde, saio apressada da garagem. Paro na locadora para entregar um filme, molho meus sapatos nas poças da calçada. Sigo adiante em meu caminho em direção ao dia da semana que me salva, me conforta, que me recompõe depois de tudo.
Depois da chuva, me sento e olho nos olhos do alívio para minhas dores. Me sinto acolhida como nunca, ganho confiança, deixo lá fora a casca dura da proteção que me salva do que é difícil. Ali, estou nua, apenas as minhas ideias e sentimentos a girar. Enfim posso ser Sandra Brazil, carne e nervos expostos. A chuva passou completamente. Parece que um deus sereno se instala dentro de mim. Ali, me deito, e posso então chorar.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Autorretrato

Autorretrato

É preciso lucidez
para se enxergar assim
(tão nitidamente)
dentro da dor.
E arte
-- para não se deixar contaminar por ela.
(Maria Lúcia Dal Farra. Livro dos possuídos. Iluminuras, 2002)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Sob o domínio de Sade

Sob o domínio de Sade

(...) A sepultura e a alcova, em blasfêmias fecundas,
Nos dão de quando em vez, como boas irmãs,
Os prazeres do horror e as carícias malsãs.(...)
Charles Baudelaire, "As duas boas irmãs"


Há urgência neste apelo.
Uma dor ecoa nesse chamado.
Uma ordem requere sua chegada.
Hermes, apresse sua porção alada.
Preparo-me, impaciente, diante de um toucador imaginário.
Nove minutos e noventa passos distanciam-nos da consumação.
Determino data, hora, local para que se realize o meu capricho. Minha ânsia atroz.
Descomponho o outro, atiço-lhe o orgulho como se remexe uma fogueira. Quero que lhe doam essas ínfimas brasas. A pele marcada por pequenos sinais, souvenirs do sinistro prazer.
Ordeno que venha rápido. O sofrimento e as agruras da minha pressa e determinação.
Demarco todos os meus desejos e caprichos na ponta de um salto agudo imaginário, que perfura dolorosamente o seu receio, a fazer da fera bicho manso e dócil. Medo de cometer um erro sequer e perder-se na minha lâmina pensante. Impossível atravessar o roteiro traçado de viés. A mera miragem de perder a presa no momento de fúria faz da sua vontade músculos e movimento a reagir.
Imprimo-lhe a dor urgente do meu estímulo, a requerer, iminente, que algo atravesse meus sentidos, contundente, preciso, doloroso, brevíssimo. Perfurar, pungir, mortificar até que eu desfaleça. O prazer inoculado nessa transgressão.
O outro a exalar um medo animal, corre, selvagem. O odor alquímico a lhe atrair a esse domínio feminino. Na desabalada, o reflexo ardente de um cristal atinge-lhe em cheio o olhar, lembrando a ampulheta no aparador a escoar seus últimos grãos de areia. Mais um minuto apenas. O desespero impinge ao corpo, então, as torturas mais cruéis: atravessa espaços sinistros e inóspitos, farpas perfuram-lhe o corpo. A gravidade, dolorosa, a sugar-lhe um rio vermelho. Consigo carrega nada além do poder que, ao fim, nos libertará.
Pressinto sua chegada. O calor que sobe em vapores etílicos entorpece a determinação de lhe negar três vezes.
Uma voz poderosa brada que se abram as portas deste reino. A ponte levadiça desiste de oferecer resistência. Cavalariços abrem caminho a ele que chega. Cavalos, indomáveis, exalam algo indizível. As mulheres calam-se à sua passagem.
Inserido na extremidade do destino. Aplico um punhal fino na sua vontade, retalho as pretensões de seu orgulho masculino, rasgo-lhe os códigos preestabelecidos. Em gotas ferventes um unguento poderoso a arrancar-lhe a pele. Enceno um escárnio de sua indefesa condição. Deusa absoluta desse capítulo da história humana.
Premeditada, descarno por um instante a vendeta feminina. E, paradoxo, entrego-me aos braços ferozes e tirânicos. Esfolada viva, permito que lâminas finíssimas escalpem e dilacerem o que há em mim. Um prazer sórdido apodera-se de meus nervos expostos. E, do alto do meu orgulho, profetizo um mundo maldito e cruel.
E no ápice dessa tortura, algo abocanha o núcleo do amor. O poder do elixir que perpetua a espécie expande-se num silêncio bruto.
Algo congela-se num tempo histórico.
Um mundo inteiro interrompe seu curso.
Em repouso absoluto, corpos recuperam essências.
Hermes, enfim, cumpriu o prometido.

Poesia

Acordo com um e-mail do Xiqueto: "seu poema está no destaque da página principal do Verso e Prosa"...
Fui lá e conferi.
Quem gostar de poesia e quiser conhecer o Verso e Prosa, aí vai o link:

http://versoeprosa.ning.com/

domingo, 21 de março de 2010

Outono

Outono dentro da história.
Agora, só quero descansar nos meus sentimentos.
Cinema em dia, amigos em dia, mojitos e vinho em dia, volto a ser a mesma de sempre, essa mulher que quer ganhar o mundo.


"O desejo
é a mais cruel
das estações."
(Maria Rita Kehl. In Processos Primários)

quinta-feira, 18 de março de 2010

Aprecie com moderação

http://versoeprosa.ning.com/profiles/blogs/aprecie-com-moderacao

Além deste blogue, agora tenho uma página lá no Verso e Prosa (link acima). Lá pretendo "derramar todas as palavras", como diria Ana Cristina Cesar.

"(...) Palavras pra esquecer / Versos que repito / Palavras pra dizer / De novo o que foi dito / Todas as folhas em branco / Todos os livros fechados / Tudo com todas as letras / Nada de novo debaixo do sol."
(Palavras. Titãs)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Outra estação

Daqui a alguns dias será outono... Nem acredito como 2010 está passando tão rápido diante de mim. Pisco os olhos preguiçosos: era reveillon, foi carnaval, e lá se foram algumas semanas. Já completei n trabalhos, e já tenho outros tantos aqui diante de mim para terminar.
A velha pergunta: por que corremos tanto? Para quê? Para onde? Será que precisamos acelerar assim? Se fôssemos mais devagar não chegaríamos no mesmo lugar? O que perdemos ao longo do caminho nessa velocidade cibernética? O que ganhamos? Jamais paro pra pensar nisso. Não tenho tempo. Aliás, não me dão tempo.
Mal me entregam um trabalho, e alguém já me liga e pergunta se conseguirei entregar no prazo, pois já está atrasado, e é preciso fechar o arquivo para impressão, e o livro tem de ficar pronto para o lançamento, que já está anunciado na mídia, e não há como esticar o prazo, e... e... Fico ouvindo em silêncio, pensando por que um livro não pode ser feito no seu tempo, no seu tempo de livro -- não de produtos fabricados em série --, não pular etapas, não pressionar os colaboradores, fazê-lo com calma, imprimi-lo sem matar do coração o técnico da gráfica com tantos telefonemas pressionando para que dê "nó em pingo d'água". Eu mesma já sofri desse mal: com a sorte de que ninguém morreu do coração por conta dos meus apelos, e que um dia desci desse bonde amalucado tendo noção de que não queria mais viver assim.
É difícil responder a certas perguntas, e eu não entendo por que corro tanto, deixo pequenas coisas prazerosas de lado para dar conta do trabalho, pulo um cinema aqui e ali para finalizar um projeto, deixo de jantar com minha filha, ou amigos, ou família, namorado, porque estou sempre com a sensação de estar atrasada. Mas não interrompo o processo para entender: estou atrasada mesmo? Ou alguém deu um start e eu comecei a correr sem me dar conta?
Bem, é outono quase, a deliciosa estação. E falando de tempo, tenho pensado em aproveitar mais a luz dourada que o sol trará nos próximos dias, andarei mais pelo parque, irei mais à Pinacoteca, serei mais vezes espectadora do pôr do sol, verei as ruas de Perdizes com mais poesia e encanto, caminharei pela Paulista com olhos de quem quer ver o que há de melhor. Isso é um comprometimento que tenta responder àquelas perguntas e mudar o curso dessa história, ao menos, da minha história e daqueles que estão ao meu redor.
Aqui da minha janela de trabalho, posso ver o verde, coberto de azul, e edifícios que são meu skyline paulistano, tudo amarelando no final de tarde. Uma onda de sentimento invade, inexplicável, uma ternura em relação ao tempo, ao conforto e aconhego que esse dourado traz consigo. Sorte, muita sorte a minha trabalhar neste lugar e ter esse cenário tingido pelo outono que está chegando. Estarei pronta quando ele vier e direi as palavras mágicas: "pode entrar". Na minha casa e no meu coração.

"Os mensageiros

Palavra de lesma numa lâmina de grama?
Não é minha. Não aceite.

Ácido acético numa lata selada?
Não aceite. Não é genuíno.

Anel de ouro com reflexo de sol?
Loas. Loas e mágoa.

Geada na folha, o caldeirão
Imaculado, estalando e falando

Sozinho no alto de cada um
Dos nove Alpes negros.

Distúrbio nos espelhos,
O mar estilhaçando seu cinza --

Amor, amor, minha estação."

(Sylvia Plath. Poemas. Trad. Rodrigo Lopes e Maurício Mendonça. Iluminuras, 1994)

terça-feira, 16 de março de 2010

Retrô

Ontem tive uma experiência muito além do meu cotidiano. Eu, que queria surpresas, me vi surpreendida pelo que há de melhor em mim. Algo aqueceu uma brasa adormecida, calada e resignada. Nada como uma centelha tomando formas de labaredas, ganhando espaço e descortinando nossa rotina.
Eu que não esperava nada de novo no front, agora piso o chão com pensamentos leves, uma vontade de celebração, de amor humano, esse amor por tudo e por todos que se perdeu em algum lugar do caminho.
Num transe imperceptível, fui ao encontro de uma menina que estava sobre uma duna dourada pelo sol. O abraço infinito e carregado de um tempo que não se conta me levou ao princípio de tudo. Nesta imagem, eu tinha 18 anos, e um mundo pela frente, uma vida para sonhar. A leveza foi tomando conta de mim, de meus pensamentos.
Como num filme, esse meu transe me levou a outro cenário. Um sítio, um caminho entre árvores, chão batido de terra, um portão verde. Um homem me olhou com aqueles olhos que só eu sei. Eu disse 'sim, você está em mim'. E eu estava lá, de pé, 18 anos e toda pureza e inocência do mundo, toda tolerância e paciência. Minha alma de 47 pôde tocar a leveza da juventude. 
Ali naquele portão eu recebi meus pais, sorrindo. Meus irmãos, abraçando-os com a ternura dos meus sentimentos. Então chegaram meus amigos de todos os tempos. Recebi-os um a um. Uma alegria de passado, presente e futuro dourava esse cenário, que era de confraternidade. Eles foram entrando de novo em minha vida -- os que ainda estão comigo, os que já se foram, aqueles que um dia magoei, aqueles que um dia me magoaram. Estavam todos ali, sorrindo e celebrando.
Havia alguém onipresente nisso tudo: minha filha. Sempre. Tudo. Todas as palavras que abarquem o sentimento mais profundo e delicado. Ela está sempre comigo, onde eu for e estiver.
Depois de todos terem entrado, eu fechei aquele portão verde-esmeralda. Como se ali fosse o Taj Mahal, e ele, uma pedra preciosa a se incrustar naquela locação. Embelezando-a, ornando-a, brilhando para tornar ainda mais precioso aquele momento.
Encerrada nesse átimo no tempo, pude ser feliz por alguns minutos, uma felicidade absoluta e verdadeira, todo um mundo de verdades e alegrias. Encerrada nesse lugar confortável pude revelar o que há de bom em mim.

***

Hoje acordei retrô, ainda pulverizada por esse encantamento. A epifania do que aconteceu me leva a repensar situações e a própria vida. Acordei pensando no passado, os meus 18 anos, aquela força de quem espera sorver tudo, todos. O sonho de uma geração. 
Enquanto escrevo este texto, sincronicamente rola uma Elis de "Casa no campo". Não pude deixar de pensar como esta canção fez parte de minha adolescência.
Eu dedico este texto a minha filha, a meus pais, irmãos, cunhados, sobrinha, amores e ex-amores, amigos, amigas, e a todas as pessoas que deixaram e que ainda deixam uma marca indelével no meu caminho.

Casa no campo
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais.

(Zé Rodrix e Tavito)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Hoje é 15 de março, dia de homenagear amigos. Eu instituí que alguns dias do ano são para cantar nossos amigos. Hoje é dia de festa no Oriente. Hoje é dia de Xico Santos.


Impreterivelmente às quartas

Sempre e somente às quartas, ele espera, tenso, cativo e resignado, otimista e ansioso, um sinal, um ponto no céu, um soar de tambor, um signo em fumaça a escalar uma nuvem, um telefone vermelho a anunciar, algo, qualquer código que antecipe a chegada do prazer.
Não saber da sua vinda torna a sorte um lance ansioso de dados. Saber da proximidade de sua chegada acelera mucos e mucosas.
Tomado pelo transe da espera, abre as folhas da janela e espera. Vê, sem entender, marajás feudais e seus haréns que desfilam sobre manadas de elefantes ornamentados com desenhos hindus. Esses príncipes em vestes incrustadas de diamantes e pedras e bordadas a ouro por suas escravas trazem atrás de si gigantescos jarros de prata com toneladas das águas do Ganges. Dezenas de homens-escravos carregam esse capricho palaciano. Mulheres em sáris atiçam-lhe os sentidos, longos e suaves tecidos a recobrir sem esconder, a velar revelando as vontades veludíneas. A cobrir cabelos negros e lisos e longos, deixando apenas as pupilas negras, escuras e penetrantes a menear um sim que é um não, por vezes um não implorando definitivamente um sim.
A cada passo desse cortejo, peças metálicas tilintam e tilintam nas patas elefantídeas, como a provocar um transe, advertindo uma espécie de chegada imponente e suntuosa. Esse cenário encantado torna sua espera suculenta, sua vontade, estimulada, a mera sensação de um toque nesses tecidos carnais eleva pontes.
Hipnotizado por essa visão, tomado por um prazer lisérgico, salta a janela em suas roupas brancas. Tenta compreender... Transita por essa massa colorida que recende a curry e seda. O ruído metálico cada vez mais próximo das patas gigantes faz entorpecer. Os haréns finamente adornados e defendidos, ele tenta tocar, mas lhe escapam. Esbarra em homens vestidos ricamente que marcham no meio da multidão e tocam uma espécie de flauta. Cada um deles traz rodeada no torso uma serpente. Peçonhenta, a naja sobe e sobe dançando encantada sob a música sinuosa que a Índia oferece. Indefesa, ela permanecerá enrodilhada naquele corpo, como a buscar proteção fora de seu hábitat.
Passam camelos. Homens vão sentados, rodeados por enfeites e presentes. A música sedutora do Oriente faz os desejos aquilatarem. Nesse momento, serviçais retiram de jarros o líquido perfumado que atirarão ao chão, para logo em seguida outros forrarem o caminho com milhares de pétalas de flores multicoloridas.
Um rumor toma conta das palavras. Ele não entende os sinais dessa civilização. Códigos interrompidos corrompem a comunicação. Algo acontecerá. Todos sabem, exceto ele.
A massa então abre caminho, a música interrompe-se, as najas acalmam-se sobre seus hospedeiros. Uma aclamação saúda um noivo, uma noiva. O casamento indiano.

Subitamente, ele decodifica todos os signos, e compreende que o transe acabará em segundos. Corre sobre as pétalas perfumadas, derrubando jarros. Um sentimento positivo toma conta dos movimentos e a resignação torna-se peça do passado. Uma transformação toma conta do corpo, e eleva este homem ao status de herói desse nicho feudal. E ele ganha forças indestrutíveis e adagas que abrem duas lâminas no corpo do inimigo. Em segundos esse cortejo exótico e estimulante desencantará. Um som paralelo a este mundo de sonho chega a seus ouvidos.

Alcança enfim a janela e os marajás e haréns vão se diluindo devagar, najas desenrolam-se e escorregam, flores murcham num átimo de tempo. A música vai soando longe. Os perfumes chegam mais brandos aos seus sentidos...
E eis que, ao pular novamente a janela, a realidade retorna instantaneamente, e o som torna-se mais intenso.

Vira-se em direção à porta. Fecha os olhos e ouve um tilintar leve a marcar, numa tornozeleira, os passos dela. Os passos dela. Ele conta milímetros do caminho, da calçada até o portão, depois, do portão até a porta principal... depois... Sente todas as cavidades e os fluxos no coração; músculo, artérias e veias a acelerar. Tamanha é essa presença.

Olhos fechados, e sândalo atinge em cheio um de seus sentidos. As vontades de uma adaga repartem sua lâmina em duas antes mesmo de atingir o alvo.

Uma imagem diáfana surge envolta nos tecidos mais finos, bordados com pedrarias trazidas do Oriente, adornado com as joias mais raras e delicadas que usou Taj Mahal, Ornamento do Palácio. Um diamante raríssimo crava-se na narina direita, a brilhar e iluminar o conhecido. O som interrompido da tornozeleira sinaliza que o prazer está ali. O farfalhar da seda com suas pedrarias revela instintos de um kamasutra longínquo.

Olhos heroicos permanecerão fechados. Tocando o infinito.





segunda-feira, 8 de março de 2010

Anexo

É 8 de março, postei sobre o feminino, mas me esqueci que sempre gosto de deixar um trecho literário, um poema...
Lá vai:

"Elogio da memória

O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem."

(José Paulo Paes. Socráticas. Companhia da Letras, 2001.)

Esse encontro feminino

Em meio ao caos, projeta-se um esconderijo onde o bom e o belo instalam-se à beira de pequenos prazeres urbanos. Templo dedicado à desconstrução de mitos midiáticos. O humor a chamuscar ineptos andantes e manobras políticas em marcha à ré.
Numa espécie de transe, trocas dos tempos do descobrimento driblam toda desilusão – espelhos por penas, pentes por dentes de fera, urucum e um pajé pós-modernos na bolsinha furta-cor.
A arte e o humor são sempre a melhor forma de fuga.
Nesse bunker emocional, surge, sorrateiro, um ménage à la mode, em que o terceiro apenas acentua o culto que nos dedicamos, semanal e religiosamente. Esse prazer, disso não há dúvida, de se projetar no outro feminino e ver-se refletida inteira, como num espelho bisotê. Alegria única neste tempo de estranhas Cruzadas. Um novo conceito de felicidade a relativizar a dor que é viver num tempo a se contar.
Pela força do hábito, deslizamos pelos meandros de que se forma a alma feminina. Descendo, descendo, interrompendo e retomando, para então subir, subir, rápida e freneticamente, surpreendendo, chocando – manobras típicas desse ser que dá à luz ideias e homens, esperanças e sonhos.
Entidades ambíguas esculpidas no ser-fazer, onipresentes e sarcásticas, dominadoras e decididas, frágeis e delicadas como frutas a implorar que ósculos suaves a despedacem. A enfrentar seus inimigos sem armas, apenas as palavras a picotar as estocadas daqueles que corrompem a lei da evolução da espécie.
Apesar de toda desilusão, uma súplica. Sumária, ecoa, escoa e penetra ouvidos. O desejo, eterno e lúbrico, pela saliência pontiaguda, primitiva e prazerosa, desse nosso inimigo antidarwiniano.

Sandra Brazil

sábado, 6 de março de 2010

Educação

Ontem foi TGF (Thanks God it's Friday!). Apesar da oportunidade da SP Restaurant Week, em que se pode conhecer restaurantes fora do alcance do nosso orçamento em dias normais, achei melhor não arriscar. Explico.
Fomos eu e Isadora ao L'Amitié no meio da semana, animadas com a possiblidade de conhecer algo novo, fora do nosso circuito. O lugar é ótimo, bom recanto para casais românticos à francesa e mesmo para amigos discretos. No entanto, na terça-feira, apesar do bom vinho que o garçon me indicou, não pude deixar de notar que o restaurante parecia lotado além da capacidade, os habitués estavam incomodados pela invasão dos turistas atraídos pelo cardápio de R$ 39,00. Numa mesa próxima da nossa, sentou-se um casal claramente habituado a ir ali. Mas estavam incomodados. Observei o que poderia ser. E o que viria a seguir me esclareceria. O garçon que nos atendeu era extremamente educado, antigo da casa pelo que percebi. Conhecia os clientes pelo nome e sem perguntar já trazia a sua bebida. Para nós, que escolhemos o menu de R$ 39,00 da Semana, percebi que fomos impelidas a deixar a mesa antes do tempo habitual. O pratinho da entrada foi retirado enquanto eu ainda comia. Minha filha fez aquele olhar que me dirige sempre que não gosta de alguma coisa. Não liguei, continuei mastigando minha iguaria sem o prato abaixo de minha boca mesmo... Escolhemos o principal, e ele veio logo. Mal tínhamos terminado e os pratos foram retirados rapidamente, para na sequência sermos perguntadas pela sobremesa. Eu ainda saboreava o vinho, mas tive que interromper e dizer o que queria. Ela veio a jato, assim como a pergunta sobre o café. Isadora, que tem mais personalidade que eu, ficou incomodada apesar da sua juventude. Em meio a tudo isso, quatro mesas à nossa esquerda, um grupo de jovens gritava (sim, gritava) coisas desconexas em meio à refeição. Fiquei chocada quando disseram em voz alta, bem alta, duas vezes a palavra "tripa". Como o restaurante estava menos lotado nesse momento, houve um silêncio constrangedor nas mesas ao redor. Um casal frequentador da casa acabou o jantar e não pediu sobremesa. Saíram para voltar somente depois da SP Rest Week, imagino... Eu que detesto esse tipo de comportamento fiquei ali pensando na sorte que tenho, de ter criado uma pessoa melhor pro mundo: minha Isadora. Ali, à minha frente, ela saboreava seu prato tranquila, falando de cinema, das suas aulas de esquizoanálise, de família e de amenidades.
Portanto, ontem, decidi que vou esperar para conhecer outros restaurantes, nem que tenha que pagar caro mesmo. Não gostei da sensação de me sentir numa linha de montagem. Claro que não estou criticando o L'Amitié. Preciso conhecê-lo no seu habitat natural, sem a sensação de que sou uma turista mal avisada.
Então, ontem, para substituir o programa, decidi ir ao cinema. Não conhecia o Espaço Unibanco do Bourbon, perto de minha casa; aliás, tenho preconceito de cinema de shopping. Mas na falta do carro, peguei um ônibus e em menos de cinco minutos estava atravessando a rua para entrar no Bourbon. Fui ver "Educação". E a sensação de estar ali naquela sala escura de cinema me trouxe paz de espírito, uma vontade de voltar à Inglaterra, de fazer um curso, de viajar de novo.
Hoje é sábado, dia de encontrar os amigos. O bar Balcão me espera e sem dúvida poderei saborear uma taça de vinho sem a pressa de terça-feira última. Jogarei conversa fora e depois de algumas horas, satisfeitos e a conversa em dia, pediremos a conta. Nada como estar em casa.

"É sempre mais difícil
ancorar um navio no espaço."
(Ana Cristina cesar. A teus pés. Ática, 1998)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Felicidade clandestina

Daqui do 15o andar, desta janela-tela de cinema que é a moça do tempo dos meus dias, sinto o calor que vai voltando devagar, tomando conta, trazendo mais gente pras ruas, mais ruídos, mais imagens. Os dias ingleses vão sendo deixados pra trás. Os braços nus desfilam nas calçadas e os olhos esperam algo que não se sabe, mas pode acontecer. Uma surpresa, uma carta, um e-mail, um sms, uma msg por msn, comunicação por tambores, sinais de fumaça, flores? Todos ficam alerta. Tudo pode acontecer. Pergunto a alguém se gosta de jazz, a resposta é sim. Vou ouvindo StanGetz&João Gilberto, anos 1960. O mundo me parece tão encantado nessa época: Copacabana, bossa-nova, os calçadões da praia. Um dezembro-anos-dourados volta na minha memória -- um ponto de felicidade no universo, uma felicidade clandestina.
Trabalho como Penélope: teço e desfio, teço e desfio. Aguardo um Ulisses desenhado ao longo da vida, mas neste mundo moderno, onde estarão os Ulisses? Ulisses estará ainda tomado pelo canto da sereia? Ou parte veloz ao meu encontro? Tecerei até o fim, sagitarianamente obstinada.
Uma discreta tranquilidade vai tomando conta, dia a dia. O céu por testemunha, e esta janela também. Todos os objetos deste cômodo têm gravado em si os meus apelos e minhas alegrias. E as flores do aparador também. Uma taça, uma luva, um livro, um disco, um ingresso, uma possibilidade é uma gota plena de esperança.

"Nada, esta espuma

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia."

(Ana Cristina Cesar. A teus pés. Ática, 1998)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Emily Dickinson

Mais quente que ontem. E as promessas ressurgem. Ontem abri o blogue com Safo de Lesbos, a grega. Hoje, desci da estante o que na verdade deve ser de cabeceira: a norte-americana Emily Dickinson. Emily chegou a mim por meio de uma tradução de Haroldo de Campos, há muito tempo. Fui garimpando outras traduções e edições bilíngues para poder conhecê-la melhor (realmente sou contra a queda do trema na nova norma ortográfica! Bilíngües para marcar a pronúncia.). Estamos no meio da semana, já revi alguns amigos que há tempo não via, tracei dois cinemas, duas sessões de dvd, dois restaurantes novos para aproveitar a SP Restaurant Week. Pergunto ao Chiqueto se ele quer ir comigo à SP Restaurant Week. Distraído, ele me pergunta: pra ver o quê? E eu respondo: não é pra ver, é pra comer!... Fashion Week, Restaurant Week, THe Week, é muita Week para o léxico interno. Estamos em março, o verão vai se acabando e logo chega a bela estação: o outono. A luz vai ficar mais dourada, as coisas terão um aspecto amarelado, sépia até. O sépia que tinge a saudade e as antigas fotos de família.

"A Distância não fica
onde a raposa mora
nem a voo de pássaro
se calcula

A Distância é
de mim até você
Meu Bem"

(Alguns poemas - Emily Dickinson. Trad. José Lira. Iluminuras, 2006)

terça-feira, 2 de março de 2010

Dia de chuva. Dia inglês. Dia vestido de cinza. Em dias assim, morre um pouco daquela alegria solar do verão, alegria que faz parecer tudo possível, tudo mais próximo e ao alcance, quando os sonhos são vividos nas areias quentes das praias.
Mas em dias ingleses nasce outro tipo de sentimento: não sei explicar. Algo morno aloja lá dentro, faz rever coisas passadas, envolve nossos pensamentos como se fosse buclê. Somos tomados por uma vontade de estar dentro, mas os olhos vão longe longe nesse horizonte cor de chumbo.
Eu sempre gostei de dias ingleses. Parece que acalmam meu coração e esse tigre interno que vive rondando, agoniado. Quando pequena, os dias assim eram vencidos com pipoca e chá à tarde, ou bolo de fubá quentinho. Agora nessa vida madura, apenas contemplo o bem-estar que me traz esse friozinho e esse céu londrino e essa rua que vejo daqui do alto, pontilhada de sombrinhas coloridas. O café quente me espera sorrindo sobre a mesa de jantar. A cafeteira italiana escorre a gota que se perdeu. A xícara está a um passo de tornar-se útil novamente. E as porcelanas a me espreitar lá da cristaleira.
Dias assim fazem nascer outro tipo de vida: menos praieira, menos chopp, menos cerveja, menos corpo a se mostrar. Mas o que substitui isso tudo é o vinho, o recolhimento e uma espécie de oração silenciosa, que me faz lembrar que estou viva.