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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Filosofia de botequim

Numa mesa de bar, duas taças e meia de vinho, já ensaio uma espécie de filosofia. Barata... desfalcada... mas abusada devido ao estímulo etílico.
Tudo ao redor fica mais bonito. No afã de uma inteligência futebolística recém-adquirida, depois de anos, juro: até entendo o que é o incompreensível 'impedimento'...
Eu não sou de beber, mas, quando bebo, é como se eu estivesse apenas coberta pelo cetim mais leve, e, ao mínimo movimento, ele escorregasse do meu corpo, me expondo da forma mais absoluta.
Revisito alguns sítios do passado, embalada pelo álcool. Ouço "Summer time" numa voz negra que me lembrou Etta James, e uma onda de sexo, umidade e atordoamento toma conta de tudo. A moça de olhos grandes e swing dos ótimos canta, como se fosse dona daquele instante. E é. Me sinto em Nova Orleans, um bonde chamado desejo. Embarco. A voz arrasta tudo ao redor, como Katrina. Burning down the house.
Dou voltas para não dar de frente com uma Sandra que está adormecida, parece séculos. Tenho medo de despertá-la. O blues que rola deu uma aquecida na minha geladeira, e uma febre cigana quer subir por meus azulejos de vidro.
Um boteco sórdido é a próxima parada. Um rapaz de camiseta de time de futebol segura um copo de cerveja e assiste com seus óculos a partida. Ele não resiste a minha acompanhante, ela dá trela, e eles entram em campo. Ele vai pra cima dela, como o atacante vai em busca do gol. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLL!
Mas ela se atrapalha com uma conversa sobre troco, e ele desiste. Eu busco folhinhas de boldo do chile, acreditem, que está plantado em plena rua dos Pinheiros. Me arrependo de tê-la deixado sozinha naquele lugar sórdido, e eu ali contando estrelinhas.
Rapidamente, retomo meu posto de guardiã das coisas mais belas do mundo, e, em um segundo, ela volta a ser meu guia.
Risos e o passado vão tecendo a noite, são fotos de uma galeria íntima. Elocubramos uma filosofia barata, de botequim, que devido ao álcool não consigo me lembrar agora. Mas era muito boa, saibam.
O tigre interior está intrépido, subindo pelas paredes de vidro. Imagem mais bela não há, tanta vontade e determinação. Prometo mil coisas ao meu reino: quero ser mais feliz, quero encontrar mais vezes minha velha e boa alegria.
Um admirável passado relincha e galopa na minha frente. Quer se libertar, selvagem. Eu vou soltando a corda. Ele vai me arrastando pelo caminho.
Bom, o vinho vai volatizando, é hora de despertar. Acordo. Lembro que preciso pegar um táxi. "Com dignidade" -- transcrevo a frase-máxima da noite, dita por um miau numa calçada, alguns ml de cerveja umedecendo seu significado. Ao ser dita, consulto meu relógio interno, um sonrisal enorme cai dentro de mim: preciso partir.
O tigre escorrega então suas garras, descendo de volta pelas paredes. O corcel dá marcha à ré e volta ao seu cercado. Ainda não foi desta vez. Não, ainda não foi.
E lá vou eu de novo.
Mas tenho fé: virá a próxima parada, Estação: Felicidade.

3 comentários:

  1. você foi incrível!!!!que prazer eu senti em ser mulher!!!!

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  2. Marcia Chiochetti7 de maio de 2010 04:10

    Tuntun, pra dizer a verdade to aqui ensaiando a meia hora o que escrever...não sei fazer poesia nem escrever com desenvoltura, fico meia inibida, recuo mas tomo folego de novo. Não posso deixar de te dizer que li e fiquei feliz, e vaidosa e grata por nossos caminhos terem se cruzado novamente. Ah, e uma coisa é certa: precisamos beber mais vinho novamente!!

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