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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

O primeiro dia

A vida dá voltas sensatas ao redor do parafuso.
Era o primeiro dia, tudo pulsava num crescendo imaginário, e havia uma esperança no futuro, ponderada, real. Trazia vontade, uma confiança renovada. Pegar carona nessa morna felicidade, e ganhar o mundo, abocanhar a cota de alegria.
O desenho foi se traçando sem que eu percebesse, desde o dia anterior, o último dia do ano. Apenas algumas gotas, dose providencial para alçar o mundo, ganhar espaço, sentir certezas. Deitei-as garganta abaixo, como se ingere a última molécula de água num deserto, como se bebe um vinho sagrado. Eu desejava algo, sem saber o que, mas queria, e faria qualquer coisa para obter.
Acordei preguiçosa, lânguida, intuitiva, mas o desejo pronto e atiçado de ser uma fogueira neste mundo.
Indicados os sinais, esperei com calma, sem pressa. O cosmo providenciaria sua resposta. As gotas faziam seus túneis por dentro, e escavavam o melhor em mim. Leve, muito leve, fui sentindo o líquido dourado tomando conta e acendendo minhas dúvidas, esclarecendo minhas paixões, pontuando minha intenção. Guiada por essa sábia alquimia, me permiti.
A tarde foi ascendendo, criando vida, oportunidades, expondo uma caixa de pandora ao avesso. Declinando do que não queria, à francesa do que não me interessava, esperei, como Penélope. Algo que trouxesse fúria, carne-viva, um duelo em que eu pudesse ser um dos titãs. Sem subserviência, esperei, como se aguarda o inesperado.
A tarde foi latejando, quente e pesada, brincando com sua astúcia de enganar. A paciência de quem trama durante o dia para desfazer à noite. Fui tecendo, e uma certeza absoluta cerrou meus portões, e pude estar quieta, a esperar e esperar. Como numa promessa, atrevi-me na trama bem feita de pontos imaginários. Numa vertente feminina, escarneci o que me pretendia, e me mantive intacta para essa vinda. Usando os fios de lã mais coloridos e deliciosos ao tato enfrentei, determinada, vontades e fraquezas; fui inserindo ponto por ponto todo o meu desejo de mulher. Esperar, sim.
O relógio foi rodopiando as horas desse primeiro dia, e a cada minuto me senti mais dona do que aconteceria. Desde cedo, eu sabia.
Eram 3 horas da tarde quando um vento leve anunciou sua chegada. À distância enviou mensagens delicadas e líricas, encharcadas de testosterona. Prometeu considerar estrelas, e se necessário, fazer chuva. O mundo feminino em dúvida e medo, mas atento a cada sentido. Uma confiança ganha à custa de suor, mormaço, umidade e oferendas literárias, cinematográficas. Com esforço e tato, conquistou o tempo e a história, essa história miúda, que é a de todos nós.
Demarcou seu lugar na geografia de estrelas, superfícies brancas, reentrâncias, saliências, um jogo de revelar e esconder. A certeza ereta, a colcha foi deixada de lado. Me coloquei à janela, sorvendo cada mínimo avanço dessa nau.
As palavras eram o melhor em suas manobras de navegante. Pontuava de forma lúdica ao que viria, muito claras as intenções. Narrou tímido suas façanhas. Mostrou-se e desnudou-se − ainda assim, reservado, a parte mais encantadora de tudo. Em vez de recebê-lo em minha morada, adentrei a sua. Uma nau cravejada de um aroma delicioso, um perfume delicado, inigualável. Pisei leve e à vontade aquele chão ancorado no espaço, claro e limpo, povoado das coisas de que mais gosto neste mundo − objetos de desejo. Uma dança de sedução mútua, tímida e discreta teve lugar ali − e confesso que aí residia grande parte da beleza. Para desfecho, uma isca seria lançada e marcaria meus olhos para sempre: o poeta pisando trôpego o beco e suas garrafas, letras sobre papel esvoaçavam arrastando a poesia cotidiana, morta no corpo, viva no pensamento. Repeat, repeat, repeat...
Ainda com os olhos banhados nessa imagem, fui tocada por dedos delicados, que me chamavam para aquilo que mais queríamos, desde o começo. Mas numa metamorfose transformou-se em fúria, descarnou um beijo wildiano, e então sucumbi como tomba uma árvore à mercê do lenhador. A cumplicidade e o grito da vontade, veladas até então, restaram ali, quietos agora, apenas expectadores, pois a carne sangrava ao ser lacerada e hematomas surgiam diante da crueza e da voragem. Não havia mais volta. Percorrida em todos os sentidos, de um jeito intenso. Tocada e beijada das formas que mais gosto – rosebud –, fui subindo o Olimpo, numa noite inventada.
Tamanha era a alegria da entrega, quis oferecer essa alegria também. Blow up. Então, um meteoro intenso surgiu no meu horizonte, palpável, prestes já a arrancar de dentro o que de melhor a alma humana tem a oferecer. Mas houve um milissegundo de ternura, e as mãos se colaram, como quem não quer perder o outro quando a terra escancara uma fenda em um terremoto. Para em seguida uma promessa se cumprir: o céu abotoado de nuvens foi pontuando as estrelinhas, e desabou sobre elas. Tornou mais agudas minhas vontades. Uma cena doce teve seu momento, e os beijos agora eram menos tormenta, e mais chuva fina a fazer palco em nossa boca. A loucura e a força de toda essa história caminhavam para seu desfecho, enfim.
A prata oculta nos profundos, personagem principal dessa odisséia, já tamborilava lá dentro, fervia aflita, pronta para ser arrancada como ouro negro. Felicidade de mulher saciada, assim, aos borbotões texanos.
Sons primitivos preencheram esse lugar encantado. Lá fora, anoitecia. Ninguém poderia imaginar que um céu pode prometer e cumprir se assim for preciso... E alheia a todas essas coisas belas e insanas a Terra percorria tranquila em elipse seu primeiro dia de translação.
A vida também, assim como a Terra, dá voltas sensatas ao redor do parafuso.

Filosofia de fim de tarde - Outono

Nada como um dia após o outro.

Virada Cultural - Sábado

Gosto muito quando tem Virada cultural. Faço com prazer um circuito que adoro: andar pelas ruas do Centro, revitalizar minha memória desses lugares, poder ver sem pressa e detalhadamente os prédios antigos, a arquitetura de um pedaço da cidade que frequentei muito quando criança e adolescente.
Decido ir ao show de abertura, músicos que fizeram parte do Buena Vista Social Club. Pegamos o metrô rumo à estação Luz. O clima entre as pessoas é de dia de festa. Todos estão sorridentes, munidos do programa da Virada, lendo atentos o que querem fazer na maratona.
Eu já sei que vou pinçar alguns eventos apenas, e não vou virar a noite, como fiz da outra vez. Estou cansada, tenho trabalhado muito, então vou atender aos limites do corpo desta vez. Encontramos com mais uma do grupo na catraca da estação. Ela é arquiteta. No caminho que fazemos até a praça Julio Prestes, ela vai contando que já entrou em alguns prédios ali para trabalhos de observação. Descreve detalhes de alguns deles. Vou adorando esta conversa.
Já na esquina da estação da Luz, ouvimos alguns acordes ao longe. Som cubano é sempre som cubano: adoro. Chegando perto do palco pela lateral e percebemos que será impossível ver os músicos, tamanha é a multidão. Vamos nos apertando com as pessoas que estão ali.
Bem, coruja que sou, vou observando tudo. Não estamos vendo nada do palco, mas percebo que a maioria do público é de jovens e adolescentes. Fiquei feliz de saber que não é apenas minha filha e os amigos dela que gostam desse ritmo. Também observo que o público procura não fazer barulho e algumas vezes pede licença pra passar. Penso: que raro e que bom.
Agora conseguimos chegar mais perto, e podemos ver alguns músicos. Eles dançam com aquela facilidade e moleza de quadris que os cubanos são famosos por ter. Uma cantora magra de voz forte remexe os quadris como se tivesse nascido dançando, faz aquilo como se estivesse lavando louça ou varrendo a casa. Naturalmente.
Os celulares tocam, as pessoas vão se encontrando: "estou aqui, do lado palco", diz um. "Fala mais alto!" Não gosto muito de celulares, mas desta vez, confesso, adorei ver aqueles jovens todos se comunicando, tentando se encontrar nos eventos. Afinal, num mundo de tanto desencontro, testemunhar o encontro é algo que provoca a fé. Uma aldeia cultural, foi o que vi. Parte do meu desencanto com a humanidade fenesceu. Aqueles telefonemas me mostraram que há mais do que imagino no mundo.
Tento ir mais à esquerda, quero ver a ex-rodoviária, ali de frente para a Sala São Paulo. A rodoviária era para mim motivo de alegria, sempre: ou saíamos em férias, eu e minha família, ou íamos ali de carro buscar os parentes que passariam alguns dias conosco. O meu pai nos levava de carro até lá no nosso velho e bom Fusca 1966 azul, e nos colocava no ônibus. Ele esperava o ônibus partir, e ficava dando adeus a distância, discreto, tímido, como sempre foi. Eu ajoelhava no banco e ficava olhando até ele desaparecer, um pontinho lá longe. Doía uma súbita saudade, mas, como toda criança, eu me sentava no banco já imaginando subir em árvores, tomar banho de rio, correr na rua com meus primos, visitar o curral todos os dias, ficar olhando nossas mães cozinharem pamonha no terreiro, ou um tacho de goiabada. Quando faltava imaginação pras brincadeiras, íamos na praça e ali tudo era desejo: algodão-doce, sorvete, maçã-do-amor. E correrias pra cá, pra lá. Para uma criança de São Paulo, criada dentro de um quintal sem árvores, aquilo era o paraíso, liberdade, tudo de bom.
Termina o show, e vejo lá no alto uma malabarista dependurada num fio. Shortinho vermelho, ela vai se contorcendo lá no alto, e nós, aqui embaixo, vamos admirando sua coragem. Eu, que tenho medo de altura, paúra na verdade, a admiro ainda mais.
O grupo se encontra mais gente numa esquina, e decide ir a outro show no Anhangabaú. Eles me chamam, mas tenho um jantar marcado e não posso me atrasar. Ainda tenho coisas a fazer antes de ir.
Passo em frente da estação Luz, e vejo a faixa que indica os horários do trem das onze. Um trem sai da Luz e vai até o Brás. Depois do jantar, me programo pra pegar o trem talvez da uma da manhã e fazer o circuito. Meu grupo também fará o mesmo. Marcamos de nos encontrar à uma ou duas da manhã. Bingo! OK!
Apesar dos planos, o jantar esticou pela madrugada. Está tudo tão bom que esticar pareceu necessário. Vou ter que "pular" o trem da uma ou duas... Mas me animo para depois enfrentar talvez o trem das 3h ou das 4h. Quando são 3h30, já estou mais com ânimo de cama e edredom. Decido por fim perder o trem e ficar com minha noite de sono.
Amanhã haverá mais maratona, e já tenho minha diversão em mente.

***

Hoje é 2 feira. Abro a Folha para ver notícias sobre a Virada. Mario Bortolotto escreve. Entendo seu desencanto. Também estranho as pessoas se desesperarem por ver todos os shows, por quererem estar em todos os lugares, por prefigurarem uma espécie de angústia pela diversão nonstop. Estranho também a morte do adolescente, vítima de um esfaqueamento. Afinal, não cabe em minha mente haver violência numa festa de arte e de cultura.
Concordo com Bortolotto de certa forma, mas não chego às raias de sequer ter vontade de sair de casa nesses dias. Sou menos desencantada do que ele, e confio que adorarei viajar no Trem das Onze, do Adoniram. Também confio que vale a pena o crime me deslocar para ver Flora Purim e Airto Moreira nesse clima de celebração pela cultura que muda o ar da minha cidade: as pessoas estão ali por algo do bem, a cultura, a diversão. Afinal, depois de muito panis, precisamos muito deste "circensis".

domingo, 9 de maio de 2010

Dia das mães, e um presente sincrônico

Há muito tempo não ia ao bairro da Liberdade. Nossa, nem me lembro a última vez. Mas preciso urgente de um secador. Perguntei pra pessoa que cuida do meu cabelo qual modelo e onde comprar. Munida das informações, lá fui eu sábado à tarde de metrô à Liberdade. Ikesaki era o destino.
Bem, como típica mulher que sou, claro que não pude me ater apenas ao objetivo da minha ida até lá. Meus olhos brilharam quando viram inúmeros produtos, para os mais variados objetivos. Mas eu tinha que escolher, então, me encostei no balcão da Loreal. Preciso de um batom novo e bom. Andei comprando alguns pelo preço, e eles não duram uma hora nos lábios. Resolvi que queria investir num melhor.
A vendedora e demonstradora dessa marca, olhos pintadíssimos, rosto aveludado pelos pancakes, derruba as prateleiras -- percebeu que potencialmente posso ser uma compradora por impulso. Vai me mostrando batons, gloss, rimel, delineador, iluminadores, sombras... e eu vou sendo encantada, como se ela tivesse o canto da sereia e eu fosse um pescador. Quando dei por mim, o dorso das minhas mãos estava todo cheio de glitter, coberto por várias cores, brilhos, enfim...
Percebo que preciso muuuuuuuuuuiiiiiiito de tudo aquilo, há uma ordem em mim que me diz: você precisa de tudo isso, você precisa, você precisa...
Bom, peço então que ela feche minha conta. Ela soma tudo, um valor alto. Eu dou um passo atrás. O bom senso adormecido em mim acorda, e penso que tenho outras coisas importantes pra comprar pra casa, pra Isadora, e até mesmo para mim. Tive que desapontar a moça de olhos sombreados em demasia. Peço que vá tirando alguns itens até chegar ao valor que não doerá no meu orçamento mensal. Já tenho o secador, então posso viver com um batom e dois gloss. Vou ao caixa. Vejo que as mulheres carregam cestas pesadas de produtos. Me sinto menos mal por meu impulso inicial. Nós mulheres somos assim... (pelo menos, a maioria de nós, diríamos.)
Como sou mãe, e nunca volto pra casa com algo pra mim sem trazer algo pra Isadora, pesquisei o que poderia lhe agradar: ela adora cremes para o rosto, para as mãos. Pego um que acho que ela vai gostar.
Estamos a um dia do dia das mães, ganho dois presentes: um nécessaire da Loreal e um pingente em forma de coração vazado (acho que banhado a ouro) pendurado de lado, bem bonitinho, de uma parceria entre Ikesaki e uma joalheria.
De novo fora da Ikesaki, na praça da Liberdade, vou lembrando algumas coisas que esta região me traz. Muitas vezes eu vinha visitar meu pai no trabalho, o Fórum, ali do lado, na praça João Mendes. Vinha buscar minha mesada, quando adolescente, ou simplesmente ligava pra ele: “Pai, posso subir pra te dar oi...”. Também me lembro que um dos meus cursinhos pré-vestibular era ali perto, estação São Joaquim. Eu estudava pra passar em medicina. A gente às vezes ‘cabulava’ aula, quando não aguentávamos mais aquelas fórmulas, e íamos numa choperia ali perto da praça da Liberdade. Anos 80, falávamos de política, de música, de chico buarque, de namoros, de futuro, de possibilidades, de tudo enfim. Havia uma garra subliminar em todos nós, uma vontade de futuro, de estudar, de crescer, amadurecer, ganhar as escadarias do mundo, subir nelas.
O metrô Sé, naqueles tempos, era ponto de encontro pra muita gente. Não havia esse mar de gente circulando por lá e era fácil encontrar um amigo, amiga, namorado, rolo. Me lembro que algumas vezes marquei encontro com um ex-rolo ali (naquele tempo o termo técnico era ‘amizade colorida’). Meus pais nem sabiam onde eu ia, eu só dizia: vou sair com um amigo. E diferentemente de hoje, eles não se preocupavam se eu seria raptada, se desapareceria sem deixar rastro, se seria assaltada, se sofreria algum tipo de mal. Eram tempos diferentes. Havia outros problemas, mas violência era raro.
Decido ver se ainda existe o prédio onde ficava o cinema japonês, praça Carlos Gomes. Ando alguns passos, e já sinto a decrepitude. Lixo, sujeira, sei lá: festa estranha, gente esquisita. Encontro o prédio exatamente como era há mais de 30 anos, apenas a cor é diferente. Mas a decepção cala fundo: agora o 'meu' cinema japonês é uma igreja evangélica.
Me atiro na rua dos Estudantes, só pra ver como está. Tento ir a uma igreja antiga que tem numa travessa, mas, além de decadente, arruinada, ela está fechada. Meu coração dá um pontadinha de dor, sempre sinto isso quando vejo minha cidade da infância e da adolescência ser carcomida pelo descaso ou pela destruição para subir mais um arranha-céu. A rua é um beco, e a fachada da igreja fecha o final da rua. Ali na frente misturam-se umas vendedoras que acabam de sair de uma loja e um sem-teto, enrolado num cobertor, talvez esperando a loja fechar totalmente para retomar sua “casa” noturna. Meu estômago embrulha.
Faço o caminho de volta e entro numa Bakery, não sei mais se japonesa ou chinesa, mas muito boa, à qual já fui várias vezes. Esqueço a dor da igreja e do mendigo. Como de hábito, peço pão feito no vapor, recheio de frango. Sempre peço isso quando vou até lá. Sei que sou óbvia, mas gosto de ir aos mesmos lugares e pedir as mesmas coisas. Coisa de sagitariano, eu acho. Meu pai também é assim. Novidade não é com ele.
Me sento lá, e fico pensando um pouco tristonha na decadência que sinto no bairro da Liberdade em relação ao tempo em que o conheci, há mais de 25 anos. Ali era o próprio Japão. Hoje não sei direito quem são seus habitantes e comerciantes. Era tudo muito limpo e aquelas lanternas japonesas no alto das ruas estavam sempre bem cuidadas. Vi ontem que elas estão muito sujas, maltratadas, sem qualquer manutenção. Pena.
Vejo uma criança e algo cutuca minha memória. Não sei bem por quê. Mas lembro diretinho de uma cena com um amigo de adolescência, e penso que não nos vemos faz tantos anos. Me pergunto por que o passar do tempo, em vez de aprofundar as relações, muitas vezes nos separa de quem gostamos. Num segundo já esqueci do meu amigo e acelero sem rumo.
Volto para casa, trazendo umas flores dentro do metrô, que comprei pra minha mãe ali mesmo na Liberdade pra lhe dar de dia das mães. Era uma barraca de japoneses e as flores estavam muito bonitas e frescas. Havia todo o tipo: crista de galo, begônias, minirrosas, rosas, gerânios, crisântemos, rosas, flores do campo, e outras tantas que eu sequer conhecia. Pego um vaso de begônias, estão lindas na sua cor laranja. Um flash na minha mente me lembra uma barraca parecida que vi em Londres quando fui encontrar com minha filha num restaurante natural no centro, perto de Oxford street. O flashback me fez lembrar que eu achava lindas aquelas barracas de flores em meio à turba de pessoas no horário do almoço. Mas, na praça da Liberdade, a barraca de flores era a única coisa bonita, colorida e alegre no entorno.
No metrô, lotado para um sábado, entro com uma sacola grande numa mão, um vaso na outra, e, nem acredito, um homem logo se levanta e me diz pra eu me sentar. Eu fiquei envergonhada, peço que ele não faça isso, não é preciso, mas ele faz questão, dizendo que estou com pacotes, e se mantém de pé, firme. Bom, nessa altura, todas as pessoas ao nosso redor estão nos olhando. Na atualidade, infelizmente esta é uma cena incomum, ninguém dá o lugar, nem para uma mulher, nem para um idoso, nem para uma mãe com crianças. Eles só são salvos pelos bancos destinados a eles, caso contrário, morrerão de pé até a última estação.
Chego em casa, e me lembro que tenho um jantar de aniversário de uma grande amiga. Separo roupa e sapatos, dou uma arrumada nos cabelos com meu secador novo. Feito isso, vou abrir meus e-mails. Apenas pra constar que os abri hoje. Vou sem vontade lendo e jogando no lixo as propagandas virtuais. Respondo aos amigos, neste caso, sempre com carinho e muita vontade. Há um e-mail de trabalho, não respondo. Trabalho, agora, só na 2ª feira. Mas lá no final da lista do dia, um e-mail chama minha atenção. Sincronicidade é a surpresa do tempo. Não é?
Abro e uma sensação boa se abate sobre mim. Depois de quase 20 anos sem notícias, o amigo da adolescência no qual pensei hoje à tarde me escreve. Reencontro nos bits e bytes da vida. Nas palavras dele, “caso eu seja a Sandra Brazil que ele conheceu”.... Sim, sou eu. Eu tinha 15 anos quando o conheci numas férias, nos correspondíamos, inúmeras cartas, dúvidas, perguntas, o mundo chegando a nós como um barco chega no porto, deslocando muita água; o que seríamos no futuro, como nossos pais, será? Depois nos reencontramos na faculdade. Depois nos perdemos. Depois, reencontro trabalhando juntos. Depois, silêncio. Na verdade, lembrar nossa trajetória me refrescou a inocência que um dia já houve em mim – um tempo sem atritos, sem pré-julgamentos, um corpo mais disponível, sem a tensões da antecipação. Eu era toda lânguida à espera do que a vida me traria.
Receber as palavras doces de um amigo de tanto tempo está para a barraca de flores que embeleza o entorno na Liberdade. Elas vêm a calhar e embelezam a mim também. Afinal, é dia das mães, e eu mereço um lindo presente.

sábado, 8 de maio de 2010

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Filosofia de botequim

Numa mesa de bar, duas taças e meia de vinho, já ensaio uma espécie de filosofia. Barata... desfalcada... mas abusada devido ao estímulo etílico.
Tudo ao redor fica mais bonito. No afã de uma inteligência futebolística recém-adquirida, depois de anos, juro: até entendo o que é o incompreensível 'impedimento'...
Eu não sou de beber, mas, quando bebo, é como se eu estivesse apenas coberta pelo cetim mais leve, e, ao mínimo movimento, ele escorregasse do meu corpo, me expondo da forma mais absoluta.
Revisito alguns sítios do passado, embalada pelo álcool. Ouço "Summer time" numa voz negra que me lembrou Etta James, e uma onda de sexo, umidade e atordoamento toma conta de tudo. A moça de olhos grandes e swing dos ótimos canta, como se fosse dona daquele instante. E é. Me sinto em Nova Orleans, um bonde chamado desejo. Embarco. A voz arrasta tudo ao redor, como Katrina. Burning down the house.
Dou voltas para não dar de frente com uma Sandra que está adormecida, parece séculos. Tenho medo de despertá-la. O blues que rola deu uma aquecida na minha geladeira, e uma febre cigana quer subir por meus azulejos de vidro.
Um boteco sórdido é a próxima parada. Um rapaz de camiseta de time de futebol segura um copo de cerveja e assiste com seus óculos a partida. Ele não resiste a minha acompanhante, ela dá trela, e eles entram em campo. Ele vai pra cima dela, como o atacante vai em busca do gol. GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLLL!
Mas ela se atrapalha com uma conversa sobre troco, e ele desiste. Eu busco folhinhas de boldo do chile, acreditem, que está plantado em plena rua dos Pinheiros. Me arrependo de tê-la deixado sozinha naquele lugar sórdido, e eu ali contando estrelinhas.
Rapidamente, retomo meu posto de guardiã das coisas mais belas do mundo, e, em um segundo, ela volta a ser meu guia.
Risos e o passado vão tecendo a noite, são fotos de uma galeria íntima. Elocubramos uma filosofia barata, de botequim, que devido ao álcool não consigo me lembrar agora. Mas era muito boa, saibam.
O tigre interior está intrépido, subindo pelas paredes de vidro. Imagem mais bela não há, tanta vontade e determinação. Prometo mil coisas ao meu reino: quero ser mais feliz, quero encontrar mais vezes minha velha e boa alegria.
Um admirável passado relincha e galopa na minha frente. Quer se libertar, selvagem. Eu vou soltando a corda. Ele vai me arrastando pelo caminho.
Bom, o vinho vai volatizando, é hora de despertar. Acordo. Lembro que preciso pegar um táxi. "Com dignidade" -- transcrevo a frase-máxima da noite, dita por um miau numa calçada, alguns ml de cerveja umedecendo seu significado. Ao ser dita, consulto meu relógio interno, um sonrisal enorme cai dentro de mim: preciso partir.
O tigre escorrega então suas garras, descendo de volta pelas paredes. O corcel dá marcha à ré e volta ao seu cercado. Ainda não foi desta vez. Não, ainda não foi.
E lá vou eu de novo.
Mas tenho fé: virá a próxima parada, Estação: Felicidade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Sabedoria

"Mais do que um instante,
eu quero seu fluxo."

(Clarice Lispector)