Vão-se os anéis, ficam os dedos. Ouvi sempre minha mãe dizer. Que deve ter ouvido de sua mãe. Que num efeito myse-en-abyme deve ter ouvido da sua, e ouvido e ouvido... uma história sem fim. Acreditei nisso. Me fiei nisso.
Sempre que perdia algo, fosse material, não fosse, me lembrava desse ditado.
Mas depois que cresci, eu conheci a literatura, os autores, os textos, os poemas. Em Emily Dickinson, por exemplo, sofri muito ao ler a tradução de Haroldo de Campos:
Tive uma joia nos meus dedos —
E adormeci —
Quente era o dia, tédio os ventos —
"É minha", eu disse —
Acordo — e os meus honestos dedos
(Foi-se a Gema) censuro —
Uma saudade de Ametista
É o que eu possuo —
Há sempre uma saudade na perda, seja ela qual for... Uma gema se vai, e olhar os dedos significa lembrar-se dela, a ametista a brilhar em nossa memória marcando sua falta. Apesar da beleza, sempre me dói ler este poema. É belíssimo, mas não sei lidar com a saudade, presumo. Não sei enfrentar minhas faltas. A falta da gema. A saudade da ametista. Anos de terapia não solucionaram (ainda) esses pedaços da minha existência.
Há ametistas em mim que brilham e sinalizam ausências. Como boas ametistas, são discretas e delicadas, mas seu brilho chega à carne e a dor emerge.
Acordo preguiçosa, como Emily, achando que tudo está bem. De repente, a ametista se foi. Um carimbo marca para sempre minha saudade de pedra preciosa.
Mas conhecer a literatura, conhecer os autores, garimpar novos poemas tem seu lado ótimo também. Garimpando Elizabeth Bishop, já faz algum tempo, encontrei um poema seu sobre a sábia arte de saber perder...
Depois de anos sofrendo a perda de ametistas e gemas e dedos doloridos de saudades dickinsonianas, abro meus olhos sagitarianos melancólicos e sonhadores para um mundo mais real e prático da vida, afinal, eu disse no meu aniversário, aqui neste blogue, em dezembro, que queria mudar. Eis que estou mudando...
Saber perder é uma arte. E como toda arte, sábios chineses, demora-se a se absorver sua engenhosidade, sua prática, seu passo a passo. É preciso muito tempo e paciência de chineses para aprender a saber perder -- com dignidade, sem dor, sem tristeza, sem travo no coração, com desapego.
Eu, já faz algum tempo, ando perdendo coisas: chaves, livros, esquecendo roupas em hotéis quando viajo, objetos desaparecem sem a mínima explicação, perco pessoas de vista ou da minha vida. Isso, no passado, seria motivo de desespero, para alguém que tem uma vida tão controlado como eu, tudo num quadrado que construía diariamente para não me perder... Recentemente ando perdendo tudo: perdi recentemente um avião e a viagem, não liguei. A chave de casa, não mandei fazer outra. Perdi minha carteira com documentos na França, dinheiro e cartões. Foda-se! A caneta chiquérrima que minha mãe me deu de aniversário se foi nessa mesma perda... Deixei um par de brincos de pérola num hotel, jamais vou encontrá-los... Perdi alguns amigos ao longo dos últimos anos -- por intolerância minha, por intolerância deles, ou por ambas ao mesmo tempo. Perdi grandes amores (porque sempre vivo grandes amores, sou assim) -- por intolerância minha, por intolerância deles, ou por ambas ao mesmo tempo. Minha filha ficou adulta, estou "perdendo" sua presença na minha vida da forma como era antigamente -- constante, cotidiana, infantil, entregue; estou perdendo, e sei que faz parte da vida isso... E há outras perdas, que não convém dizer num blogue, apesar desse blogue ter um tom confessional...
Mas certas coisas são só nossas, como aquelas anáguas que nossas mães usavam anos 60 -- nós sabíamos que elas usavam, mas jamais elas ficavam à mostra. Sempre debaixo do vestido, escondidas.
Como se pode ver, ando perdendo bastante...
O grande ganho é que, fosse no passado, eu não aceitaria estas perdas, e lutaria contra a maré para manter, e sofreria para buscar meu par de pérolas custasse o que fosse, e manteria tudo como estava apenas pelo prazer de "ter" -- a posse de meus objetos, a presença das pessoas.
Que inocente eu era. Nós não temos nada. Nunca. Passamos pela vida tocando objetos, pessoas, situações, tão rápido que sequer nos damos conta.
Hoje posso perder minhas chaves. O mundo não desmoronará por isso.
Sábia Elizabeth Bishop e sua arte, a arte de saber perder. Perder faz parte da vida. Precisamos nos acostumar a isso também.
Elizabeth Bishop
Uma arte
“A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.“
(Tradução de Paulo Henriques Britto)
_______________________________________
One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.
Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.
Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.
I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.
I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.
-Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.
(Elizabeth Bishop)
Sandra Brazil / Literatura, poemas, contos, crônicas, cinema, viagens. O título deste blogue se refere à poeta grega Safo de Lesbos e sua filha Cleïs, a quem ela dedicou o belo poema "O tesouro".
Quem sou eu
- Sandra Brazil
- No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Ainda Ana C.
"te livrando
castillo de alusiones
forest of mirrors
anjo
que extermina
a dor"
(Ana Cristina Cesar)
castillo de alusiones
forest of mirrors
anjo
que extermina
a dor"
(Ana Cristina Cesar)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Confissão
Eu preciso dizer algo... Não podendo, Ana C. dirá por mim.
Para dizer o que sentimos, mas não podemos, ou não queremos, temos os poetas e a poesia: eles fazem a mediação por nós.
Quando dói, não diga nada, diga a linguagem dos olhos, abra a página 153 de um livro daquele poeta ou poetisa de quem você tanto gosta.
Ele dirá as palavras mágicas por você.
"Encontro de Assombrar na Catedral
Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
[...]"
(Ana Cristina Cesar, in A teus pés.)
Para dizer o que sentimos, mas não podemos, ou não queremos, temos os poetas e a poesia: eles fazem a mediação por nós.
Quando dói, não diga nada, diga a linguagem dos olhos, abra a página 153 de um livro daquele poeta ou poetisa de quem você tanto gosta.
Ele dirá as palavras mágicas por você.
"Encontro de Assombrar na Catedral
Frente a frente, derramando enfim todas as
palavras, dizemos, com os olhos, do silêncio que
não é mudez.
[...]"
(Ana Cristina Cesar, in A teus pés.)
domingo, 29 de janeiro de 2012
The road not taken, de Robert Frost
The Road Not Taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(Robert Frost, Mountain Interval, 1916)
________________________________________
Duas trilhas divergiam numa dourada floresta de outono,
e lamentando não poder percorrer ambas
e ser um único viajante, longamente parei
e observei uma delas o mais longe que pude
até onde se curvava num mato baixo;
Então tomei a outra, igualmente boa,
e tendo talvez um atrativo especial,
pois o capim a cobria e necessitava o uso;
embora quanto a isso, passar lá,
as teria marcado na verdade igualmente.
E ambas naquela manhã igualmente descansavam
cobertas de folhas que nenhum pisar enegrecera.
Oh, deixei a primeira para um outro dia!
Entretanto sabendo que um caminho leva a outro,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Eu contarei isto com um suspiro
em algum lugar, eras e eras distante:
duas trilhas divergiam num bosque – e eu
segui pela menos percorrida,
e isto fez toda a diferença.
Tradução Luiz Felipe Coelho (luizfelipecoelho.multiply.com)
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I--
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
(Robert Frost, Mountain Interval, 1916)
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Duas trilhas divergiam numa dourada floresta de outono,
e lamentando não poder percorrer ambas
e ser um único viajante, longamente parei
e observei uma delas o mais longe que pude
até onde se curvava num mato baixo;
Então tomei a outra, igualmente boa,
e tendo talvez um atrativo especial,
pois o capim a cobria e necessitava o uso;
embora quanto a isso, passar lá,
as teria marcado na verdade igualmente.
E ambas naquela manhã igualmente descansavam
cobertas de folhas que nenhum pisar enegrecera.
Oh, deixei a primeira para um outro dia!
Entretanto sabendo que um caminho leva a outro,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Eu contarei isto com um suspiro
em algum lugar, eras e eras distante:
duas trilhas divergiam num bosque – e eu
segui pela menos percorrida,
e isto fez toda a diferença.
Tradução Luiz Felipe Coelho (luizfelipecoelho.multiply.com)
Alta estação
Verão
Disseminação.
Recolha.
Tempo de recolher palavras
E disseminar sentimentos.
Momento de areia branca,
fundo azul, palavras sonoras:
sereia, farol, maresia, conchas.
Mas sou mesma de sempre.
Essa mulher que quer ganhar
os mares e o mundo.
(um dos poemas do meu minilivro 4a estação.)
Disseminação.
Recolha.
Tempo de recolher palavras
E disseminar sentimentos.
Momento de areia branca,
fundo azul, palavras sonoras:
sereia, farol, maresia, conchas.
Mas sou mesma de sempre.
Essa mulher que quer ganhar
os mares e o mundo.
(um dos poemas do meu minilivro 4a estação.)
"O bricoler", de Lizete Mercadante (a RedCat)
"O bricoler
Estranho que de uma convivência de trinta anos, tenham restado dele apenas duas imagens superpostas. Eu muito pequena, cabendo inteira no espaço de seu abraço. A barba por fazer me raspa o rosto, é a primeira vez que experimento essa sensação ao mesmo tempo desconfortável e de intenso prazer. Ali, naquele refúgio, nada poderia me colocar em risco.
Depois, essa barba cresce, é branca e longa, até que um dia ele a corta e seu rosto fica macio e liso. É assim que me lembro dele nos últimos anos de sua vida. Chapéu, sempre, óculos escuros, terno, a inseparável bengala.
Todas as manhãs ele desce os dez degraus que levam à rua e dá sua caminhada pelos lixos. Com a ponta da bengala apalpa e separa, lançando o olhar experiente aos tesouros que vai descobrindo e recolhendo com gestos rápidos. Pequenos objetos somem dentro da sacola de plástico cuidadosamente montada e costurada com os saquinhos que sobraram do leite. Ou uma outra qualquer roubada de alguma loja.
Depois dessa triunfante expedição, ele retorna ao apartamento, fecha-se em seu quarto onde já há muitos anos dorme sozinho, troca o terno pela camisa de flanela xadrez, dobra com cuidado o lenço de seda branca que usou no pescoço, e então senta-se ante uma infinidade de vidros e latas de todos os tamanhos, cada qual contendo o fruto de sua coleta diária.
São caixas vazias de fósforos, pedaços de fio e de barbante coloridos, latas, pedaços de tecido e de couro, botões, parafusos e pregos, restos de arame, restos de brinquedos, de madeiras, de vidros, e os mais estranhos objetos: porta-retratos quebrados, canetas esferográficas vazias, brincos sem par, tampinhas de garrafas, restos de papelão.
Quando morreu, enchi mais de trinta sacos grandes de lixo com o conteúdo de seus vidros e estantes. Enquanto as lágrimas escorriam por meu rosto, lembro-me de que pensava na festa que alguém como ele faria se pudesse encontrar em alguma esquina aqueles despojos.
Hesitei antes de enfiar no saco seus apitos e as varinhas de todos os tamanhos, com pedaços de pano amarrados à ponta, que ele usava para espantar moscas. Deitado, media a distância do inseto e escolhia sem pestanejar aquela que se adequasse ao alvo. Pouco errava. Ele tinha uma prática de anos.
E os apitos eram para chamar minha mãe.
Durante meus dez anos de análise percebi todos os esforços que fez meu analista para que eu invertesse o espelho de olhar o passado. Diversas vezes entendi, por trás de sua cuidadosa sutileza, a pergunta embutida: não vê que foi a sua mãe que coube a parte mais dura?
Sim, eu via.
Foi minha mãe quem carregou sozinha a barra de conduzir a família quando ele desistiu de tudo, trancou-se naquele quarto coalhado de lixo e ali viveu por quinze anos, até morrer, falando com suas mulheres — ela e eu — apenas o trivial. E assim mesmo havia o apito, para economizar o chamado que obrigatóriamente o faria pronunciar o nome dela.
Recusando-se a compreender as leis que regiam as coisas, ele nunca tinha pago aposentadoria, nem se preocupado em legalizar seus negócios. Ao fugir do convívio social, acreditara que o dinheiro recebido pela venda da última casa de comércio que possuíra — aquele armazém que para mim foi o primeiro parque de diversões — seria suficiente para nos manter, a ele e a nós duas, até o final dos tempos.
Não foi. Em menos de dois anos minha mãe se matava vendendo roupas, pegando bicos de costura, desfazendo-se de suas jóias e eletrodomésticos, recorrendo a empréstimos e à boa vontade de parentes.
Sim, eu via.
No entanto, jamais consegui inverter o curso de minhas sensações.
Aqui dentro, na região mais secreta de meu ser, onde as coisas doem ou deixam de doer depois que cicatrizam, o que ressoa sempre, o que me sustenta em momentos de profunda solidão, é sua voz erguendo-se de repente, calando a ladainha com que minha mãe sistematicamente me torturava, por horas a fio, ora criticando minhas amizades, ora se opondo a meus planos de fazer isso ou aquilo, ora num carrossel de lamentos e angústias e cobranças que me arrasavam e me faziam pensar em querer morrer. Era sua voz que a mim se estendia, que me envolvia como um casulo de solidariedade, que me ensinava o sentido da cumplicidade. "Chega, ela já entendeu." Só isso. E bastava para que cessasse aquele círculo de ferro em minha volta, para que eu de novo pudesse respirar, para que a esperança ressurgisse.
Em seu obstinado silêncio, em sua desistência do mundo, meu pai jamais deixou de ter sobre mim um olhar atento. Não se importou muito com minha sobrevivência física — ele jamais quis saber se havia ou não comida em casa, se o dinheiro seria ou não suficiente — mas soube, sempre, quando me faltava o ar.
Entre esse menino e esta menina nunca houve distância nem estranheza."
(A filha do Bricoler também guarda seus sacos de afetos, lembranças, cenas, pedras, conchas, títulos sem uso, bijuteria quebrada, cartões-postais, fotos rasgadas, pedaços de palavras ouvidas, pedaços de palavras nunca ditas, pedaços. De vez em quando junta tudo e deixa que água & sal lave e leve.
Texto de Liz Mercadante redcat@ocaixote.com.br)
(* A foto acompanha o texto originalmente publicado em ocaixote.com.br, revista eletrônica de literatura.)
Estranho que de uma convivência de trinta anos, tenham restado dele apenas duas imagens superpostas. Eu muito pequena, cabendo inteira no espaço de seu abraço. A barba por fazer me raspa o rosto, é a primeira vez que experimento essa sensação ao mesmo tempo desconfortável e de intenso prazer. Ali, naquele refúgio, nada poderia me colocar em risco.
Depois, essa barba cresce, é branca e longa, até que um dia ele a corta e seu rosto fica macio e liso. É assim que me lembro dele nos últimos anos de sua vida. Chapéu, sempre, óculos escuros, terno, a inseparável bengala.
Todas as manhãs ele desce os dez degraus que levam à rua e dá sua caminhada pelos lixos. Com a ponta da bengala apalpa e separa, lançando o olhar experiente aos tesouros que vai descobrindo e recolhendo com gestos rápidos. Pequenos objetos somem dentro da sacola de plástico cuidadosamente montada e costurada com os saquinhos que sobraram do leite. Ou uma outra qualquer roubada de alguma loja.
Depois dessa triunfante expedição, ele retorna ao apartamento, fecha-se em seu quarto onde já há muitos anos dorme sozinho, troca o terno pela camisa de flanela xadrez, dobra com cuidado o lenço de seda branca que usou no pescoço, e então senta-se ante uma infinidade de vidros e latas de todos os tamanhos, cada qual contendo o fruto de sua coleta diária.
São caixas vazias de fósforos, pedaços de fio e de barbante coloridos, latas, pedaços de tecido e de couro, botões, parafusos e pregos, restos de arame, restos de brinquedos, de madeiras, de vidros, e os mais estranhos objetos: porta-retratos quebrados, canetas esferográficas vazias, brincos sem par, tampinhas de garrafas, restos de papelão.
Quando morreu, enchi mais de trinta sacos grandes de lixo com o conteúdo de seus vidros e estantes. Enquanto as lágrimas escorriam por meu rosto, lembro-me de que pensava na festa que alguém como ele faria se pudesse encontrar em alguma esquina aqueles despojos.
Hesitei antes de enfiar no saco seus apitos e as varinhas de todos os tamanhos, com pedaços de pano amarrados à ponta, que ele usava para espantar moscas. Deitado, media a distância do inseto e escolhia sem pestanejar aquela que se adequasse ao alvo. Pouco errava. Ele tinha uma prática de anos.
E os apitos eram para chamar minha mãe.
Durante meus dez anos de análise percebi todos os esforços que fez meu analista para que eu invertesse o espelho de olhar o passado. Diversas vezes entendi, por trás de sua cuidadosa sutileza, a pergunta embutida: não vê que foi a sua mãe que coube a parte mais dura?
Sim, eu via.
Foi minha mãe quem carregou sozinha a barra de conduzir a família quando ele desistiu de tudo, trancou-se naquele quarto coalhado de lixo e ali viveu por quinze anos, até morrer, falando com suas mulheres — ela e eu — apenas o trivial. E assim mesmo havia o apito, para economizar o chamado que obrigatóriamente o faria pronunciar o nome dela.
Recusando-se a compreender as leis que regiam as coisas, ele nunca tinha pago aposentadoria, nem se preocupado em legalizar seus negócios. Ao fugir do convívio social, acreditara que o dinheiro recebido pela venda da última casa de comércio que possuíra — aquele armazém que para mim foi o primeiro parque de diversões — seria suficiente para nos manter, a ele e a nós duas, até o final dos tempos.
Não foi. Em menos de dois anos minha mãe se matava vendendo roupas, pegando bicos de costura, desfazendo-se de suas jóias e eletrodomésticos, recorrendo a empréstimos e à boa vontade de parentes.
Sim, eu via.
No entanto, jamais consegui inverter o curso de minhas sensações.
Aqui dentro, na região mais secreta de meu ser, onde as coisas doem ou deixam de doer depois que cicatrizam, o que ressoa sempre, o que me sustenta em momentos de profunda solidão, é sua voz erguendo-se de repente, calando a ladainha com que minha mãe sistematicamente me torturava, por horas a fio, ora criticando minhas amizades, ora se opondo a meus planos de fazer isso ou aquilo, ora num carrossel de lamentos e angústias e cobranças que me arrasavam e me faziam pensar em querer morrer. Era sua voz que a mim se estendia, que me envolvia como um casulo de solidariedade, que me ensinava o sentido da cumplicidade. "Chega, ela já entendeu." Só isso. E bastava para que cessasse aquele círculo de ferro em minha volta, para que eu de novo pudesse respirar, para que a esperança ressurgisse.
Em seu obstinado silêncio, em sua desistência do mundo, meu pai jamais deixou de ter sobre mim um olhar atento. Não se importou muito com minha sobrevivência física — ele jamais quis saber se havia ou não comida em casa, se o dinheiro seria ou não suficiente — mas soube, sempre, quando me faltava o ar.
Entre esse menino e esta menina nunca houve distância nem estranheza."
(A filha do Bricoler também guarda seus sacos de afetos, lembranças, cenas, pedras, conchas, títulos sem uso, bijuteria quebrada, cartões-postais, fotos rasgadas, pedaços de palavras ouvidas, pedaços de palavras nunca ditas, pedaços. De vez em quando junta tudo e deixa que água & sal lave e leve.
Texto de Liz Mercadante redcat@ocaixote.com.br)
(* A foto acompanha o texto originalmente publicado em ocaixote.com.br, revista eletrônica de literatura.)
"O último poema", resposta a Xico Santos e Ana C. e RedCat
"O último poema
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."
(Manuel bandeira)
O ímpeto de postar Ana C. foi na madrugada. Fiz.
Depois de um sarau, ouvir palavras de açúcar cândi, palavras-tesoura e estilete e faca amolada, cheguei em casa e fui à minha estante real (nada de livros virtuais, pdfs e afins), quero papel e cheiro de tinta e prensa...
Peguei os exemplares de Ana C., como muitas vezes a poeta mais rápida do oeste, compulsiva, assinava.
Mais uma lembrança: A teus pés, Inéditos e dispersos e Crítica e tradução são livros de Ana C. que foram publicados numa coleção da autora entre 1998 e 2000 pela editora Ática. Tive o prazer e o deleite de trabalhar com esses originais com a editora responsável por esse material, Lizete Mercadante Machado, a nossa Liz, ou RedCat, como queiram.
Lizete e eu trabálhavamos juntas na Ática. Liz fazia todo o trâmite com Waldo Cesar, o pai de Ana C., que guardava e cuidava dos originais desde o suicídio da filha, claro que acompanhado pelos amigos mais próximos dela -- Armando Freitas Filho, Heloisa Buarque de Holanda, entre outros.
Ela editava os originais, exaustivamente conversava sobre eles com Waldo, lia, relia, resolvia dúvidas novamente; ao mesmo tempo, ficou imcumbida de escolher junto com o editor da arte (Marcello Araujo) a iconografia que acompanhou os textos. Waldo abriu fotos de infância e juventude, da família e de momentos íntimos de Ana Cristina.
Depois disso tudo, ela me chamou e disse: "Sandra, este é um original que precisa ser revisado com muito cuidado. A autora já faleceu, e o pai dela é muito rigoroso com o material, fotos, possíveis interferências e correções etc..." Eu interrompi Lizete e respondi: "Liz, fique tranquila, eu já conheço de trás para a frente A teus pés... Já li inúmeras vezes e tenho meu exemplar da edição de 1982, em que ela ainda estava viva quando foi publicado. Farei a leitura com o maior cuidado e delicadeza... Eu adoro poesia. Jamais faria interferências num original de Ana C."
Lizete suspirou, aliviadíssima e senti que se estabeleceu ali um ar de cumplicidade. Depois de minha leitura, o livro foi lançado e vieram os próximos. E Lizete sempre me dizia que Waldo Cesar mencionava sempre uma "pasta rosa", tesouro em que havia inéditos que a autora deixara inacabados antes do suicídio.
A Ática estava fazendo um canto de sereia para que ele liberasse esses originais da "pasta rosa". Foram anos de conversa, mas nada se concretizou. Waldo considerava que não era bom publicar textos inacabdos de Ana.
Pois ontem, depois de chegar em casa do sarau, em que ouvi tantas palavras "derramadas", "corpos de poemas", decidi que poria no ar minha seção de literatura "A biblioteca do Chacrinha" que estava atrasada, aliás. Fui à estante, sem dúvidas, certeira, peguei meus exemplares de Ana C., todos que tenho em papel. Fotos, poemas, cartas, frases, palavras dançaram ao redor neste meu espaço construído para se ter prazer.
Fui recortando os poemas que o sarau havia despertado na minha memória, estavam adormecidos. O sarau só fez as vezes do beijo do príncipe: os poemas de Ana C. acordaram lá num lugar distante onde estavam e vieram despertos e dispostos brincar de roda. Procurei na internet e vi que o Instituto Moreira Salles guarda o acervo da autora, a pedido de Armando Freitas Filho e da família, no Rio de Janeiro.
A "pasta rosa" foi enfim transformada em livro pelo IMS e se chama agora Antigos e soltos, publicação de 2008.
Acordo tarde, pois postar Ana C. me levou madrugada adentro.
Vejo um comentário de Xico com uma frase de Gikovate, que me remeteu a um poema de Manuel Bandeira, que abriu este post.
P.S.1. Depois de tanto tempo, continuo trabalhando com Lizete, a RedCat, que continua editora das ótimas. Conheçam O texto "O bricoleur", de Liz, em o caixote (revista eletrônica de literatura) em http://www.ocaixote.com.br/a_caixote21/cx21_contos_lizete.htm.
Acabei de reler e o coração faz subir um elevadorzinho de água até os olhos.
P.S.2. O Xico é editora da Altana e tem um blogue recente e textos (há muito tempo) belíssimos, conheçam: Folhetim de ausências http://folhetimdeausencias.blogspot.com/2012/01/bilhete_27.html.
"Bilhete" é um de seus belos textos.
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação."
(Manuel bandeira)
O ímpeto de postar Ana C. foi na madrugada. Fiz.
Depois de um sarau, ouvir palavras de açúcar cândi, palavras-tesoura e estilete e faca amolada, cheguei em casa e fui à minha estante real (nada de livros virtuais, pdfs e afins), quero papel e cheiro de tinta e prensa...
Peguei os exemplares de Ana C., como muitas vezes a poeta mais rápida do oeste, compulsiva, assinava.
Mais uma lembrança: A teus pés, Inéditos e dispersos e Crítica e tradução são livros de Ana C. que foram publicados numa coleção da autora entre 1998 e 2000 pela editora Ática. Tive o prazer e o deleite de trabalhar com esses originais com a editora responsável por esse material, Lizete Mercadante Machado, a nossa Liz, ou RedCat, como queiram.
Lizete e eu trabálhavamos juntas na Ática. Liz fazia todo o trâmite com Waldo Cesar, o pai de Ana C., que guardava e cuidava dos originais desde o suicídio da filha, claro que acompanhado pelos amigos mais próximos dela -- Armando Freitas Filho, Heloisa Buarque de Holanda, entre outros.
Ela editava os originais, exaustivamente conversava sobre eles com Waldo, lia, relia, resolvia dúvidas novamente; ao mesmo tempo, ficou imcumbida de escolher junto com o editor da arte (Marcello Araujo) a iconografia que acompanhou os textos. Waldo abriu fotos de infância e juventude, da família e de momentos íntimos de Ana Cristina.
Depois disso tudo, ela me chamou e disse: "Sandra, este é um original que precisa ser revisado com muito cuidado. A autora já faleceu, e o pai dela é muito rigoroso com o material, fotos, possíveis interferências e correções etc..." Eu interrompi Lizete e respondi: "Liz, fique tranquila, eu já conheço de trás para a frente A teus pés... Já li inúmeras vezes e tenho meu exemplar da edição de 1982, em que ela ainda estava viva quando foi publicado. Farei a leitura com o maior cuidado e delicadeza... Eu adoro poesia. Jamais faria interferências num original de Ana C."
Lizete suspirou, aliviadíssima e senti que se estabeleceu ali um ar de cumplicidade. Depois de minha leitura, o livro foi lançado e vieram os próximos. E Lizete sempre me dizia que Waldo Cesar mencionava sempre uma "pasta rosa", tesouro em que havia inéditos que a autora deixara inacabados antes do suicídio.
A Ática estava fazendo um canto de sereia para que ele liberasse esses originais da "pasta rosa". Foram anos de conversa, mas nada se concretizou. Waldo considerava que não era bom publicar textos inacabdos de Ana.
Pois ontem, depois de chegar em casa do sarau, em que ouvi tantas palavras "derramadas", "corpos de poemas", decidi que poria no ar minha seção de literatura "A biblioteca do Chacrinha" que estava atrasada, aliás. Fui à estante, sem dúvidas, certeira, peguei meus exemplares de Ana C., todos que tenho em papel. Fotos, poemas, cartas, frases, palavras dançaram ao redor neste meu espaço construído para se ter prazer.
Fui recortando os poemas que o sarau havia despertado na minha memória, estavam adormecidos. O sarau só fez as vezes do beijo do príncipe: os poemas de Ana C. acordaram lá num lugar distante onde estavam e vieram despertos e dispostos brincar de roda. Procurei na internet e vi que o Instituto Moreira Salles guarda o acervo da autora, a pedido de Armando Freitas Filho e da família, no Rio de Janeiro.
A "pasta rosa" foi enfim transformada em livro pelo IMS e se chama agora Antigos e soltos, publicação de 2008.
Acordo tarde, pois postar Ana C. me levou madrugada adentro.
Vejo um comentário de Xico com uma frase de Gikovate, que me remeteu a um poema de Manuel Bandeira, que abriu este post.
P.S.1. Depois de tanto tempo, continuo trabalhando com Lizete, a RedCat, que continua editora das ótimas. Conheçam O texto "O bricoleur", de Liz, em o caixote (revista eletrônica de literatura) em http://www.ocaixote.com.br/a_caixote21/cx21_contos_lizete.htm.
Acabei de reler e o coração faz subir um elevadorzinho de água até os olhos.
P.S.2. O Xico é editora da Altana e tem um blogue recente e textos (há muito tempo) belíssimos, conheçam: Folhetim de ausências http://folhetimdeausencias.blogspot.com/2012/01/bilhete_27.html.
"Bilhete" é um de seus belos textos.
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