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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Eu, numa onda flower power, e anarquista, thanks Lord!

Desde que voltei de San Francisco em junho, ando meio flower power...
Ando me lembrando das músicas de quando tinha 5 anos e via pela TV ou pelos jornais e revistas aquelas massas de jovens, cabelos longos, jeans, um olhar pacífico de quem mudará o mundo pela explicação e pela filosofia. Hordas de juventude caminhando em busca de sentido, de sexo, de liberdade, da experiência com as drogas, ácido, tudo que fosse possível vivenciar, viagens as mais profundas.
Eu via tudo aquilo e achava lindo, sem saber o que era. As batas brancas com flores desenhadas, os cabelos longos até a cintura, despenteados, gritando: queremos liberdade. Woodstock... Eu pensava: quando crescer, quero ser assim.
Paralelamente eu via nas manchetes do meu país a cavalaria, os jovens em confronto, uma tensão nesses rostos diante da autoridade. Via sem saber ler que os estudantes haviam jogado bolinhas de gude num confronto contra os militares, arma mais infantil contra uma guerra duríssima. Os cavalos caíram sobre as circunferências.
Meu pai chegou do trabalho pálido, antes do habitual, e nos contou que teve que se enconder na catedral da Sé porque o Fórum tinha sido evacuado pela polícia. Viu os estudantes arrombando a porta da catedral para fugir dos policiais, brutos e ávidos por vingança por conta do ridículo das bolinhas de gude. Muitos dos estudantes corriam, meu pai viu, mas não deixavam de ajoelhar e fazer o sinal da cruz ao entrar na igreja... Hoje acho isso muito engraçado. Seriam esses os não marxistas? Ou seriam marxistas filhos de católicos praticantes? Numa reunião posterior os sobreviventes teriam sido punidos por esse ato?
Mas voltei de San Francisco, depois de ver a Golden Gate, com aquela música "If you're going to San Francisco, you be sure to wear white flowers in your hair..." repetindo em minha mente, que só alguém mais velho ou da minha idade consegue se lembrar...
Quem quiser abrir o porão da memória, acesse: http://www.youtube.com/watch?v=g_HhwinPw-M&feature=player_embedded
Me deu saudade dos meus 5 anos, da minha admiração pelos flower power, da atenção que tinha ao ver o meu pai contar a história da cavalaria X estudantes, em que estudantes venceram com inocentes bolinhas de gude o poder inglório das forças armadas! Me lembro de ter rido, gargalhado, imaginando os cavalos a cair uns sobre os outros com soldados sobre eles, porque desde de criança já era anarquista, thanks Lord!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A vida como ela é

Passam os dias, as semanas, os meses. Vou desaprendendo os pontos da memória que aprendi com você.
As cenas que faziam falta já não fazem tanto, e me vejo doendo por ser tão cínica a ponto de me repreender: como posso esquecer e não sentir falta das pequenas coisas que me rodeavam como círculo de giz e faziam a minha vida mais doce, mais clara e jovem? Um ponto de felicidade no Universo, um ponto de orgasmo-felicidade uterina, coisa de mulher-felina que quer mais, mais, muito mais da vida.
Atiro uma pedra no oceano e quero que ela volte para mim. Um presente, um som, um jato sonoro, como colocar uma concha no ouvido. Sons marinhos. Bichos estranhos, cracas, escamas. Ferrugem e baús. A minha memória já me escapa, e me dói a ideia de ser enguia, escorregadia, lisa, fugidia, e aos poucos não ser mais sua, não ser mais sua, não ser mais sua, não ser mais sua, não ser mais sua, não ser mais, não ser... estranha dor de quem quer superar, mas quer manter. Ambiguidade humana e de mulher.
A lógica da minha mente me empurra para a frente, sempre. Mas o calor do meu coração dá um passo para trás. Lesmas no jardim, albatroz em pleno ar. Sou rasgada por essas duas imagens dicotômicas. Sylvia Plath, Baudelaire, me corrompem imagens distorcidas, diversas.
Como a vida não é o que sempre queremos, o telefone toca.. ring ring. Corro. Meu coração dispara, acelera, pula e salta feito criança. Tenho 18 anos e um sentimento de marés. Alô! -- Ainda não é você. Será um dia?
O tempo passa como uma barcaça lenta e o sentimento de maré virou brisa serena. O telefone toca. Ring... ring... ring... ring.... ring.... vou devagar atender. Digo um alô preguiçoso... Do outro lado da linha ouço as palavras mágicas que despertam a fera, a felina. O tigre em mim abocanha com fé e presas e fome a felicidade-uterina. Não há mais tempo a perder. Meu coração dispara, não tenho mais 18 anos, mas tudo oxigena em mim. Surfo nas marés que formam ondas altas. Recupero a memória dos anos e de tudo em segundos.
Assim é a vida. As ondas vêm apenas quando querem, a seu bel prazer. Há que se ter paciência de monge e esperar.

("Palavra de lesma numa lâmina de grama?" -- em um poema de S. Plath)
("Suas asas de gigante impedem-no de andar" - no poema "Albatroz", de Charles Baudelaire)

Patuá

Ainda sou a mesma.

Costurada
dentro de outra.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Entre mim, John Wayne e John Donne

Muitos já me disseram que sou "durona".
Ao dizerem isso de mim, me imagino John Wayne, um saloon, velho oeste, eu invadindo o espaço, abrindo aquelas portas vaivém sem cerimônia, as mocinhas cancan gritando em frisson, peço um bourbon, tomo de uma vez, e o copo corre sobre o balcão. De um tiro só o bandido jaz atrás de mim, silêncio no recinto, e tudo foi feito mirando pelo espelho...
Não sabem essas doces e inocentes criaturas que a dureza tem seu preço, que para sustentar a água de uma represa é preciso erigir muito concreto. Pois então, o meu concreto aparente represa um doce sentimento, talvez uma inocência e uma vontade de mostrar, mas um recuo e um cadeado medieval que represa tudo e reserva apenas "àqueles a que tal graça se concede", como diria o poeta John Donne, o dom e graça de receber e apreciar todo meu sentimento e sensibilidade... Afinal, não se mostra aquilo que se tem de melhor a qualquer um, ou não se fica nua diante daquele que não merece o vislumbre... Não é assim?
Talvez a minha dureza por vezes e em certas situações seja mesmo excessiva; isso se resolve em terapia, espero. Mas talvez minha sensibilidade seja uma pérola, ou como a carne delicada de certos bichinhos do mar, que nascem com uma dura carapaça para protegê-la. Daí eu escondê-la sob um rochedo. Tento protegê-la sempre, a qualquer custo. Porque dói, e demora a cicatrizar. E como as pérolas que se riscam e maculam e "morrem" facilmente, trago riscos e máculas difíceis de tratar nesse meu esmalte fino e delicado. Por isso o cuidado de pérola. Por isso a carapaça de bicho do mar.
Mas aviso aos navegantes: a qualquer sinal de sol brilhante, mar calmo e azul, segurança na embarcação, o ser sai lânguido de debaixo do rochedo e se mostra, transparente, e a dureza fica toda crua para trás. Bem lá atrás, naquele rochedo. Nada de John Wayne, saloons, gritos, tiros, bandidos... Só Sandra e a delicadeza e a sensibilidade e a poesia que se puder ter e mostrar, a quem se puder conceder, como diria o sábio, magnífico, sagaz, irônico e erótico John Donne (que lhes concedo, com prazer, a seguir).

"Elegia: indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.
Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra a vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante."

(John Donne, tradução de Péricles Cavalcanti e Augusto de Campos)

In a sentimental mood com Ella Fitzgerald: Paradise

http://www.youtube.com/watch?v=ayb6CFQQ5Ko&feature=related

domingo, 2 de outubro de 2011

Meia-noite em Paris, em companhia francesa

Eu disse: "Vamos assistir ao filme do Woody Allen, Meia-noite em Paris. É lindo, você então que morou em Paris vai adorar... aquelas cenas de uma Paris belle époque, os escritores, os artistas, os pintores, um tempo adorável... aquele céu escuro pontuado de luzes e o rio Sena e as pontes. Vamos! Eu prefiro que ir ao Jazz."
Houve certa resistência, percebi, mas uma mulher sempre acaba conseguindo o que quer, usando os mais contundentes artifícios -- e se possível até os mais baixos, se ela quiser muito.
Eu já tinha ido neste ano assistir ao filme do Woody, e tinha adorado. Aquele cenário de sonho de uma Paris encantada, parada lá atrás na época do Bateau Lavoire, onde moravam os pintores e artistas, dos escritores americanos que viviam em Paris, de Dalí, Picasso, Josephine Baker, dos surrealistas e das belas mulheres, artistas ou não que viveram ali.
Eu insisti, porque sabia que alguém que vivera em Paris tantos anos, e que "vivera" Paris de verdade, e que gosta tanto de literatura e livros e arte não passaria incólume por um filme assim. Marcamos e nos encontramos lá. Como combinamos um horário muito antes da sessão de cinema, acabamos indo tomar algo antes, porque seria péssimo esperar duas horas no apertado anexo do Espaço Unibanco.
Um mojito sempre me deixa mais solta, e acabei contando minhas aventuras em Cuba, coisa que jamais conto a ninguém! E também a invasão do meu quarto em Nova Délhi (eu dormindo sem roupa, porque fazia muito calor. Uma confusão do hotel trouxe de madrugada um casal de malas e cuia para o meu quarto. Eu acordei, sem roupa, e o casal de Singapura estava lá, em frente da minha cama. Luz acesa, o funcionário do hotel com a chave na mão e a outra mão no interruptor, o olhar congelado em mim. O marido congelado também e a mulher chocada, empurrando para fora marido, malas, funcionário, e eu em vão tentando me cobrir com um frágil lençol e perguntando aos berros o que estava acontecendo!!... patético.) Sou muito fechada e discreta, amoitada mesmo, como dizem, mas um mojito tem poderes mágicos e afrodisíacos em mim... Portanto, o mundo se tornou mais lindo e aquele rum com soda e folhas de hortelã me deixaram com os sentidos mais antenados e aguçados para ver novamente, e agora sim de verdade, Meia-noite em Paris. Assim... como se fosse um preâmbulo para tudo que viria.
Pois às 20h, quando me sentei na poltrona, eu já era outra Sandra, não a mesma comportada e delicada que assistira ao filme meses antes. Os canais estavam abertos, estava solta, nada de tensão, e eu queria entrar dentro da tela e "ser" a selvagem Josephine Baker... O humor woodalliano me tocou mais forte desta vez e eu ri, despretensiosa. A literatura me emocionou mais, pudera, eu estava sentada ao lado de quem sabe e gosta, isso faz a diferança. Queria ler de novo: Suave é a noite, de Fitzgerald. Por quem os sinos dobram, de Hemingway, ouvir Cole Porter e Josephine Baker mais vezes, olhar mais meus livros da obra de Matisse...
E, como eu previra, Meia-noite em Paris atingiu diretamente os sentidos e sentimentos do passaporte francês à minha esquerda (eu sabia!). É impossível alguém sensível e repleto de conhecimento não se emocionar ao flanar novamente naquelas cenas às margens do Sena, na companhia de Scott Fitzgerald, Dalí, Gertrud Stein, Picasso, Cole Porter e toda uma prole criativa de uma época bela e de ebulição cultural -- na verdade, a beleza de um passado ao qual não pertencemos e não temos mais acesso, exceto por relatos e livros e obras. E é impossível não de reapaixonar por Paris, a cidade-luz. Sempre.
Moral da história: quando uma mulher quiser mudar seu roteiro, simplesmente aceite, não titubeie. Ela definitivamente sabe o que está fazendo. Que o diga Amélia, da ópera Amélia vai ao baile, do italiano Gian Carlo Menotti. (Quando uma mulher quer ir ao baile, ela simplemente vai, não importam os meios. Não ouse tentar dissuadi-la)

sábado, 1 de outubro de 2011

Lições de vida: Erico Verissimo

"(...) Só a vida ensina a viver. É preciso a gente ver primeiro tudo o que a vida tem de mau e de sórdido para depois podermos descobrir o que ela tem de belo e de bom, de profundamente bom. (...)"

(Erico Verissimo. In Olhai os lírios do campo.)