Muita gente sabe que adoro a culinária japonesa, aquela arte milenar de decorar o prato com montinhos pequenos de vegetais cortados pequeníssimos, ervas raladas e aromáticas ao lado perfumando o prato, um peixe cortado de um modo diferente e grelhado de uma forma ou cru no meio disso tudo.
Meu ex-marido gostava muito do Suntory, e íamos às vezes lá quando sobrava um extra. Mas era algo raro, só em dias de festa ou comemoração.
Quando namorávamos, nosso namoro-relâmpago, logo que começamos ele me levou lá (para me impressionar, eu acho -- deve ter gastado grande parte de seu salário, tadinho... na época), e nunca mais se cansou de contar a história de que me assustei quando me ofereceram a toalha quentíssima para higienizar as mãos.
Bem, eu fui gostando cada vez mais da culinária japonesa. Infelizmente isso não ocorre com a chinesa.
Ainda casada, fizemos uma viagem ao Japão, e lá pude realmente conhecer de perto muitos pratos que não conheceria aqui. Na casa das pessoas que conheci, elas cozinhavam aqueles pratos típicos, que aprenderam com a família. Pasteizinhos recheados de alho, tempuras dos mais variados peixes e legumes e camarões. Tudo muito aromático e bonito, porções pequenas, tudo arranjado delicadamente nos pratos. As sopas então, aquele gosto forte de peixe seco em flocos, eu gosto. Os bentôs (uma espécie de "marmita, uma caixinha de madeira, com compartimentos, e alguns tipo de comida nela) que se compram no metrô ou na estação de trem, e pode-se se comer no vagão sem nenhum problema.
Lembro de um shopping em Tóquio, todo subeterrâneo, eram muitos os andares. Na área da gastronomia, cada andar era dedicado a um tipo de comida. Por exemplo, me lembro bem: um andar inteiro desse shopping era todo devotado a sobremesas. Mas, caros leitores, não eram meras sobremesas, meros doces. Imaginem os doces mais bonitos, mais bem ornados, decorados. Os chocolates mais deliciosos em forma de um laço, as tortinhas com as frutas mais delicadas em cascata. Uma parte era destinada aos doces típicos orientais, mas a maior parte da área era preenchida por confeitaria francesa. Eu havia estudado um ano antes em Paris, e tudo que havia visto lá nas vitrines daquelas patisseries maravilhosas, estava vendo agora ali, naquele andar bem abaixo da terra, que me causava certo medo por causa dos terremotos, os dishins que eles tanto mencionam, mas que é um lugar de sonho para quem gosta de açúcar.
No Japão provei diversos tipos de saquê. Mas claro que sei que não conheci a mínima parte do que a culinária japonesa pode oferecer. Mas saboreei tudo que pude, sorvendo cada detalhe. Tanto que, ao voltar do Japão, depois de um mês, eu tinha cerca de 5 quilos a mais na balança.
Ao longo dos anos, volta e meia vou a um restaurante japonês, mas é totalmente diferente do que experimentei por lá, claro...
Recentemente, nos últimos anos, não tenho frequentado restaurantes japoneses, por razões que a própria razão desconhece... mas penso que está no momento de voltar a exercer o doce prazer da comida japonesa.
Sincronicamente, eis que me surge às mãos um trabalho em um livro de culinária japonesa. São receitas do proprietário-chef de um restaurante descolado que, de tão estrelado, abriu algumas filiais ao redor do mundo, mas poucas, porque o olho do dono está em tudo nessa empreitada, inclusive nesse livro. As reservas são muito disputadas e nada menos do que Robert de Niro faz parte da lenda do império que se ergueu ao redor da alta culinária empreendida nesse restaurante.
Trabalhar em algo assim é prazer... Primeiro, concluí ao longo do trabalho que realmente sou quase vegetariana. Só me apetecem as saladas, os grelhados de legumes e de alguns peixes (só alguns, sobretudos os peixes de carne branca), os salteados, os assados que levam muitos legumes. Nada de frituras ou carne de porco ou carnes vermelhas. Estou vegetariana mesmo.
As receitas parecem deliciosas e, para quem gosta e está acostumado a cozinhar digamos "alta" culinária não será difícil seguir os passos descritos com simplicidade e praticidade pelo mestre. Para mim, que sou mais leiga em cozinha, talvez os peixes tenham que vir cortados para facilitar, por exemplo. Mas preparar a receita não seria um problema.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o capítulo destinado aos coquetéis -- os drinks! Sim. Eu me senti numa banheira de espuma, e como se um garçom fosse me servindo cada um dos coquetéis descritos ali. Parecem tão originais, tão maravilhosos, tão cheios de propriedade e deliciosos que eu que não sou adepta de drinks fiquei com água na boca para provar cada um deles...
Não vou adiantar aqui quais são eles, pois o livro ainda está em produção, mas sem dúvida a editora deverá colocar alguns no site para o leitores mais apressados.... Assim que for lançado o livro, indicarei aqui no blogue para que vocês possam ser Tom Cruise por um dia e fazer seu Cock-tail. Adoro esta palavra em inglês...
As pessoas às vezes me perguntam se não me canso de trabalhar nessa área, a de livros. Como eu poderia?... Um dia estou entre drinques e coquetéis, disputando reservas em um restaurante japonês descolado. No outro estou em uma cidade do mundo, trabalhando em um guia de viagem. Um dia, fone nos ouvidos, sigo as legendas de um vídeo histórico sobre a construção de Brasília: minha missão era acertar as legendas escritas de acordo com a narração. Foi incrível! Aquela voz dos narradores dos anos 60 nos ouvidos, aquela linguagem que me lembrou a infância. Certa vez, me vi entre dois tomos de Os miseráveis, de Victor Hugo... O livro de Godard. Fico feliz de pensar que participei da publicação dos manuscritos de Ana Cristina Cesar. Em outro momento, posso estar trabalhando em um livro infantil, ou um livro didático qualquer. Depois, pode vir um crème de la crème: uma revista de arte e literatura, por exemplo (é raro, mas acontece). E nos píncaros, quando tudo dá certo, posso estar perdida num livro de fotos, de arquitetura, ou num livro de arte, num livro de aquarelas, num livro de literatura, ou ainda num guia de alguma exposição ou de uma mostra de cinema...
Posso me queixar do meu trabalho?
Quando se tem prazer e se ganha para isso, posso dizer que isso é tirar a sorte grande. Como diria Moreira da Silva: "Etelvina, acertei no milhar". E lembrar Moreira da Silva me fez lembrar a Lapa, que me fez lembrar o Rio... e suas praias.
Sandra Brazil / Literatura, poemas, contos, crônicas, cinema, viagens. O título deste blogue se refere à poeta grega Safo de Lesbos e sua filha Cleïs, a quem ela dedicou o belo poema "O tesouro".
Quem sou eu
- Sandra Brazil
- No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.
terça-feira, 6 de setembro de 2011
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Um outro olhar da Paulista
É plena segunda-feira, mas por ter trabalhado no fim de semana, meu dou o luxo de "me montar" e ir a um compromisso na avenida-corredor-financeiro do nosso país.
Mas, para nós, paulistanos, a Paulista tem vários significados além de artéria econômica: cinema, espaços culturais, cafés, restaurantes, tudo em meio àquelas caixas de concreto ornadas de vidros espelhados, que esquentam muito no calor e esfriam muito no inverno.
Num dia lindo de sol e céu azul como hoje, a Paulista é uma praia para nós, desprovidos de lugares abertos para caminhar, exceto pelos parques e alguns raros outros. (É por isso que escrevo tanto sobre o Rio de Janeiro, e gosto tanto dessa cidade.)
Pois me encaminhei a meu destino, em plena segunda-feira. Como me esperavam, não quis me atrasar. Fiz um caminho mais curto e saí mais cedo, sabia que o trânsito poderia estar caótico.
Pois que cheguei na hora, até um pouco adiantada, então resolvi dar uma caminhada por minha velha conhecida. Estacionei e fui caminhando e vendo e observando as pessoas, o trânsito, o comportamento, pois eu já tinha entregado meu trabalho, estava livre e tinha tempo para isso.
As pessoas andam num passo acelerado, quase correm, e não se olham, sequer quando param para atravessar a rua e esperar o farol abrir para elas. Estão com o rosto tenso, parecem preocupadas com algo que ainda falta fazer e não vai dar tempo. (Deve ser esse meu rosto quando saio para almoçar todos os dias...) As mulheres atam a mão e o braço fortemente à bolsa e vez por outra espiam à direita e à esquerda, olhando para trás, imagino que para ver se há alguém suspeito, querendo roubar seus pertences ou sua bolsa. Uma tensão constante no ar.
Os homens são mais relaxados. (Acho que é porque não carregam bolsas e seus milhões de pertences internos...)
Os idosos são um caso à parte. Eles são os únicos a caminhar devagar, sem pressa, a olhar ao redor com calma, a observar. Num tempo diferente dos adultos, crianças e jovens, sim, porque as crianças hoje são chamadas à roda-viva do estresse também, com seus afazeres e agenda diária que os pais lhes impõem.
Uma moça passa com um cachorrinho. Ela anda apressada, o cachorrinho está passeando (ou sendo passeado, não sei...), mas tem que correr, porque ela tem muita pressa. Ele não consegue acompanhar o passo da moça, então acaba sendo arrastado pela coleira... Passeio micado para ele e para ela, imagino.
Vejo uma mãe passar com um carrinho de bebê. Ela vai para uma sombra e tira de uma bolsa uma mamadeira com água. Num ritmo que só mães em licença-maternidade têm. Degavar, ela pega o bebê no colo, dá a água sem pressa, limpa a boquinha com cuidado com uma fralda limpíssima. Volta tudo para a bolsa. Volta o bebê para o carrinho. Em velocidade 0,5, volta a seu passeio com seu "milagre da natureza".
Isso me fez lembrar de quando minha filha Isadora nasceu. Eu fazia a mesma coisa. Até ela fazer uns dois anos, apesar de meus inúmeros afazeres de faculdade, trabalhos freelancer, eu me permitia dar dois passeios com ela no dia (às vezes era possível apenas um, paciência). Quando ela começou a caminhar, lá íamos nós, ela sempre levava uma bonequinha, e íamos conversando a linguagem dos bebês... Confesso que ter visto essa cena me trouxe uma saudade imensa da minha filha nessa idade tenra e deliciosa das crianças, quando elas são absolutamente próximas de nós, as mães, tão próximas que nós não sabemos onde terminamos e onde elas começam, se um dia nos desgrudaremos e seremos nós mesmas de novo... hoje eu sei.
Bom, a mamãe se foi. Olho o relógio do celular! Toca minha campainha interna: Ben! Estou atrasada! Esse é meu normal... Portanto, não causarei surpresa nem espanto nem raiva. Mas são só 5 minutos.
Corro até meu compromisso. Ufa! Cheguei apenas 8 minutos atrasada.
Mas acabo de pensar que nesse trajeto, eu acabei me tornando exatamente as pessoas que vinha observando: corri, não olhei ninguém, sequer no farol, não olhei o entorno. Eu me tornei o autômato que vinha descrevendo.
Cheguei à seguinte conclusão: as pessoas, como eu, estão sempre atrasadas... Talvez seja isso. (Prefiro acreditar nisso.)
Bem, compromisso finito, o dia continua lindo, caminho um tanto para pegar o carro. Paro num café, está lotado, as mesas são na calçada. As pessoas parecem felizes com esse calor que surgiu.
E a Paulista parece mais uma praia, com gente alegre, amigos tomando chopp, cerveja, bebidas geladas, todos tirando a gravata, o paletó. As mulheres de vestido.
Sem dúvida, é impossível passar incólume a essa imagem da Paulista: cheia de pessoas, vestidos, sandálias, cores, sorrisos, ela deixa de ser o corredor de concreto e dinheiro a que estamos acostumados.
Mas, para nós, paulistanos, a Paulista tem vários significados além de artéria econômica: cinema, espaços culturais, cafés, restaurantes, tudo em meio àquelas caixas de concreto ornadas de vidros espelhados, que esquentam muito no calor e esfriam muito no inverno.
Num dia lindo de sol e céu azul como hoje, a Paulista é uma praia para nós, desprovidos de lugares abertos para caminhar, exceto pelos parques e alguns raros outros. (É por isso que escrevo tanto sobre o Rio de Janeiro, e gosto tanto dessa cidade.)
Pois me encaminhei a meu destino, em plena segunda-feira. Como me esperavam, não quis me atrasar. Fiz um caminho mais curto e saí mais cedo, sabia que o trânsito poderia estar caótico.
Pois que cheguei na hora, até um pouco adiantada, então resolvi dar uma caminhada por minha velha conhecida. Estacionei e fui caminhando e vendo e observando as pessoas, o trânsito, o comportamento, pois eu já tinha entregado meu trabalho, estava livre e tinha tempo para isso.
As pessoas andam num passo acelerado, quase correm, e não se olham, sequer quando param para atravessar a rua e esperar o farol abrir para elas. Estão com o rosto tenso, parecem preocupadas com algo que ainda falta fazer e não vai dar tempo. (Deve ser esse meu rosto quando saio para almoçar todos os dias...) As mulheres atam a mão e o braço fortemente à bolsa e vez por outra espiam à direita e à esquerda, olhando para trás, imagino que para ver se há alguém suspeito, querendo roubar seus pertences ou sua bolsa. Uma tensão constante no ar.
Os homens são mais relaxados. (Acho que é porque não carregam bolsas e seus milhões de pertences internos...)
Os idosos são um caso à parte. Eles são os únicos a caminhar devagar, sem pressa, a olhar ao redor com calma, a observar. Num tempo diferente dos adultos, crianças e jovens, sim, porque as crianças hoje são chamadas à roda-viva do estresse também, com seus afazeres e agenda diária que os pais lhes impõem.
Uma moça passa com um cachorrinho. Ela anda apressada, o cachorrinho está passeando (ou sendo passeado, não sei...), mas tem que correr, porque ela tem muita pressa. Ele não consegue acompanhar o passo da moça, então acaba sendo arrastado pela coleira... Passeio micado para ele e para ela, imagino.
Vejo uma mãe passar com um carrinho de bebê. Ela vai para uma sombra e tira de uma bolsa uma mamadeira com água. Num ritmo que só mães em licença-maternidade têm. Degavar, ela pega o bebê no colo, dá a água sem pressa, limpa a boquinha com cuidado com uma fralda limpíssima. Volta tudo para a bolsa. Volta o bebê para o carrinho. Em velocidade 0,5, volta a seu passeio com seu "milagre da natureza".
Isso me fez lembrar de quando minha filha Isadora nasceu. Eu fazia a mesma coisa. Até ela fazer uns dois anos, apesar de meus inúmeros afazeres de faculdade, trabalhos freelancer, eu me permitia dar dois passeios com ela no dia (às vezes era possível apenas um, paciência). Quando ela começou a caminhar, lá íamos nós, ela sempre levava uma bonequinha, e íamos conversando a linguagem dos bebês... Confesso que ter visto essa cena me trouxe uma saudade imensa da minha filha nessa idade tenra e deliciosa das crianças, quando elas são absolutamente próximas de nós, as mães, tão próximas que nós não sabemos onde terminamos e onde elas começam, se um dia nos desgrudaremos e seremos nós mesmas de novo... hoje eu sei.
Bom, a mamãe se foi. Olho o relógio do celular! Toca minha campainha interna: Ben! Estou atrasada! Esse é meu normal... Portanto, não causarei surpresa nem espanto nem raiva. Mas são só 5 minutos.
Corro até meu compromisso. Ufa! Cheguei apenas 8 minutos atrasada.
Mas acabo de pensar que nesse trajeto, eu acabei me tornando exatamente as pessoas que vinha observando: corri, não olhei ninguém, sequer no farol, não olhei o entorno. Eu me tornei o autômato que vinha descrevendo.
Cheguei à seguinte conclusão: as pessoas, como eu, estão sempre atrasadas... Talvez seja isso. (Prefiro acreditar nisso.)
Bem, compromisso finito, o dia continua lindo, caminho um tanto para pegar o carro. Paro num café, está lotado, as mesas são na calçada. As pessoas parecem felizes com esse calor que surgiu.
E a Paulista parece mais uma praia, com gente alegre, amigos tomando chopp, cerveja, bebidas geladas, todos tirando a gravata, o paletó. As mulheres de vestido.
Sem dúvida, é impossível passar incólume a essa imagem da Paulista: cheia de pessoas, vestidos, sandálias, cores, sorrisos, ela deixa de ser o corredor de concreto e dinheiro a que estamos acostumados.
sábado, 3 de setembro de 2011
Encontro das águas
Pôr de sol dourado atrás das árvores do parque. E ainda é todo nosso...
Não importa onde eu esteja, volto para apreciar o dia se despedindo e a noite chegar com seus pedidos.
É como ver o encontro das águas entre o rio Solimões e o Negro. Espetáculo da natureza. Você não sabe onde um começa e onde o outro termina, não consegue estabelecer limites.
Assim é o encontro rápido do dia com a noite. Não é possível dizer aqui terminou o dia, aqui chegou a noite. É algo suave, um encontro delicado e tênue, um se confundindo com o outro. Sem ao menos perceber, já se foi o dia, e a noite escura tomou posse e domínio do céu.
Como no encontro das águas, esse encontro no ocaso é belíssimo e misterioso, como as lendas da floresta, do Boitatá, da Iara e da Bartira. Só ouvindo e ficando em silêncio. E admirando com os olhos, que coisa mais bonita, não há.
Não importa onde eu esteja, volto para apreciar o dia se despedindo e a noite chegar com seus pedidos.
É como ver o encontro das águas entre o rio Solimões e o Negro. Espetáculo da natureza. Você não sabe onde um começa e onde o outro termina, não consegue estabelecer limites.
Assim é o encontro rápido do dia com a noite. Não é possível dizer aqui terminou o dia, aqui chegou a noite. É algo suave, um encontro delicado e tênue, um se confundindo com o outro. Sem ao menos perceber, já se foi o dia, e a noite escura tomou posse e domínio do céu.
Como no encontro das águas, esse encontro no ocaso é belíssimo e misterioso, como as lendas da floresta, do Boitatá, da Iara e da Bartira. Só ouvindo e ficando em silêncio. E admirando com os olhos, que coisa mais bonita, não há.
Sobre cristais e porcelanas II
Quando eu postei Sobre cristais e porcelanas não pensei na possibilidade de um dia ter que atualizá-lo, como nos filmes de Hollywood. Duro de matar 1, Duro de matar 2, 3, 4 etc. Mas de um ano para cá, a minha cristaleira ganhou alguns presentes e eu tive que apertar as xícaras da minha mãe e da minha avó e da minha sogra e da minha ex-cunhada e dos amigos e os presentes de minha filha e de meu pai para poder dar espaço a esses mimos novos.
Não foram muitos, mas o suficente para me deixar muito feliz.
Em Lisboa, já contei aqui no blogue na postagem Alfama, ginginha e saudade da Maria que tive uma sinusite do cão e aproveitei mal a viagem, porque a febre me consumia. Talvez por isso, num dia em que resolvi ficar no hotel durante a manhã para não sair na chuva e piorar meu estado, depois do almoço me chegou um pacotinho às mãos.
Fiquei pensando: nossa, um presentinho... até minha febre deu uma trégua, e fui abrindo as várias folhas de papel pardo e depois o plástico bolha. Os portugueses fazem uns embrulhos de presente trash, creiam! Quando enfim cheguei ao miolo do pacote dei de cara com uma xícara de café pintada a mão, de Alcobaça. Muito bonita. Fundo pérola, motivos pintados em azul, amarelo e vermelho. Aí perguntei: "por que este presentinho. Já ganhei tantos durante esta viagem". "Ah, você está tão triste com essa febre, tão sem vontade de sair, que resolvi fazer uma surpresa". E surtiu efeito. À noite, eu estava melhor, e pude sair e me divertir numa cervejaria antiga de Lisboa. Alguns presentes têm esse efeito em nós. Cheios de intenção, eles às vezes nos curam.
Noutra vez, já no último dia da viagem, em frente de uma loja que vendia aquelas porcelanas chiques de Limoges (que confesso, acho lindas, mas só tenho uma, que comprei na praça Benedito Calixto, pois são muito caras), ouvi assim: "vamos entrar. Só pra ver". Entrei.
Tinha coisas lindas, mas a preços indizíveis. Eu disse: "esta loja está abusando. Tudo muito caro. Vamos".
Mas, num canto da loja havia um mostrador com suportes de vela com uma cúpula, como se fosse um superminiabajur. A base de porcelana, a cúpula de uma porcelana finíssina, como se fosse uma casquinha de ovo. Surpreendentemente, naquele mostrador, os preços estavam de acordo, e eu ouvi: "Escolha um. Quero dar um desses de presente pra você".
Eu dei um passo para trás, apesar de o preço ser módico e comprável, respondi que não precisava, que talvez houvesse outro lugar com preços mais acessíveis para se comprar um presente. Insistente: "Escolha, se não, eu vou escolher, e pode não ser do seu gosto ou não combinar com sua sala...".
Vi de novo o preço (não sei ser presenteada, fico sem graça, sobretudo se vejo o preço do presente, mesmo que seja módico, como era o caso), achei que cabia no bolso, inclusive no meu, então, escolhi: uma base de fundo branco com motivos laranja e azul aquarelado de motivos orientais. A pequena cúpula em altos e baixos-relevos mostra cenas de personagens orientais em um jardim cheio de bancos, juncos, flores, cerejeiras. O conjunto todo cabe entre minhas duas mãos, tão delicado é. Você põe a vela sobre a porcelana, acende e compõe com a cúpula. Pronto, você tem um jardim oriental iluminado em sua mesa de centro ou de jantar. É uma pecinha muito bonita.
Recentemente, ganhei um copinho de tomar tequila, motivos turísticos de San Francisco: Golden gate, bondinho etc., em cores superalegres.
Abri espaço na cristaleira para mais estas 3 peças.
Elas ficam ali, silenciosas, coloridas, como as tantas outras que contam detalhes: a xícara de Alcobaça que promoveu uma espécie de cura, a porcelana rara que queria ser minha a todo custo (quem imaginaria). Essas pequenas peças, mágicas, cheias de propriedade, delicadas que compõem minha história no mundo. A história de uma Sandra que poucas pessoas conhecem.
Não foram muitos, mas o suficente para me deixar muito feliz.
Em Lisboa, já contei aqui no blogue na postagem Alfama, ginginha e saudade da Maria que tive uma sinusite do cão e aproveitei mal a viagem, porque a febre me consumia. Talvez por isso, num dia em que resolvi ficar no hotel durante a manhã para não sair na chuva e piorar meu estado, depois do almoço me chegou um pacotinho às mãos.
Fiquei pensando: nossa, um presentinho... até minha febre deu uma trégua, e fui abrindo as várias folhas de papel pardo e depois o plástico bolha. Os portugueses fazem uns embrulhos de presente trash, creiam! Quando enfim cheguei ao miolo do pacote dei de cara com uma xícara de café pintada a mão, de Alcobaça. Muito bonita. Fundo pérola, motivos pintados em azul, amarelo e vermelho. Aí perguntei: "por que este presentinho. Já ganhei tantos durante esta viagem". "Ah, você está tão triste com essa febre, tão sem vontade de sair, que resolvi fazer uma surpresa". E surtiu efeito. À noite, eu estava melhor, e pude sair e me divertir numa cervejaria antiga de Lisboa. Alguns presentes têm esse efeito em nós. Cheios de intenção, eles às vezes nos curam.
Noutra vez, já no último dia da viagem, em frente de uma loja que vendia aquelas porcelanas chiques de Limoges (que confesso, acho lindas, mas só tenho uma, que comprei na praça Benedito Calixto, pois são muito caras), ouvi assim: "vamos entrar. Só pra ver". Entrei.
Tinha coisas lindas, mas a preços indizíveis. Eu disse: "esta loja está abusando. Tudo muito caro. Vamos".
Mas, num canto da loja havia um mostrador com suportes de vela com uma cúpula, como se fosse um superminiabajur. A base de porcelana, a cúpula de uma porcelana finíssina, como se fosse uma casquinha de ovo. Surpreendentemente, naquele mostrador, os preços estavam de acordo, e eu ouvi: "Escolha um. Quero dar um desses de presente pra você".
Eu dei um passo para trás, apesar de o preço ser módico e comprável, respondi que não precisava, que talvez houvesse outro lugar com preços mais acessíveis para se comprar um presente. Insistente: "Escolha, se não, eu vou escolher, e pode não ser do seu gosto ou não combinar com sua sala...".
Vi de novo o preço (não sei ser presenteada, fico sem graça, sobretudo se vejo o preço do presente, mesmo que seja módico, como era o caso), achei que cabia no bolso, inclusive no meu, então, escolhi: uma base de fundo branco com motivos laranja e azul aquarelado de motivos orientais. A pequena cúpula em altos e baixos-relevos mostra cenas de personagens orientais em um jardim cheio de bancos, juncos, flores, cerejeiras. O conjunto todo cabe entre minhas duas mãos, tão delicado é. Você põe a vela sobre a porcelana, acende e compõe com a cúpula. Pronto, você tem um jardim oriental iluminado em sua mesa de centro ou de jantar. É uma pecinha muito bonita.
Recentemente, ganhei um copinho de tomar tequila, motivos turísticos de San Francisco: Golden gate, bondinho etc., em cores superalegres.
Abri espaço na cristaleira para mais estas 3 peças.
Elas ficam ali, silenciosas, coloridas, como as tantas outras que contam detalhes: a xícara de Alcobaça que promoveu uma espécie de cura, a porcelana rara que queria ser minha a todo custo (quem imaginaria). Essas pequenas peças, mágicas, cheias de propriedade, delicadas que compõem minha história no mundo. A história de uma Sandra que poucas pessoas conhecem.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Surpresas clicam em meu blogue
Eu sou meio "manezinha" para aparatos cibernéticos, eletrônicos e afins... Tenho vergonha de admitir, mas resisto um pouco para me atualizar. Por exemplo, gosto de Cds ainda. Esse negócio De pôr 15 mil músicas numa engenhoquinha que cabe na minha mão me tira a vontade de ouvir música, acreditem! Eu teria preguiça de procurar entre as 15 mil... tenho que procurar nos Cds.
Então, tendo que trocar meu aparelho de som, vou trocar por um que tenha saída paras as engenhoquinhas, que minha filha usará, e para Cds, que coleciono aos montes.
(Aliás, enquanto escrevo, o céu está lindo. O pôr de sol está bem amarelo e está dizendo adeus pra mim aqui... Podem perceber que meu vizinho ainda não deu início a subir seu concreto e tapar minha visão deslumbrante e diária do céu da cidade... Todos os dias, apesar da poluição, me despeço do dia aqui do escritório e dou entrada na noite. É uma sensação de ter as rédeas do seu tempo e da sua janela.)
Bem, para se ter uma ideia, estou tentanto aprender como colocar imagens no blogue para tornar mais bonito e mais interessante o visual e o contexto, mas tento sozinha e vou no erro e acerto. Mané total. Um dia, vocês verão uma imagenzinha aí.
Também não sou o tipo de pessoa que fica fuçando para tentar conhecer, então, demora mais tempo para eu conhecer as ferramentas. Portanto, exceto pelas coisas do meu trabalho, para as quais tento me manter atualizada, porque aí é necessário, o restante é assim, lento como um realejo.
(Bom, agora o dourado da tarde despejou sua cor e o escritório está todo iluminado. É uma sensação de ter o sol aqui dentro, por alguns poucos instantes, porque logo ele desaparecerá.)
Bem, sei que há alguns dias, fui ver as estatísticas do blogue e descobri (Eureca!) que meu blogue tem sido acessado de outros países. Claro que sei que pode ter sido uma busca que erroneamente caiu no meu site, mas, em alguns casos, pelo número, pode ser que não. Mas o que quero dizer é que o interessante é que foi necessário eu entrar nessas estatísticas para ter a curiosidade de descobrir onde fica Belize, por exemplo, do qual houve 17 acessos... País que foi chamado também de Honduras Britânicas e fica ao norte do México! Dá-lhe geografia...
Agora a grande surpresa ficou por conta de um acesso estranhíssimo, que deve ter-se enganado achando que o meu era um site de coisas eróticas, sim, porque muitas vezes alguns sites que mencionam Safo e Lesbos trazem prazeres mundanos... Bem, o acesso veio da Ucrânia. Mas foi único. Provavelmente algum desavisado procurando alguma Safo mundana imagino... Deve ter ficado desapontado ao cair aqui!
Outros acessos vieram dos estados Unidos, Alemanha, Holanda, da Espanha e Canadá e, pasmem, Índia e Irã, em número significativo. Mas claro que o número mais significativo de todos é brasileiro e há bons acessos de Portugal também, talvez por conta de um texto sobre Alfama e por eu ter enviado o link a alguns cidadãos da terra.
Portanto, essa minha alegriazinha de sexta-feira com o acesso dos portugas se uniu a este céu avermelhado que vai anoitecendo aqui na minha janela enquanto vou concluindo este texto.
Em alguns meses, quando o prédio chiquérrimo vizinho subir, vão me tirar esta vista linda, mas jamais vão arrancar a lembrança desta sexta, deste pôr de sol, desta surpresa de geografias estrangeiras clicando em meu blogue.
Então, tendo que trocar meu aparelho de som, vou trocar por um que tenha saída paras as engenhoquinhas, que minha filha usará, e para Cds, que coleciono aos montes.
(Aliás, enquanto escrevo, o céu está lindo. O pôr de sol está bem amarelo e está dizendo adeus pra mim aqui... Podem perceber que meu vizinho ainda não deu início a subir seu concreto e tapar minha visão deslumbrante e diária do céu da cidade... Todos os dias, apesar da poluição, me despeço do dia aqui do escritório e dou entrada na noite. É uma sensação de ter as rédeas do seu tempo e da sua janela.)
Bem, para se ter uma ideia, estou tentanto aprender como colocar imagens no blogue para tornar mais bonito e mais interessante o visual e o contexto, mas tento sozinha e vou no erro e acerto. Mané total. Um dia, vocês verão uma imagenzinha aí.
Também não sou o tipo de pessoa que fica fuçando para tentar conhecer, então, demora mais tempo para eu conhecer as ferramentas. Portanto, exceto pelas coisas do meu trabalho, para as quais tento me manter atualizada, porque aí é necessário, o restante é assim, lento como um realejo.
(Bom, agora o dourado da tarde despejou sua cor e o escritório está todo iluminado. É uma sensação de ter o sol aqui dentro, por alguns poucos instantes, porque logo ele desaparecerá.)
Bem, sei que há alguns dias, fui ver as estatísticas do blogue e descobri (Eureca!) que meu blogue tem sido acessado de outros países. Claro que sei que pode ter sido uma busca que erroneamente caiu no meu site, mas, em alguns casos, pelo número, pode ser que não. Mas o que quero dizer é que o interessante é que foi necessário eu entrar nessas estatísticas para ter a curiosidade de descobrir onde fica Belize, por exemplo, do qual houve 17 acessos... País que foi chamado também de Honduras Britânicas e fica ao norte do México! Dá-lhe geografia...
Agora a grande surpresa ficou por conta de um acesso estranhíssimo, que deve ter-se enganado achando que o meu era um site de coisas eróticas, sim, porque muitas vezes alguns sites que mencionam Safo e Lesbos trazem prazeres mundanos... Bem, o acesso veio da Ucrânia. Mas foi único. Provavelmente algum desavisado procurando alguma Safo mundana imagino... Deve ter ficado desapontado ao cair aqui!
Outros acessos vieram dos estados Unidos, Alemanha, Holanda, da Espanha e Canadá e, pasmem, Índia e Irã, em número significativo. Mas claro que o número mais significativo de todos é brasileiro e há bons acessos de Portugal também, talvez por conta de um texto sobre Alfama e por eu ter enviado o link a alguns cidadãos da terra.
Portanto, essa minha alegriazinha de sexta-feira com o acesso dos portugas se uniu a este céu avermelhado que vai anoitecendo aqui na minha janela enquanto vou concluindo este texto.
Em alguns meses, quando o prédio chiquérrimo vizinho subir, vão me tirar esta vista linda, mas jamais vão arrancar a lembrança desta sexta, deste pôr de sol, desta surpresa de geografias estrangeiras clicando em meu blogue.
Odes de Ricardo Reis
FERNANDO
PESSOA
--------------------------------------------------------------------------------
Odes de
Ricardo Reis
--------------------------------------------------------------------------------
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1-7-1916
PESSOA
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Odes de
Ricardo Reis
--------------------------------------------------------------------------------
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
Ricardo Reis, 1-7-1916
O sorriso e a ginga de Nelson Correa da Silva
Numa das vezes que fui a Santa Tereza de bondinho, estava na fila da Babel, alegre e conversadeira, rindo e gargalhando, e ouvi alguém gritar numa voz alegre, típica dos cariocas, em meio àquele calor violento que exaure, naquele sotaque cheio de chiados bom de se ouvir por algum tempo:
-- Cabe mais dois! Vamos lá! Corre... -- era o condutor (descobri que é assim que se diz) do bondinho.
Corremos e subimos no estribo. Perguntamos: "Mas onde?!" O bonde estava cheíssimo, lotado nos bancos e nos estribos. O condutor então disse "fiquem aqui, pertinho de mim, os dois", e sorriu sedutor, meio malicioso e com ginga, mas um sorriso de rosto cansado, pronto pra tocar mais um trajeto do comboio.
Como estava muito apertado, eu acabei ficando em pé, próxima da janela, mas meio na frente de quem estava sentado à esquerda. Antes de sair, ele me pediu: "Senhora, vamos ficar bem coladinho à esquerda pra minhas amigas aqui sentadas não perderem a vista..." E sorriu. O bonde aberto, correndo no alto, meu medo de altura, meu medo daquele bondinho que eu sabia não ser lá uma brastemp de manutenção (mas não tinha ideia de que o buraco ia mais embaixo)... Mas ele pediu com tanto jeito e sorrisos que, quando vi, estava no alto dos arcos, colada no vão aberto do bondinho, agarrada sei lá em quê, vendo seu rosto sério, o sorriso desfeito naquele momento, e ele ali, nos conduzindo naquele trajeto cartão-postal, mas perigoso.
Fechei os olhos, coisa de gente medrosa. Mas ouvi: "San-San, olha nosso bar lá embaixo", e abri os olhos, mas só um pouquinho. Vi o sórdido cheio de azulejos ao redor, e ri, um riso nervoso, mas gostei, adrenalina.
O nosso alegre e responsável condutor voltou a sorrir subindo as ruas do bairro. Simpático, as pessoas faziam perguntas, ele respondia, mas sempre olhos cravados para a frente, mãos firmes no timão daquela engenhoca -- que ele sabia que tinha uma bomba-relógio nas mãos, nós que não sabíamos direito disso. Engraçado, ao longo do trajeto dos arcos, ele ficou tenso, e só silêncio. Só voltou à ginga e a responder aos turistas nas paradas e aqui e ali ao longo do bairro nos trajetos mais lentos, em que o bonde talvez desse mais segurança, não sei, estou supondo.
A cada descida nas paradas, tamanha simpatia tinha sua retribuição com sorrisos, adeus, ou "quero descer ao centro do Rio com você!", obrigada!, foi ótimo! etc. Ele parecia um pouco aliviado e recompensado pelos sorrisos e despedidas cheias de carinho e agradecimentos. Merecidos: por saber lidar conosco, os turistas, e por ter nos levado até ali naquele trajeto certamente cheio de perigos que um bonde deve ter.
Hoje de manhã, vendo com mais atenção a foto do condutor do acidente trágico (e anunciado), reconheci o ilustre condutor que me levou daquela vez a Santa Tereza, que nos convidou para ir "a seu ladinho" e me pediu para "não tirar a vista das senhoras da primeira fila" -- o que foi muito justo.
Agora, algum tempo depois, entendi quando abri um olho e vi seu sorriso carioca se transformar num rosto tenso sobre os arcos da Lapa e aqui e ali nas ladeiras de Santa Tereza. Mas Nelson Correa da Silva, o alegre e simpático condutor que me levou com segurança naquele dia a meu destino, certamente deve ter, ao longo de seus tantos anos ali, evitado tragédias naqueles bondinhos, assim como outros colegas de profissão.
Não me surpreende agora, depois de tanto lermos e vermos sobre o estado dos bondinhos, alardeados já há tanto tempo na mídia e desmentidos pelas autoridades, essas mesmas autoridades repassarem à parte mais fraca da corda -- o condutor -- a culpa de um acidente que vinha se propagando há tempos, vide acidentes recentes acontecidos, que poderiam ser evitados com cuidados muito pequenos da manutenção, que não foram feitos -- por exemplo, a grade rompida nos arcos que levou à queda fatal do turista francês em junho deste ano.
Nelson Correa da Silva é vítima, caras autoridades do Rio de Janeiro, e herói, por tantos anos, provavelmente, ter feito manobras que evitaram outras tragédias. Pena o seu descaso -- das autoridades do Rio de Janeiro
-- ter feito vítimas fatais e ter levado o sorriso, a ginga e a graça de Nelson de todos nós.
-- Cabe mais dois! Vamos lá! Corre... -- era o condutor (descobri que é assim que se diz) do bondinho.
Corremos e subimos no estribo. Perguntamos: "Mas onde?!" O bonde estava cheíssimo, lotado nos bancos e nos estribos. O condutor então disse "fiquem aqui, pertinho de mim, os dois", e sorriu sedutor, meio malicioso e com ginga, mas um sorriso de rosto cansado, pronto pra tocar mais um trajeto do comboio.
Como estava muito apertado, eu acabei ficando em pé, próxima da janela, mas meio na frente de quem estava sentado à esquerda. Antes de sair, ele me pediu: "Senhora, vamos ficar bem coladinho à esquerda pra minhas amigas aqui sentadas não perderem a vista..." E sorriu. O bonde aberto, correndo no alto, meu medo de altura, meu medo daquele bondinho que eu sabia não ser lá uma brastemp de manutenção (mas não tinha ideia de que o buraco ia mais embaixo)... Mas ele pediu com tanto jeito e sorrisos que, quando vi, estava no alto dos arcos, colada no vão aberto do bondinho, agarrada sei lá em quê, vendo seu rosto sério, o sorriso desfeito naquele momento, e ele ali, nos conduzindo naquele trajeto cartão-postal, mas perigoso.
Fechei os olhos, coisa de gente medrosa. Mas ouvi: "San-San, olha nosso bar lá embaixo", e abri os olhos, mas só um pouquinho. Vi o sórdido cheio de azulejos ao redor, e ri, um riso nervoso, mas gostei, adrenalina.
O nosso alegre e responsável condutor voltou a sorrir subindo as ruas do bairro. Simpático, as pessoas faziam perguntas, ele respondia, mas sempre olhos cravados para a frente, mãos firmes no timão daquela engenhoca -- que ele sabia que tinha uma bomba-relógio nas mãos, nós que não sabíamos direito disso. Engraçado, ao longo do trajeto dos arcos, ele ficou tenso, e só silêncio. Só voltou à ginga e a responder aos turistas nas paradas e aqui e ali ao longo do bairro nos trajetos mais lentos, em que o bonde talvez desse mais segurança, não sei, estou supondo.
A cada descida nas paradas, tamanha simpatia tinha sua retribuição com sorrisos, adeus, ou "quero descer ao centro do Rio com você!", obrigada!, foi ótimo! etc. Ele parecia um pouco aliviado e recompensado pelos sorrisos e despedidas cheias de carinho e agradecimentos. Merecidos: por saber lidar conosco, os turistas, e por ter nos levado até ali naquele trajeto certamente cheio de perigos que um bonde deve ter.
Hoje de manhã, vendo com mais atenção a foto do condutor do acidente trágico (e anunciado), reconheci o ilustre condutor que me levou daquela vez a Santa Tereza, que nos convidou para ir "a seu ladinho" e me pediu para "não tirar a vista das senhoras da primeira fila" -- o que foi muito justo.
Agora, algum tempo depois, entendi quando abri um olho e vi seu sorriso carioca se transformar num rosto tenso sobre os arcos da Lapa e aqui e ali nas ladeiras de Santa Tereza. Mas Nelson Correa da Silva, o alegre e simpático condutor que me levou com segurança naquele dia a meu destino, certamente deve ter, ao longo de seus tantos anos ali, evitado tragédias naqueles bondinhos, assim como outros colegas de profissão.
Não me surpreende agora, depois de tanto lermos e vermos sobre o estado dos bondinhos, alardeados já há tanto tempo na mídia e desmentidos pelas autoridades, essas mesmas autoridades repassarem à parte mais fraca da corda -- o condutor -- a culpa de um acidente que vinha se propagando há tempos, vide acidentes recentes acontecidos, que poderiam ser evitados com cuidados muito pequenos da manutenção, que não foram feitos -- por exemplo, a grade rompida nos arcos que levou à queda fatal do turista francês em junho deste ano.
Nelson Correa da Silva é vítima, caras autoridades do Rio de Janeiro, e herói, por tantos anos, provavelmente, ter feito manobras que evitaram outras tragédias. Pena o seu descaso -- das autoridades do Rio de Janeiro
-- ter feito vítimas fatais e ter levado o sorriso, a ginga e a graça de Nelson de todos nós.
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