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No blogue escrevo meus próprios textos (contos, crônicas, poemas, prosa poética) e também sobre os mais variados assuntos: literatura, cinema, viagens, gastronomia, amenidades, humanidades, música. Tudo que me toca. E que possa tocar os leitores.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

O Sol por testemunha

Mais uma vez, fim de tarde. Em São Paulo. Em mim. Vou fechando o barraco do trabalho. Chega por hoje, são 17h48. Hoje não farei o bom serão de sempre. Meus olhos estão cansados de ler, de estabelecer imagens com texto, legendas e texto, e corrigir, e meu cérebro é uma massa turva de tanto tentar esclarecer os argumentos de frases sem sentido. De tentar ordenar aquilo que não tem ordem. De tentar dar sentido àquilo que não tem.
Preciso do vil metal para meus pequenos prazeres. Para meus grandes prazeres. Mas hoje me darei o pequeno prazer de interromper mais cedo a corrida do ouro, e duas gotas de Channel Chance, correrei o mundo.
O sol vermelho e gigante desses dias se perpetua hoje atrás do skyline. O Parque está em festa banhado por um dourado abençoado, derramado sobre as árvores que quase se deitam na terra. Por que ando tão obcecada pelo por do sol? Explico. Durante 15 anos tive o por do sol inteirinho para mim, uma vista privilegiada que poucos têm em São Paulo hoje. Metade do Parque da Água da Branca era meu (para meus olhos), o Pico do Jaraguá era meu ao longe, assim como muitos bairros da zona oeste, pequenininhos eu os via também. Pegasse um binóculo, poderia ver o que não queria até.
Meu escritório, em que trabalho há 11 anos, foi projetado todo para receber o banho desse sol abençoado de fim de tarde. Paro sempre para reverenciar e tomar um café expresso, e apreciar com calma todos correndo e eu, toda calmaria, aqui em cima, 15 andares, pedindo ao deus Sol que olhe por mim e agradecer a Deus tudo que tenho: meu trabalho abençoado com arte e livros, minha filha deliciosa, meus pais, irmãos e sobrinha, amigos queridos, minhas viagens, a vida que levo, cheia de prazeres que vou encaminhando devagar.
Pois agora, a força da grana derrubou uma série de sobradinhos ao lado do meu prédio. E sobe incólue um prédio de 17 andades que interceptará meu prazer visual. Todo. Olho agora para baixo, e vejo que a construção acelera já no 12o andar. Mais três estará aqui diante de mim, cobrindo todo meu prazer diário, que apreciei por anos a fio.
Então, nestes últimos tempos, como alguém que sabe que vai partir para sempre, aproveito cada gota no fim de tarde. Paro tudo, olho meu deus Sol se pondo, belíssmo. Ouro em pó se esgarçando para mim. Como se ele também soubesse que me perderá.
Esses finais de tarde originaram muitas coisas: poemas, crônicas, prosas, amor, êxtase, conversas com minha filha, conselhos ao telefone, com amigos, família, conversas profissionais. Tudo com o Sol por testemunha.
Saberei viver sem ele?

5 comentários:

  1. o poente hoje estava digno de você

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    1. Ciro... em inglês tem 'homesick'... eu estou 'poentesick'.... O prédio ao lado agora está um andar abaixo do meu. Que tristeza... Beijo. :-(((

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  2. repito frase que uso muuuuito de vez em quando
    saudades do futuro
    beijo
    :o|

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  3. suave dissipação da saudade

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    1. suave é a noite. não fui eu quem disse isso.

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